No passado dia 17 de agosto a Academia de Dança Arte em Movimento lançou o vídeo "STAND UP", uma mensagem de alento e força a todos os vianenses que este ano não podem sair à rua e percorrer a avenida, naquela é conhecida como a maior romaria do país. Pela primeira vez, em quase 250 anos, as festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, tiveram de ser adiadas, marcando apenas presença no online, como aliás quase tudo. Hoje é o último dia de romaria, mas sem as habituais ruas cheias. Esta condição não parou o grupo das jovens bailarinas minhotas, protagonistas deste vídeo, que quiseram ainda assim deixar o seu contributo e apelar a que a romaria fosse vivida nas casas do vianenses.

Tudo começou durante o período de confinamento. Susana Domingues, apelidada de Sue Mar e diretora da Academia, bem como diretora artística desta produção, conta em entrevista ao Gerador que este foi um ano particularmente difícil. A Academia celebra dez anos, uma data que "não poderia ficar por assinalar com uma grande produção". Mas os planos tiveram se ser adiados, pelo menos até novembro. "Em relação aos espetáculos, acho que a nossa primeira preocupação era mesmo garantir a segurança de todos, aceitar e perceber que não era possível de momento. Mas em momento algum nós entendemos que não iria acontecer, até porque este ano é um ano diferente para nós", afirma Sue. Mantiveram os ensaios e confessa que, embora as expectativas não fossem altas, o resultado do trabalho desenvolvido pelos alunos da Academia em casa "era excelente e, claramente, a força de vontade de querer fazer acontecer era enorme". Foi desta força de vontade que nasceu o vídeo "STAND UP", realizado por André Cardoso e coreografado por Cristiana Neto, que conta ainda com a participação da vereadora Carlota Borges, do Grupo Etnográfico de Castelo do Neiva e do Rancho Folclórico das Lavradeiras de Vila Franca Vila Franca.

Pela primeira vez a Academia não encerrou durante o mês de agosto, como é habitual. Os ensaios para o espetáculo final continuam, desta feita nas instalações da escola de dança. Sue conta que quando se aperceberam "que a romaria se ia sentir este ano muito mais online também nessa altura decidimos dar o nosso contributo, o nosso cunho". O objetivo era apenas um: mostrar aos vianenses que "embora este ano sintamos a romaria atrás de uma espécie de uma cortina, não é por isso que não a deixamos de sentir igual, só não vamos poder sair à rua".

Foi a música escolhida que inspirou depois toda a coreografia e produção do vídeo. "Stand Up" faz parte da banda sonora do filme Harriet e é cantada por Cynthia Erivo, uma atriz britânica, filha de pais nigerianos. A letra da música remete para a libertação de pessoas escravizadas no Sul dos Estados Unidos da América, durante a Guerra Civil, mas para Sue Mar "transmitia exatamente aquilo que queríamos transmitir ao vianenses: a questão do “mantenham-se de pé, com um povo unido, vamos sempre em frente criar um novo lar”".

O vídeo foi entretanto removido do Facebook e do Instagram. Aquando da entrevista com Sue Domingues ao Gerador o vídeo havia sido retirado há cerca de uma hora, notificado por alegadas denúncias de racismo e apropriação cultural. Horas depois a escola de dança lançou um comunicado, a contar o sucedido, entretanto retirado das redes pela própria de forma a "não permitir que algo que foi criado com tanto amor se torne num instrumento que a meu ver quase que desvaloriza uma causa tão importante como é a do racismo". "O vídeo não nasceu com este objetivo, para ser um instrumento de ódio", afirma Sue num vídeo lançado na sua página do Facebook, com o objetivo de desfazer toda a controvérsia e equívocos gerados. Ainda segundo as declarações presentes neste vídeo, a Academia foi entretanto notificada pelo Instagram de este não contém qualquer conteúdo racista, tendo sido por isso retirado devido à falta de direitos de autor da música. A responsável pela Academia afirma que estes direitos foram já solicitados à editora, estando agora a aguardar aprovação para que o vídeo possa ser reposto nas redes sociais.

Esta não foi a única controvérsia levantada nas redes sociais. A utilização de uma música estrangeira naquilo que poderia ser para alguns uma promoção da cultura de Viana do Castelo foi também alvo de crítica. Contudo, Sue foi peremptória: "Este não é um vídeo promocional de Viana, mas sim uma mensagem de força aos vianenses. Se nos tivesse sido pedido um vídeo, ou até se quiséssemos fazer um vídeo de promoção de cultura, claramente que não íamos usar uma musica estrangeira. O nosso objetivo e a mensagem a passar era e é de força". Ainda assim, conta que não podiam "deixar de ir buscar aquilo que marca estas festas da romaria, que é o traje". Vestir estes trajes significa para os vianenses sentir a "Chieira de Viana" - algo que "não dá para explicar, não é palpável, algo que se sente e, portanto, se é um sentimento, não faz sentido, nem pode, desaparecer só porque não podemos sair à rua".

Apesar de tudo isto, o vídeo alcançou o inimaginável para esta escola de dança do concelho de Viana do Castelo. Sue conta que a experiência de filmagem foi importante para o grupo de bailarinos e que procuram apenas "tirar o melhor partido da experiência e das filmagens". Para surpresa de todos, o vídeo percorreu "os quatro cantos do mundo" - "sair de Viana e passar para Portugal já foi surreal para nós, mas quando nos apercebemos que estávamos completamente fora fronteiras, que tínhamos pessoas da Holanda, do Canadá, da Suécia, do Dubai, de Cuba, foi incrível". E é esta a experiência que quer que os seus alunos retirem, vivendo o momento e tudo o que conseguiram alcançar com esta produção.

Entrevista Bárbara Dixe Ramos
Fotografia do vídeo "Stand Up"