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Solidão: a pandemia silenciosa

Apesar de estarmos potencialmente próximos uns dos outros, há cada vez mais pessoas a sentirem-se sozinhas. A solidão surge muitas vezes estereotipada como um problema dos idosos, mas é tão sentida quanto temida pela generalidade das pessoas. Lembra-nos que somos seres sociais e que as relações sociais positivas são uma necessidade humana básica e fundamental para o bem-estar. A falta de laços sociais tem efeitos negativos na saúde. Mas do que se fala quando se fala em solidão? Isolamento social e solidão são a mesma coisa? Que impacto tem na nossa saúde?

Texto de Redação

Ilustração de Frederico Pompeu

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Morar sozinho, ter contactos pouco frequentes com amigos e familiares, experimentar uma mudança ou perda significativa, são alguns exemplos de situações que nos podem fazer sentir sozinhos.

A solidão é “uma experiência subjetiva, emocional, intensa e negativa que resulta da perceção de que o número ou a qualidade das relações que nós temos não nos chegam”, segundo Maria Luísa Lima, professora catedrática de Psicologia Social do ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa) e investigadora do Centro de Investigação e de Intervenção Social. “As pessoas sentem que têm poucas pessoas em quem possam confiar assuntos íntimos, desabafar problemas pessoais e delicados ou sentem que têm poucos amigos”, afirma.

Embora estejam relacionados, a solidão e o isolamento social são fenómenos diferentes. Uma definição utilizada por Ricardo Moreira Rodrigues, no estudo “Solidão, um fator de risco”, publicado na RPMGF (Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar), permite fazer essa distinção, ao explicar que “o indivíduo que se sente sozinho perceciona as relações sociais como insuficientes ou de baixa qualidade, tendo em conta as suas preferências de envolvimento social”. No entanto, embora existam “pessoas que têm preferência por passar mais tempo sozinhas e ter uma rede social mais reduzida (isolamento ativo)”, não significa que essas pessoas se sintam propriamente sozinhas. O estado de solidão é por isso uma “discrepância entre as preferências pessoais de envolvimento social e a rede social que o indivíduo possui (isolamento passivo)”.

Podemos olhar para a solidão como uma espécie de sinal de alarme, tal como a fome, para que se procure o que falta. É através desta metáfora, aliás, que Maria Luísa Lima explica que existe uma região do nosso cérebro responsável por ativar o desejo por alimentos quando temos fome, um sinal que é semelhante em pessoas que se sentem sozinhas: “Há um estudo que diz que devíamos olhar para o sentimento de solidão como se olha para a fome, que é um mecanismo que o nosso organismo tem para nos avisar que temos de nos alimentar. A solidão é um sinal de alarme do nosso organismo de que as nossas necessidades sociais não estão satisfeitas e, portanto, devíamos fazer qualquer coisa para acabar com esse sentimento de solidão”.

Maria Luísa Lima é professora de Psicologia Social e das Organizações no ISCTE e investigadora no Centro de Investigação e de Intervenção Social | Fotografia da sua cortesia

O estudo levado a cabo por investigadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) concluiu que a resposta do cérebro à falta de contacto social pode ser comparada à sensação de fome e, por isso, as interações sociais positivas são uma necessidade humana básica, sendo a solidão um estado indesejável que as pessoas tentam combater num processo semelhante ao da fome.

O estado de solidão temporário pode conduzir, muitas vezes, a um sentimento de solidão por um longo período, dando lugar à solidão crónica. Embora seja conhecida como a “pandemia silenciosa”, é um problema de saúde pública que tem um impacto significativo na saúde: produz uma resposta neuroendócrina, isto é, “pessoas que se sentem solitárias ou que são consideradas socialmente isoladas podem mostrar atividade elevada do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, uma resposta aumentada ao stress crónico, pressão arterial elevada e níveis elevados de cortisol no sangue”, conforme um estudo do Journal of the Royal Society of Medicine. Em termos de saúde mental, há evidências científicas de que a solidão está associada à depressão e suicídio, assim como a comportamentos nocivos.

E o que podemos fazer perante o sinal de alarme?

Num primeiro momento, tal como afirma a investigadora, podemos recorrer a uma espécie de “snacks sociais”, isto é, “a coisas que nos tiram a fome, mas que não são uma refeição”. Por exemplo, ver fotografias em que estávamos com as outras pessoas, “que nos mostram que nós temos uma rede de pessoas que gostam de nós e com as quais já nos sentimos bem ou entrar em contacto com elas através das redes sociais”. “As investigações têm mostrado que pessoas que passam grande parte do seu tempo nas redes sociais isso faz com que haja um aumento do sentimento de solidão”, apesar disso, continua, “as redes sociais permitem às pessoas que estão mais isoladas relacionarem-se com as outras pessoas e, como vimos durante a pandemia, se não fossem as redes sociais tínhamos morrido de solidão”.

Para além dos “snacks sociais”, devemos voltar às relações que já existiam. “Há uma coisa engraçada com as amizades dos 20 anos, porque a altura dos 20 anos é uma fase em fazemos a passagem da juventude para a idade adulta e há uma série de mudanças nas nossas vidas”, conta a investigadora, acrescentando que as relações que desenvolvemos nessa altura tornam-se marcantes e mantêm-se durante muito tempo. Por outro lado, devemos também “estar com pessoas da nossa família, com quem estamos só em encontros de família”. No quotidiano, “temos de fazer esse esforço para sair da solidão, repescando relações que nos fazem sentido”.

Estabelecer laços sociais mais fracos também é um caminho importante para as pessoas saíram da solidão crónica. As pessoas devem juntar-se a grupos: grupos de teatro, de dança, de música, de caminhada, de voluntariado. Isto porque “quando a solidão se instala, deixa de ser uma altura em que me estou a sentir só e passo a sentir-me só todos os dias e a ter medo de me relacionar com as outras pessoas”, afirma a também autora do livro “Nós e os outros: o poder dos laços sociais”, que coloca a ideia de individualidade em perspetiva e mostra quanto devemos à interação com os outros.

A Prescrição Social surgiu, no Reino Unido, como uma estratégia para lidar com a solidão e outros fatores sociais que afetam a saúde, através da qual os médicos procuram dar resposta a necessidades “não médicas” com recurso à comunidade (organizações, instituições ou grupos). Segundo Maria Luísa Lima, as pessoas recebem assistência em função das suas necessidades, em que os médicos “encaminham as pessoas para um assistente social, que fala com elas e tenta perceber quais são os seus interesses e, em função dos seus interesses, as pessoas são encorajadas a fazer parte de uma associação ou atividade que tenha a ver com os seus interesses”.

Em Portugal, também foi implementada a Prescrição Social na Unidade de Saúde Familiar da Baixa, em Lisboa, pelo médico Cristiano Marta Figueiredo. Ainda assim, e “apesar da OMS dizer que há muitos anos que a ausência de sintomas de doença não é a definição de saúde”, a investigadora defende que “o nosso Sistema Nacional de Saúde é muito centrado no modelo médico, centrado em sintomas físicos e não no bem-estar geral”.  Para Maria Luísa Lima, a solidão é um problema de saúde pública, porque as pessoas socialmente isoladas têm muitos mais doenças do que as outras, mas há dificuldade em passar esta mensagem por estar fora deste modelo. Por essa razão, “outras dimensões da vida, como esta [social], não é tão levada a sério”.

Um sentimento transversal a todas as idades

É errado julgar que a solidão afeta só os “velhos”. Na maioria das sociedades, a solidão é caracterizada por uma curva em forma de U: assume níveis elevados na adolescência e na idade adulta jovem, diminui até à meia-idade e aumenta novamente na velhice. Com a pandemia, a solidão duplicou na União Europeia e colocou Portugal no sexto lugar entre os países com a maior subida. A solidão entre os jovens com idades entre os 18 e os 35 anos quadruplicou.

Números à parte, também a solidão pode ser compreendida a partir de uma perspetiva de fase de vida e essa perspetiva sustenta que os fatores associados à solidão divergem entre os adolescentes, os adultos e os idosos. Um estudo feito por equipa de investigação da Universidade de Masstricht, nos Países Baixos, concluiu que apesar de haver fatores que são comuns a todas as idades, os fatores associados à solidão também diferem ao longo das faixas etárias.

Viver sozinho, a frequência de contacto, a exclusão social, o bem-estar psicológico e emocional foram alguns dos fatores associados à solidão em todas as faixas etárias. Quanto aos fatores associados a faixas etárias específicas, nos jovens o sentimento de solidão surge associado à frequência de contacto com os amigos, nos adultos existe uma ligação do sentimento à situação laboral e ao estado civil e, nos idosos, a solidão vem acompanhada com problemas de saúde.

De acordo com Angélica, membro da direção da linha de apoio SOS Estudante, “a solidão é um dos temas mais recorrentes nas nossas chamadas” e, segundo dados estatísticos, em 2022 foi um dos temas mais abordados. Criada há 25 anos, por estudantes e para estudantes, resultou da “constatação de que um elevado número de estudantes universitários se sentiam deslocados/isolados”. Atualmente, está aberta à população geral e tem como pilares a “escuta ativa e a empatia”. “Há, de facto, muitas pessoas que a primeira coisa que dizem é que se sentem sozinhas e que não têm ninguém de confiança com quem possam conversar”. Angélica afirma também que, do outro lado da linha, estão sobretudo pessoas entre os 36 e os 49 anos que “referem que com a rotina do trabalho é difícil construir relações mais profundas, ou por não encontrarem nenhum parceiro amoroso, sentem-se mais sozinhas”.

José Paulo Leal, voluntário e membro da atual direção do Telefone da Amizade, reitera que os apelos chegam por parte de pessoas que “por se sentirem sós é que optam por ligar para uma linha deste gênero”. O voluntário esclarece: “As pessoas podem ter pessoas próximas, mas não têm um grau de intimidade para falarem com essas pessoas sobre coisas que as preocupam mais. Mesmo que tenham, o que acontece é que essas pessoas são parte do problema, quando não são o problema. E outra questão, que se liga também com a questão do suicídio, é que não querem partilhar essa informação com alguém”.  

A questão da saúde mental também pode ter efeito no distanciamento das outras pessoas. É o que afirma ao explicar que faz parte da própria doença da depressão “as pessoas não se sentirem motivadas para procurar companhia ou sentirem que não são boa companhia.”

“Temos muitas chamadas relacionadas com a solidão.”, refere. Devido a isso, há uns anos, houve uma tentativa de federação das linhas portuguesas que fazem este tipo de atendimento e o nome que se encontrou foi ‘SOS Solidão’, “tentando ir buscar algo que fosse transversal a todo o tipo de chamadas”.

Aquilo que os voluntários fazem não é equiparado a um ato médico. Procuram, em vez disso, criar um espaço acolhedor em que a pessoa se sinta na paz de poder partilhar coisas íntimas e questões que se prendem também com o suicídio.

No último ano, 12% dos apelos tiveram como tema principal a solidão, que só foi superado pela doença (46%). As chamadas telefónicas vêm de pessoas da faixa etária dos 46 aos 65 anos, enquanto os emails chegam de jovens com idades entre os 15 e os 20 anos. Os apelos são essencialmente de pessoas do sexo masculino (70%).

Portugal deveria criar um Ministério da Solidão?

Na perspetiva de Adalberto Dias de Carvalho, sim. Há irremediavelmente, em cada um de nós, uma dimensão de solidão. O professor do ISCET (Instituto Superior de Ciências Empresariais e de Turismo) e coordenador do Observatório da Solidão afirma que a solidão é “inerente à condição humana”, defendendo que “cada nível etário tem as suas potencialidades e as suas crises” e todas as pessoas de todas as idades são suscetíveis de experienciar o fenómeno da solidão.

Este é um fenómeno que nos acompanha ao longo da vida: “Basta pensarmos que a criança, quando nasce, enfrenta o fenómeno de solidão e chora quando sai do ventre materno (…) Por volta dos três anos, a criança tem experiências com uma certa autonomia relativamente aos pais. Na adolescência volta a ser sentida, acentua-se na velhice e depois temos a morte que é sempre um ato de solidão”. Falar de solidão, afirma, “é falar em estados de rutura com os outros”.

Por essa razão, Adalberto Dias de Carvalho considera que a solidão deve ser objeto de educação para que as pessoas saibam lidar com ela. A solidão “é um estado de alma”, uma expressão, segundo o próprio, pouco científica, mas que “resulta sobretudo de privações pessoais e comunitárias, na medida em que assumimos que o ser humano é um ser de relação e a privação da relação é sempre uma violência sobre cada um de nós”.

Adalberto Dias de Carvalho, professor do ISCET e coordenador do Observatório da Solidão | Fotografia da sua cortesia

O Reino Unido foi o primeiro país a criar um Ministério da Solidão, em 2018, para combater uma “epidemia social” que afeta nove milhões de britânicos. Mas não foi caso único. Também o Japão, seguindo o exemplo, criou um Ministério da Solidão face ao aumento do número de suicídios no país.

O coordenador do Observatório da Solidão defende que a solidão é um fenómeno multidisciplinar. “Se a solidão não se reduz a um fenómeno médico, psicológico ou social, se ela é tudo isso ao mesmo tempo, significa que é preciso combatê-la através de contributos de vários organismos”. Dessa forma, faz sentido a criação de “um organismo político interdisciplinar, seja o que for, uma Secretaria de Estado ou um Ministério da Solidão, que monitorize a problemática da solidão e que deverá ter uma relação transversal com os vários Ministérios”.

*Esta reportagem foi inicialmente publicada a 27 de fevereiro de 2023.

Texto de Marisa Garcia

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