Os profissionais de saúde enfrentam ainda hoje a provação por que passam ou passaram os seus pacientes com COVID-19 em estado crítico.

Alguns destes sobreviventes terão uma cicatriz emocional pelo tempo gasto na unidade de cuidados intensivos (UTI) e correm maior risco de problemas psicológicos, como ansiedade, depressão e transtorno de stress pós-traumático (SPT). Não será muito difícil entender porquê. O choque, o tratamento, o ter que lidar com a doença e até a sobrevevivência.

David Shulkin, ex-secretário de Assuntos de Veteranos e ex-presidente e CEO do Beth Israel Medical Center, disse numa entrevista em Nova York ao HealthDay Live Stream que e cito, “Infelizmente, acho que essa é uma das consequências não intencionais esperadas de uma pandemia” e ainda acrescenta que “em quase todas as outras pandemias estudadas, houve problemas comportamentais de saúde associados que foram não apenas de curto prazo, mas de longo prazo, e este não é diferente.”

Shulkin observou um estudo de Wuhan, na China, no qual mais de 700 pacientes com COVID-19 receberam um teste-padrão para detectar sintomas de stress pós-traumático e a conclusão foi que “mais de 96% dos entrevistados indicaram que estavam sofrendo de SPT”. Foi aí que deixou o alerta, a par de tantos colegas: “Acho que é algo para o qual devemos fazer uma avaliação muito séria e garantir que estamos lidar com esta questão”.

Por cá, numa das M-Talks 4ALL do Festival Mental, tivemos o Professor Miguel Xavier a alertar exactamente para a mesma questão.

O stress pós-traumático, ao contrário do que é vulgo pensar, não diz respeito apenas a veteranos de guerra ou soldados regressados de trincheiras. Geralmente associado a esses episódios e em particular, claro, aos homens, o SPT é muitas vezes retratado no cinema, nos imensos filmes de guerra a que assistimos. Daí talvez esta ideia se tenha erroneamente instalado.

Tal como o chamado “Baby Blues”, que só recentemente passou a ser vista e tratada como uma depressão (agora chamada depressão pós-parto), o SPT não é ainda visto como uma doença mental que ocorre num espectro muitíssimo mais vasto do que o relacionado com a guerra ou mesmo da violência sexual ou Bullying.

Os efeitos da pandemia, seja por quem passou pelas Unidades e tenha tido a doença, seja por todos os outros que lidaram mal com o confinamento ou ainda pelo que está para vir com os graves problemas sócio-económicos que estamos e iremos enfrentar, estão ainda por se saber. Em grande escala, só daqui por muito tempo será possível avaliar todo este impacto na saúde mental das pessoas.

Contudo, o SPT é já um dado adquirido que irá acontecer e é obrigatório estar alerta.

Em termos gerais, esta condição está relacionada com o testemunhar ou experimentar um trauma – seja directamente, seja através de uma pessoa próxima.

Perder um ente querido para o vírus é, por sí só, um evento traumático. Mas pode persistir no tempo, já que as pessoas são afectadas de  diferentes formas.

E em que se sintomas se pode traduzir, na prática?

Ter pesadelos ou flashbacks onde se revive o acontecimento, começar a evitar locais, situações ou pessoas que o façam lembrar,

passar a haver alterações comportamentais e emocionais (esquecimento, modo como se relaciona com os outros, modo como se sente consigo próprio), dificuldade em dormir ou em se concentrar, ter medos irracionais, assustar-se com facilidade, entre outros, são alguns deles.

A pandemia do Covid-19 pode exarcebar as condições de saúde mental já existentes (já aqui falámos do aumento de consumos de álcool ou drogas, comportamentos aditivos diversos) e causar novos sintomas relacionados ao stress. Seja pelo facto de não ter podido ver a família e amigos durante muito tempo, por sofrer de isolamento de uma forma demasiado grave, porque as alterações do dia-a-dia trouxeram pertubações maiores (a perda da rotina tem impacto diferentes em cada um), ou por aquilo que ainda está para vir na falta de condições económicas e financeiras.

Para já, o importante é estar atento. Pessoas com SPT não conseguem superar essa condição sozinhas. Os sintomas vão persistir e agravar-se se não procurarem apoio especializado. Existem tratamentos, seja através de medicação psiquiátrica, psicoterapia cognitivo-comportamental ou ambos. O certo é que geralmente o mais difícil é reconhecer que algo não está bem, aceitar a situação e pedir ajuda.

Porque o estigma persiste na nossa sociedade, importa estar atento, olhar para quem está próximo, não ter medo de perguntar em caso de dúvida. Porque em relação a este tema, que muitas vezes só se reconhece a longo prazo, muito ainda está para vir.

Havendo solução, como há, basta seguir o caminho do tratamento.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
gerador-gargantas-soltas-ana-pinto-coelho