“Causa Maior”, da Companhia Maior, é um dos dezasseis projectos apoiados pela 1ª edição do concurso PARTIS & Art for Change, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação "la Caixa”, que se destina a apoiar, no valor de 1,5 milhões de euros, as propostas que visam trabalhar a integração e a construção de relações sociais mais saudáveis, isto é, mais justas, solidárias e coesas, a partir da expressão artística.

A Companhia Maior, fundada em 2010, por Luísa Taveira e Tiago Rodrigues, com residência no Centro Cultural de Belém, é composta por artistas profissionais com mais de 60 anos de idade, e não uma actividade de tempos livres. A Causa Maior é a idade maior, uma relação mais ampla e profunda com o tempo que cada corpo é, desalojando o poder que o arruma.  O que pode um corpo? Como vive bem? Quem o mede? Quem responde?

A leitura da Companhia, debruçando-se sobre a sua década, é a de que “a actividade artística e a criatividade são inerentes ao ser humano e não têm qualquer tipo de idade limite. Prova que a nossa sociedade é muito cheia de regras, relativamente a quem é que pode trabalhar e quem já não pode trabalhar, quem é que pode ter uma actividade intelectual e quem é que não pode ter uma actividade intelectual, no sentido em que as suas capacidades estão mais reduzidas, ou menos reduzidas.  Há muito a ideia de que as pessoas, a partir de uma determinada idade, passam de contribuidores para beneficiários dessa mesma sociedade. A Companhia Maior vem alertar que, para se contribuir para a comunidade, não há limite de idade, e, sobretudo, há ainda menos, quando nos movemos numa actividade artística e criativa. Por outro lado, é também um projecto de valorização de experiências. Uma boa parte dos objectos artísticos que a Companhia Maior criou, ao longo destes anos, são radicados naquilo que foi a experiência de vida de cada um dos seus elementos. Esta sabedoria, ligada à experiência que, nas sociedades antigas, encontrávamos como valorizadora dos mais velhos, acho que volta a estar um pouco na ordem do dia com este tipo de projectos”, refere o Presidente, Miguel Honrado.

Segundo dados da PORDATA, relativos ao ano de 2019, o índice de envelhecimento da população portuguesa é de 161,3%. No entanto, “as respostas sociais não estão a promover mudanças sistémicas que contribuam para o aumento efectivo da qualidade de vida da população sénior. O conceito prevalecente de Envelhecimento Activo tem sido criticado no meio académico por obedecer a lógicas de cariz economicista e neoliberal, que reforçam uma representação homogénea e monolítica do idoso, acabando por promover o preconceito do ‘idadismo’”, lemos na apresentação da Causa Maior. Susana Martinho, 2ª vogal, descreve as imagens desajustadas que se criaram em torno deste, impulsionadas aquando do Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, celebrado em 2012, de uma espécie de idealização da velhice. Este gesto de desconstrução do envelhecimento, que nos permitirá pensar em “envelhecimentos”, pretende ser, para a Companhia, um contributo para o debate de políticas públicas mais consciente. O pensar contemporâneo tem-se tornado mais severo, na opinião de Miguel Honrado, devido à consolidação gradual de uma “perspectiva funcionalista da sociedade.” Apesar de, por vezes, se discutirem estas questões, não as encontramos aplicadas em projectos. “Não existem canais de expressão na própria vida pública. Têm de ser criados, para que esse posicionamento se manifeste, se torne o mais quotidiano possível. Essa abertura para a expressão pública é o primeiro passo para que possamos colocar um questionamento, que se manifeste em decisões políticas.”

Muitas vezes, o modelo parece puxar o futuro para trás. A tirania da imagem instala uma tirania do tempo e inaugura um combate perdido da pessoa consigo mesma, em vez de uma descoberta compassiva da expressão do tempo em si. Para a dança clássica, por exemplo, um bailarino ou uma bailarina começa a envelhecer muito cedo. Nas artes performativas, “o percurso profissional e remuneratório tende a ser precário, impedindo a criação de um plano de vida que assegure condições materiais confortáveis. O corpo e a imagem são instrumentos fundamentais de trabalho, pelo que sofrem duplamente os efeitos negativos do ‘culto da juventude’, ficando mais expostos à desvalorização social, perda de auto-estima e de laços sociais. Geram-se situações de particular vulnerabilidade que exigem intervenção em vários domínios”, lê-se na descrição do Projecto.

“Esta questão é pouco falada, também, no meio da cultura”, atenta Susana. “Apesar de tudo, a criação artística é herdeira de determinados modelos. A arte contemporânea e a criação contemporânea vêm subverter muito esse tipo de idealização de um modelo físico, ligado ao auge da performance física. Mas a área artística não foge a determinado tipo de fenómenos geracionais. Há uma tendência para que os artistas trabalhem, sobretudo, com artistas da sua geração. Portanto, esse escalonamento, ou essa arrumação, ainda acontece. Tanto assim é que, na Companhia Maior, ao longo dos seus 10 anos de actividade, pusemos em contacto gerações de artistas, de criadores, que, muitas vezes, fugiam à geração de quem compõe a Companhia. As pessoas ficaram bastante marcadas com esse trabalho, com uma companhia e um grupo de artistas que foge um bocadinho ao cânone”, repara Miguel. Esta experiência permite, então, “confrontar as pessoas que estão no terreno com a sua própria perspectiva de vida”, acrescenta Susana.

Quando o pensamento é movimento, abre espaço. A Causa Maior procura ser corpos de questionamento, para que novas respostas surjam, onde “viver bem” seja uma procura de cada pessoa, numa sociedade que a acolhe, na sua vontade e singularidade. “A aposentação é a fronteira para que as pessoas passem a ter essa designação de idosos. Na Companhia Maior, apesar de serem actores mais para lá dessa idade, temos várias gerações. A Luna Andermatt [fundadora da Companhia Nacional de Bailado], por exemplo, fez um último trabalho com a Companhia Maior, quando já tinha mais de 90 anos. Estamos a chamar a atenção de que ‘idoso’ é uma designação completamente redutora, porque a vida continua e há muitas gerações, sob essa designação simplista, que é uma questão de arrumação para tranquilizar a consciência. Por outro lado, acho que também há uma grande riqueza da Companhia, que é a diversidade de experiências de vida.” O facto de ser pensada para profissionais cuja idade é maior, constituiu-se como uma resposta a uma lacuna da sociedade, e não a uma segregação injustificada. O seu desejo último passa, também, por contribuir para a intergeracionalidade nos colectivos culturais. “A Companhia Maior acaba por ser uma vitrine, um espaço de revelação do trabalho destas pessoas, para que possam ser convidadas a integrar noutros contextos criativos, quiçá mais intergeracionais, ou com outro tipo e objectivo artístico de criação,” continua.

O património de uma década, a sua força e sabedoria lançarão os próximos três anos (2021-2023) da Companhia, sob a forma do projecto Causa Maior, que a quer dar a conhecer de uma forma “mais impactante no espaço público”, procurando uma ressonância que se manifeste numa consciência social, por parte dos criadores, agentes culturais, políticos e da sociedade em geral, através do trabalho de dezanove artistas: Angelina Mateus, Carlos Fernandes, Carlos Nery, Catarina Rico, Cristina Gonçalves, Edmundo Sardinha, Elisa Worm, Helena Falé, Isabel Millet, Isabel Simões, João Silvestre, Jorge Leal Cardoso, Júlia Guerra, Kimberley Ribeiro, Manuela Sousa Rama, Maria Emília Castanheira, Maria José Baião, Michel e Paula Bárcia. Internamente, será uma oportunidade de repensar a estrutura, de forma a que se constitua numa “espécie de tribuna importante para veicular estas questões fundamentais do envelhecimento e de como é que a cultura e a criação artística podem ser implicadas, de uma forma positiva, naturalmente, nesta reflexão”, explica o Presidente.

Para tal, contribuirá a digressão de uma peça emblemática para a Companhia, O lugar do Canto está vazio, de Sofia Dias e Vítor Roriz, em 2021, por vários pontos do país.  Partindo dos textos de Jonathan Crary, Walter Benjamin, Peter Sloterdijk, os criadores e os artistas e as artistas reflectem sobre quem é empurrado para os cantos, até ao ponto de desaparecer. Neste movimento de resistência, aparecerão nos palcos de Lisboa, Porto, Loulé, Cartaxo, Montemor-o-Novo e Coimbra, onde se pretende também realizar actividades com as comunidades locais (seja escolares, ou artísticas) e residências, o que permitirá uma maior abrangência territorial, bem como o estudo longitudinal, que se materializará num e-book, realizado pelas sociólogas Luísa Veloso e Carlota Quintão que integram a equipa da A3S, uma associação sem fins lucrativos que se dedica à investigação e desenvolvimento de projectos na área social, também parceira da Causa Maior.

O lugar do canto está vazio

No ano seguinte, o criador convidado é Ricardo Neves Neves, no âmbito de uma parceria com o Teatro Municipal São Luiz. Os artistas da Companhia Maior contracenarão com bailarinos e ex-bailarinos da Companhia Nacional de Bailado, com idades compreendidas entre os 20 e os 50 anos. Este trabalho, também de parceria, será apresentado na sede desta última, o Teatro Camões, onde será ainda realizada uma conferência de encerramento da Causa Maior, “que convoca artistas com carreiras consolidadas que começam a encarar com apreensão o seu futuro próximo, especialistas em questões do envelhecimento, responsáveis por programações culturais empenhados na advocacia para as questões do idadismo e responsáveis por políticas públicas” e que “contará com a colaboração da Fundação GDA, entidade com uma vasta acção na valorização das condições de trabalho, saúde e bem-estar dos artistas, designadamente na protecção social dos artistas mais velhos”, lê-se no documento de apresentação do Projecto. Miguel Honrado crê que a passagem por estas entidades de referência, a nível nacional, concorre para a projecção pretendida. Em relação a esta última, exalta a particularidade que esta coreografia terá, a de habitar a margem. “O bailado clássico é uma linguagem que está um bocadinho nos antípodas disto de que estamos a falar, ou seja, o seu imaginário está baseado num corpo idealizado, quase eternamente jovem e num corpo standard. Aliás, a expressão corpo de baile é muito interessante, porque é um corpo constituído por peças todas iguais.” O nascimento concretizar-se-á na contraposição “entre essa gramática, essa linguagem, que nos vem, sobretudo, do século XVIII/ XIX” e a de “um colectivo em que as pessoas são muito diferentes umas das outras, felizmente. São pessoas muito individualizadas, são indivíduos numa outra fase da sua vida e numa outra condição física, necessariamente.”

Este movimento completar-se-á com a construção do website da Companhia Maior, onde se partilhará a informação recolhida, os textos, as fotografias e os vídeos das apresentações, residências e workshops, que farão destes três anos fermento para “afirmar o lugar de presença do corpo”, nas palavras de Susana. Esse lugar é político.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia da cortesia da Companhia Maior