“Sou como Sou” é o novo single de Ana Bacalhau. A cantora juntou-se aos músicos Alex D’Alva Teixeira e Ben Monteiro para trazer, no mês pride, um hino de autoaceitação e de libertação de moldes que não nos servem. “É aberta a todas as experiências de todas as pessoas que se sentiram alguma vez escrutinadas e injustamente remetidas para uma caixinha e para um molde que não lhe interessa.”

Em junho, assinala-se o Pride Month, o mês em que se comemoram anos de luta pelos direitos civis e procura contínua pela igualdade de justiça para com os membros da comunidade LGBTQIA+. Neste mês, Ana Bacalhau, apresenta a música “Sou como Sou”, um hino que fura estereótipos e que não é só sobre mulheres, mas todos os seres humanos que se vêm presos em caixas nas quais não cabem.

“De salto alto ou sapatilha, saia curta ou comprida, visto sempre aquilo que bem me apetece / Sinto-me ‘linda de bonita’, assim livre leve e solta, tão pouco m’importa se bem te parece”, é assim que Ana Bacalhau afirma que cada um pode ser o que quiser. A cantora juntou-se aos músicos e compositores Alex D’Alva Teixeira e Ben Monteiro, que escreveram a letra e a música do tema, e deixou a produção do tema a cargo de Twins, com quem já tinha trabalhado no single “Memória”. A música é acompanhada de um videoclipe com várias mulheres do seu círculo, desde cuidadoras a engenheiras, mulheres que são como são.

Em entrevista ao Gerador, Ana Bacalhau contou-nos mais sobre “Sou Como Sou”, sobre ser mulher e a liberdade de sermos nós próprios.

Gerador (G.) – Já foste questionada por seres quem és?

Ana Bacalhau (A.B.) – Regularmente. Quem tem uma profissão como a minha está sempre a ser avaliada, e quando a nossa obra artística vem de nós, aquilo que somos está sempre a ser questionado. Tantas são as vezes em que leio comentários de pessoas convencidíssimas de que sabem melhor do que eu o que é bom para mim, o que sou, o que devo cantar. Mesmo que eu lhes diga que não, porque tenho acesso privilegiado a quem sou, elas não acreditam. Por isso, quem eu sou está sempre a ser questionado, por mim, claro (e isso é saudável), e pelos outros, é saudável quando é uma coisa construtiva, quando é para me aprisionar em conceitos que não me pertencem, já não é tão interessante.

G. – E ser mulher no mundo da música? Ainda há a crítica e também procura por ser a cantora perfeita?

A.B. – As críticas podem tender a ser mais focadas no físico, na postura. Se uma mulher for uma pessoa interventiva, é-te menos perdoado do que se fores homem, com opiniões com causas. Fisicamente também. Se sais dos moldes e padrões, és um alvo fácil de crítica, e não falo só em termos de corpo, mas no envelhecimento, essa grande falha que ainda temos enquanto sociedade. Não me venham dizer que a sociedade já resolveu bem o tratamento que se faz no tratamento de um homem a partir da sua meia-idade e de uma mulher na sua meia-idade. Basta ver quantas cantoras há no mainstream, com mais de 50 anos, e quantos homens existem com a mesma exposição.

G. – Também existe o facto de ser mãe e não poder ser cantora, o facto de querermos colocar sempre a mulher em caixas…

A.B. – Queremos colocar sempre as pessoas em caixas. Mas a mulher tem um papel, ou é-lhe atribuído um papel que as condiciona na sua liberdade de escolha e postura, não sendo bem aceite quando sai desses padrões. Enquanto cantoras, somos vistas como adornos, não como criadoras com plena posse das suas capacidades intelectuais e artísticas, e, por isso, a questão do envelhecimento é colocada com maior violência sobre as mulheres. Porém, é mais bem aceite ser cantora do que instrumentista. Por exemplo, na minha banda tenho uma mulher a tocar guitarra elétrica e a minha tour manager é uma mulher, é quem vai connosco para a estrada, organiza tudo para que o espetáculo possa acontecer, carrega o material, monta o palco, tem uma profissão ainda muito atribuída ao mundo masculino, e muito executada por homens em Portugal. Tenho duas mulheres a ocupar posições atribuídas ao mundo masculino e para elas é ainda mais difícil. As cantoras, ainda assim, é algo mais normalizado, não há aquela coisa da má fama.

G. – Foste buscar essas questões para o teu videoclipe, não quiseste apenas mostrar as diferentes formas físicas de uma mulher, mas também mulheres que furaram estereótipos. São também mulheres do teu círculo, como surgiu esta ideia?

A.B. – Em primeiro lugar, eu não queria um vídeo que fosse como um anúncio, com casting e pessoas que não conhecesse, ia soar falso. Queria que viessem do meu círculo mais próximo e alargado também, pessoas que admirasse e, de certa forma, pudessem mostrar os vários caminhos que existem para as mulheres. (No videoclipe) Está a Eugénia, que além de guitarrista faz kickboxing, a Bruna que está com a sua avó que cuidou da família, a Laíse que cuidou da minha filha (uma cuidadora também), a Carlota que é engenheira e bailarina, a Inês que organiza eventos e canta, e eu. Portanto, temos aqui um leque grande de mulheres que têm vivências diferentes, personalidades diferentes que espelham coisas diferentes. Mas claro que também já tive críticas ao vídeo, de alguém que dizia que só mostrava uma mulher mais velha, mas eu tenho 42 anos, estou na meia-idade. Isto não tem só que ver com idades e estereótipos, quis mostrar várias possibilidades, e não queria fazer algo como um anúncio publicitário que não soasse verdadeiro.

G. – Olhando para o início, dos Deolinda até agora, ao teu projeto a solo, as tuas músicas sempre espelharam o universo feminino, sempre abordaste temas relacionados com os sentimentos das mulheres, aqueles que não são supostos serem falados. Tem sido uma preocupação tua, ou é algo que surge naturalmente?

A.B. – Acho que sempre foi natural, porque faz parte de quem eu sou, e as pessoas a quem me associo também viverão um pouco na mesma bolha de interesses, por isso naturalmente atraí esse tipo de coisas  para cantar. Se quero cantar coisas que sejam próximas de mim, isso vai sair naturalmente, e também porque é necessário dar voz às mulheres, ao que sentem, pensam e como observam o mundo. Hoje, perguntavam-me se via diferença entre a música e literatura feita por mulheres e homens. Ao mesmo tempo, acho que não, na sua essência do que é ser humano. O importante é dar voz e atenção, tanto a uma obra artística feita por um homem, como por uma mulher, não é por ser homem ou ser mulher que tem mais valor. Não sei se alguma vez se poderá provar que existe arte de género. O ser humano é tão complexo, variado, com experiências tão diferentes, não sei se poderemos encapsulá-lo só naquilo que produz e ligar-se a só um dos aspetos.

G. – Até porque a “Sou como Sou”, foi escrita por dois homens, o Alex D’Alva Teixeira e o Ben Monteiro. Como surgiu esta parceria?

A.B. – Lá está, dois homens escreveram esta música! Há muito tempo que queria trabalhar com eles e, finalmente, eles escreveram duas canções neste disco, diferentes, mas que mexem comigo. Fiquei contente quando me entregaram duas canções, e pensei, “que bom, olharam para mim e decidiram escrever isto”, porque eu senti isto na pele, esse julgamento de morfologias. No início, com os Deolinda, era mais pesada e passei por alguns amargos de boca, por causa disso, não só comentários desagradáveis como produções de moda que não existiam. No entanto, perdi peso e não deixei de ser criticada, mesmo tendo emagrecido.

G. – Achas que esses comentários já estão tão enraizados na nossa sociedade que, quem os diz, já não nota?

A.B. – Há quem diga que não percebe o que está a dizer, mas o que está a dizer é que o teu corpo está errado, e isso mexe com a cabeça das pessoas. É preciso as pessoas saberem disto para saberem o que estão a fazer e a dizer, serem confrontadas com os seus preconceitos e refletirem. Não o digo em tom acusador, digo porque teve impacto em mim e não concordo que os corpos estejam errados para as roupas: a roupa serve à pessoa e não ao contrário, e a pinta e o estilo valem por qualquer norma.. A confiança muda tudo. Não deitem abaixo a confiança das pessoas que, supostamente, não terão um corpo tão parecido com os padrões. O padrão é algo que se encontra mais estatisticamente numa comunidade, e aquilo que eu vejo nas ruas não é aquilo que eu vejo que é vendido como corpo padrão. O corpo padrão é aquele que eu vejo na rua. Mas não devia haver padrão nenhum, devia haver essa confiança, estilo, assertividade, essas coisas que vêm de dentro para fora e não de fora para dentro.

G. – Estamos no mês pride, esta música ter saído nesta altura é também um hino de libertação e autoaceitação para todos, e não só para mulheres?

A.B. – Por isso é que tenho o cuidado de dizer para pessoas. Está a palavra mulher, porque é cantado por mim e faz sentido, uma vez que este escrutínio ao corpo tem sido bastante violento na história feminina. Mas não é fechada na experiência feminina, é aberta a todas as experiências de todas as pessoas que se sentiram alguma vez escrutinadas e injustamente remetidas para uma caixinha e para um molde que não lhe interessa, por isso, é absolutamente aberta.

G. – Quem são as pessoas que te inspiram a ser como tu és e que são também esse modelo de pessoa que ‘são como são’?

A.B. – Em primeiro lugar, a minha filha, porque as crianças ainda não têm esses filtros, e são, muitas vezes, a família, os adultos, a escola, as vivências que os obriga a filtrarem-se. A minha filha, sem dúvida, porque é livre. Depois tenho uma grande pancada pela Janis Joplin. Apanhei-a na minha adolescência, com os meus 17 anos. Ela, pela liberdade de ser quem era; há 60 anos a vida para as mulheres era muito violenta, era violento serem como eram, com perigo de morte até, e ela não tinha medo, e ainda hoje ela ainda não está nos moldes, ainda hoje, já morreu e leva com isso. A Nina Simone, Sam Cook, Amália Rodrigues, Elis Regina, muitas cantoras. Mas na minha vida são muitas mulheres da minha família que me inspiram a ser como sou, não só pelo exemplo de coragem por serem quem são, mas também aquelas que não foram fiéis a si mesmas, mulheres e homens que se deixaram encapsular por esses moldes e eu não quero isso para mim, e isso também é uma inspiração.

G. – O que podemos esperar do próximo álbum?

A.B. – Eu já comecei a perceber que é um álbum que fala destas coisas de nos aceitarmos e não cedermos a pressões externas. Há outras músicas que falam disso, por exemplo, uma do Jorge Cruz que fala sobre bullying, baseada na minha experiência, a Francisca Cortesão também me ofereceu uma música, uma canção leve, sobre ir dançar ao domingo porque a festa só acaba quando me fartar de dançar, eu sou a festa e vou-me libertar na pista de dança, que é o que andamos a almejar. Tem uma canção da Mafalda Veiga e duas músicas escritas por mim também, e outras coisinhas que mais tarde saberão.

Entrevista por Patrícia Nogueira
Fotografia de Arlindo Camacho

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