No Village Underground, em Lisboa, ergue-se um mundo novo. Por entre a azáfama da avenida e o burburinho da cidade, ouve-se um ritmo crescente, uma música interior que nos aproxima de nós mesmos. Os jovens vão chegando, como quem pisa um pedaço de terra pela primeira vez, com a certeza de que naquele lugar todos os sonhos são válidos. É para lá deste muro, derrubado pela liberdade de criar e de ser, que a música nasce.

A Skoola é uma Academia de Música Urbana dentro do espaço do Village Underground, onde aprender não segue regras ou modelos convencionais. Ali, todos são convidados a ser eles próprios e a descobrir as suas capacidades e identidade artística. É por isso que a Skoola pretende criar uma família musical, um lugar de conforto, onde todos desenvolvem e descobrem as suas paixões e talentos, despertando a curiosidade para a criação musical e aprendizagem coletiva.

 O Village Underground, espaço no centro de Alcântara, pretende criar uma "aldeia musical", onde se celebra a partilha de experiências entre todos

O Acorde inicial: um sonho que se tornou Maior

Em 2018, surge no Village Underground o Acorde Maior, um ensemble musical performativo que uniu jovens residentes em Alcântara, nos bairros do Zambujal, Cova da Moura, Serafina e Aldeias SOS, durante a semana de férias escolares, em formato de curso intensivo. Durante esses dias, trabalharam, em conjunto com um grupo de facilitadores, para a criação de uma peça performativa final.

“A ideia surgiu da vontade de retribuir todo o apoio que recebemos da comunidade, de dar aos jovens a possibilidade de se sentirem livres, seguros, em tribo, para puderem desenvolver projetos musicais”, explica, ao Gerador, Mariana Duarte Silva, co-fundadora e diretora do Village Underground Lisboa. A ligação do Village a Londres, com o Barbican Centre, o Centro de Arte no coração da cidade, e a Guildhall School of Music & Drama, que prepara músicos para o desenvolvimento de projetos educativos, orientou o destino do Acorde Maior.

Um conjunto de três músicos portugueses, Duarte Cardoso, Joana Araújo e Teresa Campos, formados na Guildhall, atuaram como facilitadores junto dos vários jovens de diversos contextos, tornando-se parte da génese do projeto. Com o patrocínio do Banco Montepio, a Santa Casa da Misericórdia e a Casa do Impacto, a magia do Acorde Maior foi crescendo, contando com a participação de mais de uma centena de jovens ao longo das cinco edições que se seguiram.

O sucesso do projeto Acorde Maior impulsionou a ideia da criação da Skoola, num formato inclusivo para todos os jovens

O Acorde Maior pedia para ser mais. “O impacto foi tão positivo que tinha de ser um projeto maior, para todos. Decidimos começar a convidar jovens de escolas de música para, juntos, criarem peças musicais, com a fusão dos vários backgrounds e realidades de vida”, afirma Mariana.

A música começou a transbordar pelos contentores e autocarros do Village, queria expandir-se e aumentar gradualmente o seu volume. Assim nasceu a Skoola, a Academia de Música Urbana, construída sob os alicerces de um acorde que se tornou uma composição musical inteira, livre, inclusiva, feita por todos e para todos.

Uma Skoola construída sem barreiras

A Skoola surge em maio de 2020, num período urgente, em que os jovens se encontraram durante muito tempo fechados nos seus quartos, em apartamentos pequenos, agarrados ao brilho do ecrã e longe de qualquer meio criativo. “O facto de criarmos este lugar comum, o estar numa sala com facilitadores a cantar, tocar, é essencial para conseguir fazer chegar a felicidade de criar música até eles. Talvez lhes possa abrir outras janelas, outras maneiras de pensar e viver”, confessa Mariana.

Um dos objetivos é alimentar a liberdade artística, colocando à disposição dos participantes todas as ferramentas necessárias

Organizada por ciclos, a Skoola abriu as portas no dia 19 de abril de 2021, estendendo o primeiro ciclo até ao dia 18 de junho. Ao longo de dez semanas, as atividades acontecem das 17 às 20 horas, e são divididas por duas faixas etárias, dos 10 aos 13 anos, e dos 14 aos 18 anos. A aprendizagem incide sobre três grandes eixos: a produção musical, a criação e composição e a performance.

Cada participante tem acesso a vários materiais, instrumentos, softwares e espaços, que lhe permitem explorar projetos musicais ao longo do ciclo. Cada ciclo corresponde a um projeto musical, definido pelos próprios jovens, que traçam o caminho de acordo com o que querem aprender e desenvolver na Skoola, orientados por facilitadores.

A Academia quer-se inclusiva, de forma a desconstruir quem pode aprender música. O principal foco está em possibilitar que todos possam ter a mesma oportunidade de escrever, compor e apresentar a sua arte. A música toma aqui um lugar de destaque, uma vez que é o motor de união que contribui para a partilha de experiências e vivências, entre jovens de diversos contextos, e com os próprios facilitadores.

Nos vários contentores e autocarros que formam o Village Underground, encontramos diversos espaços de criação, com instrumentos, material tecnológico e salas de aula

A abertura de bolsas para integrar os ciclos na Skoola é uma oportunidade de quebrar quaisquer barreiras económicas e sociais no projeto. Este primeiro ciclo, acolheu, na sua maioria, jovens sinalizados pela Santa Casa da Misericórdia, Fundação Aga Khan Portugal, provenientes do Vale de Chelas e de Alcântara. Os bootcamps, à semelhança do que acontecia no Acorde Maior, fazem parte do programa da Academia, que também dinamizará workshops com a Skoola on tour, nos bairros e escolas da cidade.

Aqui não há professores, há facilitadores

A orgânica que sustenta toda a equipa de facilitadores, que orientam os jovens na Skoola, é natural e energética. Há uma vibração inerente que fica no ar, que se respira e se prolonga para o resto do corpo, para os gestos, para os olhares, para a comunicação dessa linguagem universal que é a música. A magia está na simplicidade de dar espaço e tempo ao outro, de trabalhar a autonomia e a autoconfiança, e de, acima de tudo, partilhar em conjunto com os jovens esse caminho pela arte.

Os consultores científicos e pedagógicos da Skoola, Manon Marques (à esquerda) e Abel Arez (à direita)

O Instituto Politécnico de Lisboa é o parceiro pedagógico da Skoola, que chamou à equipa, enquanto consultores científicos e pedagógicos, Abel Arez, presidente do Departamento de Formação e Investigação em Artes e Design da Escola Superior de Educação de Lisboa, e Manon Marques, mestre em Formação Musical pela Escola Superior de Música de Lisboa. A terminar a licenciatura em Música na Comunidade, junta-se à equipa André Ferreira, jovem que colaborou em vários projetos de arte comunitária com o público infantojuvenil.

Como diretor criativo, o pianista Filipe Sousa, mestre pela Guildhall School of Music & Drama e especializado em trabalho colaborativo e participativo com artistas e comunidades, integra a restante equipa de facilitadores, com Tânia Lopes, professora de percussão tradicional portuguesa e fundadora da Associação Cultural Espiral Sonora; Pedro Coquenão (Batida), artista e músico que desenvolve projetos nas áreas da rádio, dança, artes visuais e plásticas; e Karlon Krioulo, pioneiro do hip-hop crioulo em Portugal, artista e produtor independente.

Os facilitadores (da esquerda para a direita), Pedro Coquenão (Batida), André Ferreira e Tânia Lopes

“Já colaborávamos com o Village Underground no projeto que antecedeu a Skoola, o Acorde Maior, e a constatação dos resultados consolidou a nossa convicção de que as metodologias de trabalho da música comunitária podiam ser mobilizadas para a criação de uma escola inovadora, centrada nos interesses e na cultura dos participantes, e na qual as aprendizagens se fazem a partir da prática musical”, partilham Abel Arez e Manon Marques. “Foi nesse sentido que aceitámos o convite para desenvolver o modelo de ensino da Skoola, e fazer o acompanhamento científico e pedagógico do seu desenvolvimento.”

O projeto de investigação Integr(arte), publicado recentemente pelo Alto Comissariado das Migrações, realça a importância de favorecer abordagens que promovam as práticas artísticas, enquanto espaços informais de construção de identidades, na relação com a diversidade sociocultural. “A música, como arte, tem um papel especial no desenvolvimento e afirmação da identidade dos jovens, e é através dela que eles afirmam os seus valores, a sua cultura. Acreditamos que a democracia cultural só se completa nesta capacidade individual e coletiva de afirmação”, acrescentam Abel e Manon. “É por isto tudo que a Skoola não ensina música: organiza processos coletivos de aprendizagem e desenvolvimento musical, cujos protagonistas são os jovens”.

As várias fases que compõem os ciclos da Skoola procuram dotar os jovens para o desenvolvimento de projetos musicais em diversas áreas

A música, e as outras artes, salvam-nos”

“Um dos maiores desafios é romper o complexo, a complexidade interior. Os jovens podem ter medo de criar, de se induzirem em erro, não serem capazes. O objetivo na Skoola é eles sentirem-se capazes, em qualquer arte”, afirma Karlon Krioulo. O aumento do espetro de probabilidades de criação musical, fortalece as relações individuais e coletivas, e permite-lhes “ganhar confiança com o que criam, não se sentirem estranhos com a sua música e a dos outros”.

A liberdade criativa é um caminho a trilhar, fortalecido pela partilha multidirecional de culturas e histórias. “Da mesma forma que a música salvou a minha vida, também quero passar-lhes isso, a disciplina, o respeitar a vez de cada um, respeitar o grupo”, partilha Karlon, “tal como o Primero G, pioneiro do hip-hop crioulo, me ensinou a sentir a música, é assim que eu posso ensinar uma criança a desenvolver as suas capacidades e a ser autónoma. A maioria dos jovens, muitas vezes, não tem um acompanhamento familiar. Na Skoola, podemos acompanhar, dar outra palavra. O mais gratificante é sentir que podemos salvar vidas através da música.”

O facilitador Karlon Krioulo

“Na Skoola, há a vontade de dar acesso livre a miúdos que normalmente só têm acesso a formação se saírem do seu bairro, criando condições para todos coabitarem na mesma escola, sem estigmas”, avança Batida. “Eu estou disposto a aprender muito com eles, e a partilhar tudo o que tenho aprendido, sem ensinar. Gosto de quebrar barreiras e descobrir novas formas de fazer o mesmo, e quero contribuir para um espaço seguro para cada um deles”.

Não só de música vive esta relação. A humanidade do projeto, e da sua pedagogia, leva, inevitavelmente, a uma abrangência de diversas áreas artísticas, mantendo presente “a ideia de que aprendemos uns com os outros, e de que ninguém deve ficar na periferia de poder decidir o que vai fazer com a sua vida”, acrescenta Batida. “O que guardo das minhas experiências são mais os momentos, e as pessoas em particular, e não tanto os projetos na sua formalidade. Depois da água, não conheço nada mais essencial do que este encontro entre nós, desta forma.”

A dupla criativa, Karlon e Batida, já se cruzaram em projetos musicais como o álbum “Passaporti”, e no single “Aquecedor

“Sou Maria capaz de sonhar, até à última gota”

Na medida certa, o Acorde Maior, que se projetou agora na Skoola, trouxe à vida de centenas de jovens a possibilidade de olhar as suas capacidades como valências positivas, fomentando neles um ideal projeto de vida, uma porta aberta para um mundo que muitos desconheciam.

As histórias que cruzaram, e vão cruzar no futuro, o espaço do Village Underground, transportam a virtude de que cada jovem é único, na sua essência, e é parte de um sonho coletivo. Este sentido agregador, contagia a forma como atravessam a vida e como comunicam e se relacionam nas suas comunidades.

Mayra é residente no bairro da Serafina, em Lisboa, e participou na primeira edição do Acorde Maior em 2018. “A minha experiência foi muito boa, ajudou-me a ter mais orgulho nas minhas origens. O que mais me marcou foi conhecer o Batida, e descobrir que escrevia bem e, por isso, comecei a sonhar em ter o meu próprio estúdio, e no futuro ser manager, ou fazer marketing para artistas”, revela Mayra ao Gerador, enquanto falávamos sobre a sua ligação ao projeto.

Tal como Mayra, muitos foram os jovens que passaram pelo Acorde Maior e descobriram talentos e capacidade de criação autónoma

Acabou a lançar os Mambos da Mayra, com a mixtape visual AMADOR, onde compõe e escreve as próprias letras. “A música é muito importante para as crianças se poderem expressar, não só a música, mas a Arte como um todo. Eu acredito que isso transforma a vida das pessoas, assim como a comunidade onde vivem. Os cantores que nós vemos hoje na berra, vieram de comunidades como a minha, e certamente tinham lá quem acreditasse neles. Hoje esgotam concertos, não só pelo apoio que tiveram, mas pela aceitação pessoal que os próprios artistas tiveram para com eles mesmos, e isso veio de algum lugar, de projetos como a Skoola.”

Atualmente, é embaixadora da Skoola, “tento trabalhar sobre o que sinto, como o Batida nos disse um dia, «não é sobre fama e views, é sobre o que sentimos». É isso que procuro passar, eu sou porque tu és, espero que isso sirva de exemplo”.

A Skoola é construída pela relação humana entre os jovens e facilitadores, estimulada pelo poder da música

A música e a arte em todas as suas dimensões têm um forte poder transformador. Só precisam de um espaço para se instalar, se mover, se desenvolver. Precisam de um beat, de um afoxé, de uma pandeireta, de uma caneta, de um passo de dança. O resto… os jovens sonham.

“Eu quis sonhar mais alto
Perguntei a Deus
Será demasiado
Eu só quero ser eu
Não tens de acreditar
Acredita no teu
Só quero olhar ao espelho
E saber que eu, tentei o meu
Agora eu sei, o que é que eu quis”

Slow J – Também Sonhar ft. Sara Tavares

Texto de Ana Mendes
Fotografias de Diana Mendes

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