Sim, confesso que quando pensei no título tinha três ou quatro subentendidos e até sorri com as possibilidades que permitiriam escrever este texto. Mas mantive-me serena e travei tudo o que me veio à cabeça em relação às máscaras… sociais. O “cair da máscara” que, durante estes 19 meses, escondeu a verdadeira personalidade de muita gente, por exemplo.

Mas depois também percebi que, e afinal, as máscaras que usamos são, também elas, sociais, porque nos permitem mostrar aos outros o nosso entender sobre a pandemia, o posicionamento social (lá está), a forma como enfrentamos o perigo e quanto respeitamos o próximo. Sim, partilho da máxima que a minha liberdade termina onde começa a de outrem, e basta isso para me fazer usar uma máscara que irrita a garganta, seca a boca e dificulta a respiração.

Por outro lado, a máscara também me desobriga a sorrir para terceiros quando não estou para aí virada, ou porque alguém assim o espera depois de uma tirada que pensa ter piada. Também tapa qualquer outra manifestação facial que me altera, para o bem e mal, os traços normais. De repente, percebo que deixei de ser anti-social em muitas situações.

Afinal, a máscara é sobretudo social. Portanto, a questão passa a ser: conseguiremos sobreviver sem ela?

Para além das liberdades que nos retira, a máscara impossibilita namoricos à primeira vista (mesmo quando são os olhos que isto e aquilo), torna algumas conversas ainda mais surdas, permite que toda a gente ao lado fique a saber o nosso número de contribuinte e faz-nos suar ainda mais no verão.

Mas, como adiantei, nem tudo é mau. Houve menor transmissão de fluidos, o que diminuiu bastante a gripe sazonal, a urgência em ir ao dentista foi mitigada e as pessoas que sofrem de halitose nunca se sentiram tão livres. Sei que, para muitos, estas não são razões válidas mas acreditem que para outros tantos o são.

Muitos de nós estão em período estival, numa fase em que metade dos portugueses têm a vacinação completa, patrícios que foram, durante alguns meses, incentivados a marcar férias porque o pior já tinha passado, “vai ficar tudo bem”, o que é preciso é dar um boost à economia, e tantos etc. que nos queriam fazer regressar à força ao verão de 2019.

Porém, o verão de 2021 está igual ao de 2020, ou seja, sob a constante e real ameaça do vírus. E mesmo que a luz ao fundo do túnel esteja um pouco maior, a verdade é que, não só a nossa vida social mudou, como nós também. O nosso cérebro não está igual, as defesas estão armadas e olhamos para tudo e todos de soslaio e com receio.

Esta é a verdadeira máscara que já usamos e vamos usar durante muitos anos, talvez durante uma ou duas gerações, e que transforma a nossa existência social a todos os níveis.

Sim, também parei para pensar sobre isto. E escolhi alguns exemplos: quant@s d@s amig@s que estiveram presentes na minha última grande festa de aniversário pré-covid irão aparecer na próxima sem restrições de qualquer espécie? Quais dess@s amig@s perderam o emprego, mudaram de vida, casaram, separaram-se, tiveram filh@s, perderam familiares ou morreram?

Como estará o seu semblante, o sorriso, a cor da pele, o brilho do olhar? Quais serão as conversas, as conclusões, os receios, os futuros? Serão as mesmas pessoas que conheci durante décadas? Estarão disponíveis para retomar a vida?

Será que já estamos a ficar tão profissionais no uso da máscara social, em todos os seus sentidos, que vamos conseguir manter este quase anonimato mesmo sem o tecido a esconder a boca?

Afinal, como vamos sobreviver com e sem máscara?

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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