A expressão “pessoas de bem” é conhecida por mim desde criança. Acho que a ouvi, pela primeira vez, através da minha avó materna, a minha avó Paula, com quem tive o privilégio de crescer. Para a minha avó Paula as “pessoas de bem” eram quem tinha uma posição económica muito acima da nossa família.

Na nossa rua havia algumas. Eram pessoas com casas grandes e com carros sempre brilhantes. Cresci a pensar que “pessoas de bem” eram como a dona Mariazinha e a família Martins, por exemplo.

Eu, os meus pais, o meu irmão e a minha avó, inclusive, éramos "pessoas boas"! Porque vivíamos bem uns com os outros e com os vizinhos.
Na adolescência e em contacto com outras pessoas, que não só as da minha escola e turma, vizinhos e família, fui desenvolvendo outros conceitos que, tenho a certeza, fizeram de mim o que sou hoje. Nesse contexto, em que muitas vezes a discussão e a acção pela intervenção na sociedade, permitiu-me reflectir sobre as “pessoas de bem”, no significado dado pela minha avó Paula, e percebi que, na sua maioria, não estão associadas ao seu estatuto económico. Na verdade, deparei-me muitas vezes com essa contrariedade.
Numa época em que era mais activista e que já sabia que individualmente se pode mudar muita coisa no mundo, ou pelo menos no mundo em que habitamos, fui-me cruzando com essas ditas “pessoas de bem”, em situações de má acção e de abuso de poder. E nessa altura deixei de me referir a essas pessoas como “pessoas de bem”. Passaram a ter apenas a denominação de: pessoas!
Porque haverá pessoas de bem em oposição a pessoas de mal? Ou apenas pessoas? Criaturas humanas, de uma forma lata.

Acho que desde esse tempo, anos 90, que não usava a expressão “pessoas de bem”, (terei alguma vez usado?), para meu espanto voltei a confrontar-me com ela agora, no ano de 2021. Passaram alguns anos e, felizmente, foram introduzidos tantos outros conceitos na minha vida com os quais me rejo e identifico, que sinceramente nem me lembrava deste. E agora deparo-me, novamente, com ele.

A expressão “pessoas de bem” que, neste momento, é empregue em discursos que mais são “sons cavernosos, zangados e irritados”, não é, nem nunca será a que a minha avó Paula usou e a que eu mais tarde deixei de usar. São palavras mal empregues por quem faz ideia do que fala e para quem fala!

Vivemos em pleno século XXI e as nossas “lutas” têm de ser outras. Não se pode voltar a questionar posições sociais e económicas como meros medidores de pessoas e de qualidades humanas, muito menos usar pessoas para escalar na vida.

Nós, europeus, gostamos de questionar países e culturas que não partilham as mesmas influências e características do nosso “mundo ocidental”, e distanciamo-nos, como exemplo, do sistema de castas na sociedade Hindu, para enaltecer a gestão horizontal que nos rege. Mas fazemos por não referir, porque não há como esquecer, que há menos de 80 anos morreram mais de 70 milhões de pessoas numa guerra europeia — a II Guerra Mundial — contra civis que não eram “pessoas de bem”, tais como as que agora tanto ouvimos em campanhas políticas no nosso país. O que é muito assustador!
E ainda é mais gritante se recuarmos a algumas décadas atrás, e numa memória tão recente e viva do nosso país, a Guerra Colonial ou do Ultramar, como era referida durante o Estado Novo. Uma guerra, sim uma guerra! Nós, o país pacífico, solidário e generoso provocámos guerra. Uma guerra que se sustentava por um princípio político de defesa de um território que era considerado nacional e que por tal deveria ser mantido a todo o custo, e alterar as suas gentes, que não eram “de bem”, para que adquirissem costumes que se defendiam como superiores aos deles.
Não estamos assim tão longe disso para que nos possamos esquecer!
No final do dia 24 de janeiro de 2021 deparei-me, deparamo-nos, com o resultado de uma amostra da nossa gente que se volta a afirmar e identificar com as ditas “pessoas de bem” que tanto se fala e que, me parece, estiveram em silêncio estes anos. Silêncio que foi “ensinado” e respeitado durante o Estado Novo. Mas parece-me que este silêncio a que tanto temos sido educados e do qual temos sido respeitadores também permitiram que mais de 50% dos eleitores não se manifestassem. Não ficámos, assim, a saber se há mais ou menos pessoas que se distinguem de outras por serem “de bem”.

Eu tive uma certeza: não posso, não podemos deixar que se levante uma bandeira que não nos representa, que já foi abandonada há 46 anos atrás!
Não quero, não queremos voltar ao que lutamos contra!
Não permito, não permitiremos que nos representem sem sermos ouvidos e respeitados pelas nossas diferenças.
Por isso, e por muitas mais razões, ao ouvir hoje a expressão: “pessoas de bem” por quem a usa sem medir as palavras que diz para chegar a um lugar de poder, porque é isso, apenas isso!, eu afirmo-me como: Não sou uma pessoa de bem!

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
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