Quando não tivermos como viver, o que pagamos?

Segundo dados revelados por State of Fashion 2020, publicado por Mckinsey & Company, 20% a 30 % dos plásticos que se encontram no oceano são da responsabilidade da indústria da moda.

A Fashion Revolution informa que 150 biliões de peças de roupa saem, anualmente, das fábricas. O que é preocupante: 85 % são descartadas em aterros sanitários. Nestes, caso as peças sejam de náilon, levarão 40 anos a decompor. Caso sejam de poliéster, 200 anos. O processo de decomposição é altamente poluente. Cerca de 14 milhões são deitadas fora só pela população dos Estados Unidos, o que corresponde a 36 kg por pessoa. De acordo com a United States Environmental Protection Agency  (EPA), 84 % das roupas indesejadas, no mesmo país, em 2012, foram para aterro ou incinerador. Porém, mesmo antes de haver peças, o descarte já acontece com 60 bilhões de metros de tecido.

The Carbon Trust afirma que 3 % da emissão global de dióxido de carbono é da responsabilidade desta indústria. A produção de peças requer, anualmente, 9 bilhões de quilos de substâncias químicas. Com as fast fashion, tem vindo a aumentar o recurso ao petróleo, a matéria-prima do poliéster, náilon e elastano. Mais: 90 % das nossas roupas provêm deste combustível fóssil. Também a energia requerida na produção das fibras sintéticas contribui para a emissão de gases de efeito de estufa, entre os quais óxido nitroso, cujo impacto sobre o aquecimento global é 300 vezes a mesma quantidade de dióxido de carbono. Para cada tonelada de poliéster, estima-se a emissão de 9,52 toneladas de CO2. United States Environmental Protection Agency refere que a reciclagem dos têxteis descartados equivale à emissão provocada por 7,3 milhões de carros. Contudo, cada tonelada de roupa reciclada economiza a emissão de 20 toneladas de CO2.

World Wild Life indica que, para produzir uma t-shirt, são necessários 2720 litros de água, o que corresponde à quantidade de água que bebemos num período, aproximadamente, de 3 anos. Segundo Fashion Revolution, o processo de produção de um par de calças implica 9500 litros deste elemento. A moda é a segunda indústria globalmente mais impactante no consumo e poluição da água, responsável por 20 % desta. Note-se que mais de 1 bilião de pessoas não tem acesso a água potável. Na China, onde a manufactura é mais barata, 40 % dos rios e dos lagos estão intoxicados, devido ao despejo de 2,5 bilhões de toneladas de resíduos. Pelas mesmas razões, os níveis de pH da água ao redor de Xintang subiu para níveis entre 11,9 e 12,1, o que tem causado o desperecimento dos seres vivos deste habitat e causado problemas de saúde aos seres humanos. O desaparecimento do quarto maior mar do mundo, o Mar de Aral, deve-se ao desvio dos rios, que desaguavam neste, para os campos de algodão.

Porque matamos para vestir e vestimos para matar?

Bangladesh. Vinte e quatro de Abril de 2013. Rana Plaza era um edifício que abrigava fábricas de vestuário, que fabricavam para o Grupo Benetton, The Children’s Place, Primark, Monsoon, DressBarn e H&M, um banco e várias lojas. Ignorando as advertências de desocupação deste, as actividades mantiveram-se até este ruir. Números: 1138 mortes; 2500 feridos. Longa vida ao lucro.

Cerca de 40 milhões de pessoas trabalham nesta indústria e 85 % delas são mulheres. Segundo o relatório StichedUp de 2011, citado por Fashion Revolution, 3/4 destas, não excluindo as grávidas, são abusadas verbalmente e espancadas, com regularidade no Bangladesh. Fashion Revolution partilha que o salário mínimo dos trabalhadores de vestuário, neste país, é de 0,28 €/h. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, 170 milhões de crianças estão envolvidas em trabalho infantil, cuja maioria é explorada pelos fabricantes de moda. O horário laboral, nos dias úteis, varia entre 10 a 12 horas, podendo atingir as 18 horas em períodos de pico de trabalho. O cumprimento de horas extra é obrigatório, as folgas, emergências, inclusive de saúde, resultam no corte do salário ou rescisão do contracto, que nem sequer existe no caso de alguns imigrantes, como acontece na Turquia, o que deixa vazios legais, donde emergem maus-tratos. O direito à constituição de sindicato não é reconhecido.

Baptist World Report, citado por Fashion Revolution, indica que, numa pesquisa junto de 219 marcas, apenas 12 % podiam demonstrar que pagavam acima do salário mínimo aos trabalhadores.

O tipo de consumo também regista alterações nos últimos 20/30 anos. A Fashion Revolution aponta que consumimos mais e gastamos menos. Há um século, gastávamos mais de metade do nosso orçamento em comida e vestuário. Actualmente, gastamos menos de um quinto e, simultaneamente, o aumento do consumo é de 400 % nos últimos 20 anos.

 

Onde e como toca o despertador? Que outro ruído com ele se confunde?

Perante o crescimento do movimento mundial de sensibilização para o cuidado com a Casa Comum, torna-se cada vez mais difícil para a Moda contornar o sistema que a mantém. A informação está a espalhar-se, e a inconsciência torna-se uma escolha. É preciso responder. A última edição da ModaLisboa, AWAKE, procurou assumir a responsabilidade de acordar. Podemos ler na comunicação do evento:

Acordamos e olhamos para o telemóvel.

Assustamo-nos com as horas.

Fazemos scroll pelas notificações.

Navegamos pelas notícias de última hora.

Vemos o mundo na palma da mão.

Abrimos a câmara frontal para saber quão abertos estão os nossos olhos.

Vemo-nos a nós mesmos na palma da mão.

A imagem que temos da vida está ali, nessas mesmas mãos, as que nos reflectem os outros. As mesmas que nos devolveram o direito à voz, à participação e à consciência — tornámo-nos seres informados e que exigem ser ouvidos e levados em conta. Reagimos. Exigimos uma indústria de Moda mais justa, mais sustentável, mais ética, mais inovadora, mais respeitadora, mais inclusiva, mais humana. Reclamamos, apontamos o dedo, denunciamos, retweetamos. E agora?

Agora estamos AWAKE. E AWAKE é a pós-reacção. É uma consciência profunda do mundo em que vivemos, sim, mas é uma consciência activa, que se materializa em conquistas reais, em mudança. AWAKE não é denunciar nas stories do Instagram uma publicação polémica: é sair de casa e construir o futuro. AWAKE é mudar os nossos hábitos, é adoptar a transparência como modus operandi; é consumir com lógica, é produzir com qualidade, é comprar com propósito. AWAKE é estar permanentemente ligado a todos os seres humanos que respiram neste planeta.”

De 5 a 8 de Março, no Campo de Santa Clara, este evento chamou e partilhou possibilidades para oxigenar o futuro. O Gerador procurou pelas mãos acordadas e pediu-lhes que se abrissem.

A Fashion Revolution estava no espaço. A presença desta organização, através de Salomé Areias e de Teresa Carvalheira, é a memória do desastre do Rana Plaza como uma mancha de sangue nos nossos tecidos. A Fashion Revolution é um movimento global, fundado por Carry Somers e Orsola de Castro, no Reino Unido, em 2013, numa tentativa de evitar a repetibilidade desta catástrofe na indústria têxtil. Actualmente, registam-se cerca de 100 organizações Fashion Revolution em todo o mundo. A Fashion Revolution Portugal é uma associação sem fins lucrativos, que se dedica à concretização de uma série de actividades que promovem a transparência nesta indústria. “Queremos que as marcas revelem tudo sobre o seu processo de produção, sobre quem faz as suas roupas, o que têm, como são feitas, mas também dar outras alternativas, empoderar, não só os makers, o comércio local, como os artesãos, e dar alternativas ao consumidor para as marcas de fast fashion. No fundo, é dar liberdade a todos.” Porque só a verdade permite a liberdade, e na indústria têxtil “há tanto obscurantismo”, a Fashion Revolution procura dar a ver as linhas com que nos tecemos. A sua acção concentra-se na semana em que se encontra o dia 24 de Abril. Neste ano, esta será de 20 a 26 deste mês e nas cidades de Lisboa e Porto, decorrerão mercados de troca, workshops cujas ferramentas adquiridas são alternativas ao fast fashion (branding, bordado, tricô, serigrafia), debates, que chamam de “conversas circulares”, porque se trata de “um formato mais democrático”, com vista a chegar a soluções dentro da área da reciclagem têxtil, empoderar makers, desacelerar a produção, e exibição de documentários, entre outros. “O nosso objectivo é, tentando esmiuçar estes assuntos, chegar aos stake holders e a quem ter o poder e o impacto de mudar a indústria têxtil”, afirma Salomé.

No centro da Semana da Moda, falam-nos de que a Moda não tem um cronómetro, mas, sim, o sistema capitalista que dela se apoderou. Então, o que é a moda? “A moda, em si, foi um conceito que surgiu no século XIX e é como se fosse sinónimo de efémero. Mas, na realidade, a nossa forma de vestir não é efémera. A efemeridade foi algo criado depois de haver indústria para alimentar. Está ligada a um comportamento muito intrínseco ao ser humano, que é a pressão de pares, a forma como nos inspiramos uns aos outros e nos copiamos, ao status, mais acentuado na moda do século passado. Tens de mudar para que te possas identificar com o grupo com o qual queres ser identificada. Na verdade, o vestuário, a grande origem da palavra Moda, o que vestimos, o adorno, como nos pintamos, os brincos, é algo que não está propriamente ligado à mudança, não tem de estar, mas é intrínseco à natureza humana.”, explica Salomé. A mudança constante não é natureza, é uma “invenção que surgiu há muito pouco tempo”, fruto de um sistema capitalista que explora as necessidades humanas, que também são simbólicas, e, nesse sentido, expressivas e criativas, capitalizá-las.

Ao mesmo tempo, há transformações dentro do sistema que continuam a ser ele mesmo, explorando-se a si próprio. Antes de ter falado com a Salomé e a Teresa, estive a assistir a um desfile. Jovens, maioritariamente com menos de 20 anos, com corpos magros e altos, com medidas semelhantes, sem manchas na pele, um pelo, uma cicatriz, uma estria, celulite, ou alguma flacidez, movimentando-se entre o robótico e o militar, como se estivessem ausentes. Recordo que Jeanne de Kroon, oradora nas Fast Talks, “Wake Up”, onde se reuniram especialistas para partilhar as suas experiências e conhecimentos acerca da reinvenção do sistema da Moda, pensa que “a sustentabilidade tem que ver com a tua conexão com o mundo exterior”, o que exclui “olhar para o modelo e não olhar para a mulher que está por detrás.” Há mais corpos cá fora. Será que a escolha dos modelos é sustentável, de acordo com esta definição? Será que a Moda pode ser expressão de uma ideologia eugenista? “Hoje em dia, estamos a ver uma emergência de uma nova forma de pensar e de ver o corpo que respeita as formas naturais, a idade, o envelhecimento, as sardas, as cicatrizes, e defende que todos os corpos são bonitos. Mas, na realidade, não estamos ainda com um discurso muito completo. Imagina uma campanha de uma marca muito conhecida de cosméticos, que defende “a mulher verdadeira”. Vais ver e tens mulheres mais roliças, mas que são lindas na mesma. Estamos a mudar o padrão. Já não queremos aquela mulher esquelética, como a moda dos anos 90, da Kate Moss, mas uma mulher com mais curvas, que não deixa de ser um standard que as pessoas estão a seguir. Nós não estamos propriamente a libertar-nos dos cânones. Não vejo grande libertação. Está a haver uma mudança, mas continuamos… Há é um formato diferente de corpo, de beleza.” Havendo um modelo, há uma prisão. Uma prisão que é mais sintomática em quem fica de fora. A beleza é associada à felicidade, que é também um consumo. A felicidade é algo pré-feito, que se adquire, mas não é nosso, como se houvesse um requisito para entrar. Nesse sentido, é controlado. Uma forma do humano trazer a si a sua liberdade, devolver-se a si mesmo resulta em distúrbios alimentares, como sugere Salomé. “Face a uma sensação constante de falha, esta sociedade adormecida pelos Prozac, durante décadas a fio, deixa de comer, ou desenvolve outra obsessão, como o exercício. Qualquer tipo de adição ou comportamento obsessivo tem como base uma sensação de controlo. Consigo controlar o que vou comer, que vou fazer exercício 8 horas por dia. Isto é o sintoma de uma sociedade que tem uma pressão gigante para corresponder a uma expectativa de felicidade que é falsa. O consumo é um escape, um sintoma. O problema da sustentabilidade tem que ver com este self awarness, que precisamos de construir em cada um de nós. Temos que perceber que há certas coisas que não precisamos e que perseguimos diariamente e não é aí que vamos encontrar a felicidade.”

Ser sustentável está na moda? A moda sustentável é uma moda?

Greenwashing é o termo que se aplica à apropriação da causa da sustentabilidade como técnica de marketing. “Na realidade, tem que ver com a génese da marca, se realmente tens essa preocupação na génese da marca ou se ela simplesmente foi construída em cima de uma estrutura que não é sólida para corresponder aos objectivos desse modelo de negócio. Se realmente tens uma preocupação seja ambiental, laboral, económica, ou a nível de design, vais construir de base. A sustentabilidade é algo estrutural sempre. Sustentabilidade é um sistema que se sustenta, que é autónomo. Se crias uma marca de base com vista na sustentabilidade, ela vai sempre ter força nas pernas para seguir esse mindset, essa retórica em tudo que dizes, fazes, crias nesses alicerces. Se uma marca tem os alicerces num modelo de negócio que é absolutamente insustentável e depois tenta meter a sustentabilidade em cima, porque o próprio modelo de negócio diz que tem que fazer para lucrar vendas, é greenwashing”, explica Salomé. Apesar de muitas vezes ser difícil identificar que se trata de greenwashing, Teresa alerta para detalhes que o denunciam, nomeadamente quando a comunicação das marcas está constantemente a dar ênfase à sua ética sustentável, bem como quando apresenta percentagens, porque a “sustentabilidade não é mensurável”. A solução que Salomé aponta em relação a essas marcas, não passa pela adaptação, mas pela destruição e por uma nova construção, porque, como já disse, esta preocupação é a identidade, tratando-se da raiz. Inês Manuel Baptista, a vencedora do concurso do Sangue Novo, sente que este marketing não passa só pelas marcas de produção massiva, mas por designers que criam peças únicas.

A sustentabilidade não diz apenas respeito às matérias utilizadas na confecção, como notámos, mas por outro tipo de sensibilidade que não tem que ver directamente com a cadeia de produção propriamente dita. A Trimalhas, uma empresa têxtil, sediada em Guimarães, que procura trabalhar fios criados a partir de matérias-primas que permitam malhas com especificidades técnicas inovadoras, possibilitando um longo ciclo de vida útil às peças, esteve presente na United Fashion, um projecto de intercâmbio levado a cabo por um grupo de sete associações europeias de moda, de seis países diferentes, com o objectivo é “promover a criatividade, a inovação, o empreendedorismo e aumentar as oportunidades de negócio para designers de moda europeus”, através de actividades como showrooms, workshops e seminários. Patrícia Silvério, responsável pela comunicação da Trimalhas, falou-nos da “responsabilidade social”, em que, entre outros, integrou as instalações e o cuidado na escolha dos parceiros. “Os nossos pavilhões foram renovados há pouco tempo, o que permite aos nossos colaboradores sentirem-se bem durante todo o dia e nos diferentes turnos. Temos sistema de climatização instalado nas zonas de produção, para que estes tenham conforto, bem como balneários e uma zona social, onde podem estar durante as pausas no trabalho. A Trimalhas está rodeada de monte, numa paisagem verde, que faz do nosso espaço um sítio agradavél para se estar. As nossas instalações externas têm jardim, uma horta e um pomar.” A constante procura de acções que aumentam a sustentabilidade energética levou a organização a optar pela iluminação com recurso a LED, em detrimento das lâmpadas de halogéneo e incandescentes. Para sua alimentação instalamos painéis solares”. Em relação aos parceiros, a Trimalhas garante que se certifica que estes “preenchem os mesmos requisitos” que a mesma, que “possui os seguintes certificados: GOTS, OCS, RCS, BCI”. Trabalha também com malhas com certificado Lenzing e Ecovero.

Fábrica Trimalhas

Malhas Trimalhas

Horta nas instalações da Trimalhas

A falta de legislação em relação à área têxtil, com excepção da laboral, é outro aspecto agravante. “O mercado livre não está regulamentado”, informa Teresa, apesar de estarem a surgir algumas leis relativas ao uso do plástico. “Politicamente não é uma área muito falada.” Teresa anota ainda que a União Europeia está a trabalhar na regulamentação da produção e comercialização de produtos que não garantem os requisitos mínimos nos territórios de origem. Contudo, na lógica de mercado livre não é possível barrar produtos importados, independentemente das suas características.

Tenhamos presentes os dados partilhados no início do artigo. O que fazer com as mãos? Por onde (re)começar a tecer o que abrigará a pele do mundo?

Deve-se criar moda a partir de matérias-primas orgânicas ou de peças já existentes? “Tudo é legítimo e tudo tem o seu impacto, a sua pegada eco, mas há que seguir uma prioridade. Temos toneladas de roupa que tem um potencial imenso, e se os designers não aproveitarem não vai ser aproveitada para nada. A maioria da roupa que temos neste planeta é plástico.” Recordo Inês Manuel Baptista, que utilizou peles desperdiçadas por uma fábrica na sua última colecção, as quais nem se destinavam a confecção, mas a acessórios. “Apoderei-me daquilo que me disponibilizaram”. Contudo, não conseguiu seguir esta orientação em todas as peças. “Neste momento, arrependo-me solenemente disso. Mas não fez sentido, tendo em conta o desenvolvimento que tive de dar ao projecto. Meti-me por caminhos que desconhecia. Passei por uma fase de experimentação exaustiva, primeiro, porque não fazia a mínima ideia do que era tricotar ou fazer crochê. Tive de aprender a fazê-lo. Não dominava a arte em linha. Que fará em cordão? Depois, deparei-me com problemas como as questões do peso. Isso levou-me muito tempo e acabei por ter de tomar decisões em cima da hora, que me impediram de dar o mesmo seguimento que dei à outra colecção”. Acredito que é possível fazer moda sem desperdício. Se vier a ter uma marca, terá de ser esse o meu lema”, ressalva Inês. Prova disso foi a sua colecção Catarse, criada a partir de peças antigas.

3451, ou ‘3 Seconds To a 45 Watt Lamp at a Distance of 1 Meter’, colecção Outono/Inverno, com a qual Inês venceu o Sangue Novo

“Deixemos de ser egoístas. Se queres ser sustentável como designer, não faças mais roupas.”, afirma Archie Dickens, designer que, no ano passado, esteve no Sangue Novo e Workstation, uma plataforma multidisciplinar que integra happenings de moda e exposições de fotografia e ilustração, e, nesta última edição, na United Fashion, com a sua marca de knitwear. Archie, no seu ateliê, nos Anjos 70, mostra-nos as linhas de várias cores, que reaproveita, comprando-as a fábricas britânicas e italianas. “O próximo passo é contactar as fábricas portuguesas”, garante o designer que, desde há 7 anos, quando ingressou na licenciatura, trabalha com estes materiais, inserindo-os num ciclo de reaproveitamento.

Colecção Primavera/Verão de Archie, apresentada na ModaLisboa

O caso de Cêlá, designer do Sangue Novo, vencedora do Prémio The Feeting Room, é diferente. Por força das circunstâncias, trabalhou apenas com tecidos em segunda mão, bem como malhas e tecidos de dead stock. “É um bocado frustrante. Há tantos materiais lindos e orgânicos, mas é difícil, para uma pessoa que está a começar, adquirir, porque é muito caro”. A designer lamenta, também, que determinadas fábricas “só trabalham com marcas que conhecem”, e que já “têm nome”.

Para além da prioridade da reutilização ou do recurso a desperdícios, e tendo em conta a responsabilidade no uso de cada matéria-prima, é importante pensar no sentido do que se cria. A situação mundial que vivemos não nos permite criar por simples fruição. O processo que se segue à recolha das fibras de produção sustentável envolve muita energia, bem como a própria reciclagem. Contudo, a tecnologia pode ser uma ferramenta essencial para diminuir o impacto desta última, como defendeu Lisa Lang, nas Fast Talks. Lang é consultora de moda, tecnologia e empreendedorismo da Comissão Europeia e mentora principal do novo curso de Moda Digital, na Polimoda. Foi distinguida como uma das 50 mulheres mais importantes em inovação e startups, no que diz respeito à moda e tecnologia, na Europa. O seu novo projecto é OFundamentO, uma empresa de manufactura especializada em produtos de Tecnologia de Moda, sediada no Porto. Considera que “a solução está no meio”, quando um designer de indústria têxtil trabalha com um designer de tecnologia. Também é graças à tecnologia que a investigação é possível e, com ela, o surgimento de alternativas. Maria Galvão de Sousa, membro da Catalyst (uma plataforma que promove a sinergia entre os líderes da indústria da moda, incentivando um trabalho conjunto rumo à sustentabilidade), também presente na ModaLisboa, com a qual realizou um podcast, convidada da agência Heavy para trabalhar com esta neste evento, blogger e influencer nesta temática, refere que a maioria dos sapatos vegan são de plástico. Embora não usem produção animal, não são sustentáveis. Contudo, a tecnologia permitiu descobrir as peles de ananás e de cogumelo.

Todavia, “há uma série de coisas que é preciso pensar antes.” “Para quem estamos a fazer? Qual o propósito?”, chama a atenção Salomé. Estas questões contribuem para uma produção mais reduzida, o que também concorre para um consumo mais lento.

Neste sentido, Maria comenta que os designers do Moda Lisboa procuram um “consumo slow”. Maria dá o exemplo do trabalho de Constança Entrudo, que a convidou para fazer o vídeo da sua instalação. “O facto da Constança ter feito uma apresentação e não um desfile, pela primeira vez no Moda Lisboa, mostra ela queria mesmo passar a ideia de consumo lento, que as pessoas vejam as peças com calma.”

Por outro lado, também há designers que, para além dos materiais escolhidos, do conhecimento das condições dos trabalhadores que os fizeram chegar aos seus ateliês e do processo de produção em si, procuram que o resultado final, visualmente, comunique isso. É o caso de Cêlá, que se inspirou na destruição dos corais, que teve um grande impacto para si, aquando da viagem que realizou às Filipinas. “Vi como os locais e os turistas tratavam os corais. Não tinham aquela sensibilidade de não andar por cima dos corais. Estavam a destruí-los. Fui lá há uns anos, voltei no ano passado e vi uma grande diferença. Foi por isso que decidi dedicar esta colecção aos corais. Quero criar awarness para as pessoas lerem sobre coral bleaching. A minha colecção começa com azuis escuros e pretos e torna-se em branco, porque é a cor do coral já morto. É muito estranho porque ligamos o preto à morte, mas o branco é a cor do coral morto.”

Coral, colecção de Cêlá

Fábricas, marcas, designers, últimos consumidores, mas não só. Não nos podemos esquecer dos modelos que desfilam e que fazem a ponte entre o ateliê e o mundo. Essa ponte é o seu corpo. Será que há consciência do que estão a mostrar? Sentem-se responsáveis por “vender” algo que pode estar envenenado? Qual a dimensão ética do seu trabalho? Nicholas, modelo, de 22 anos, diz: “confesso que não é de todo que vou atrás da produção, de onde vem, da matéria prima”. É a segunda edição da ModaLisboa em que participa e não conhece grande parte dos designers. Contudo, acrescenta: “Mas quando sei que estou aprovado para algum desfile, procuro entrar no site do designer, na rede social dele, falar com alguns amigos que já conhecem.” Também os fotógrafos integram esta cadeia, sendo um importante filtro, uma vez que veiculam uma mensagem visual desta realidade. Cristiana Morais, fotógrafa que participou na Workstation, partilha que a sua fotografia tem uma sensibilidade sustentável: “trabalho com marcas mais pequenas e portuguesas, cuja produção é nacional e menor. Estou também rodeada de amigos da área bastante entendedores do assunto e que tentam promover ao máximo essa consciencialização, o que acaba por se enraizar também na minha consciência e na forma como opero.” Esta atitude concretiza-se no material, utilizando os props (objectos que compõem o cenário fotografado) estritamente necessários e versáteis para fotografar ou reutilizando em várias sessões, na quantidade de produções e dos recursos humanos. Uma equipa reduzida vai-se traduzir nos transportes utilizados e na qualidade da alimentação a esta proporcionada. Cristiana refere que esta questão não foi explorada no trabalho que desenvolveu directamente na ModaLisboa, “porque não requeria essa necessidade, mas visualmente foi interessante ver como as marcas abordam certos materiais e como não havia produções gigantes nos desfiles.”

Fotografias de Cristiana Morais na Moda Lisboa

As mãos cabem em que bolsos?

De que forma os custos mais elevados, consequência de uma produção em menor escala, com materiais mais sustentáveis, concorrem para uma democratização da Moda? A resposta passa pela quantidade de peças baratas que se compra com o mesmo valor de uma peça que provém de uma cadeia de produção sustentável e cuja durabilidade é maior. Enfatizando a urgência destas medidas, Archie diz que: “Precisamos de ser menos confortáveis agora para sermos mais confortáveis no futuro. Imagina que todos temos um uniforme pessoal. Eu tenho provavelmente quatro ou cinco outfits. Não precisamos de 50.” Esta readaptação do olhar também o redirecciona para os designers, valorizando-os. Há que educar para o reconhecimento de uma peça como um processo criativo, como arte, tomando consciência do envolvimento que esta implica. “As pessoas não entendem o que eu faço, não vêem. Compras um blusão na Primark ou na Zara e alguém, no computador, coloca os padrões. Tudo isso vem da China e passa por 10 minutos na máquina, sem nenhum amor no processo de confecção”, sente Archie, cuja máquina verde onde quase tudo acontece é movida pela sua própria força, sem energia eléctrica, onde não entra nenhum químico nas linhas que por ela passam. A forma capitalista como o mundo está organizado impede uma relação profunda com as coisas. Há um excesso de tudo, que banaliza e confunde, e, simultaneamente distancia, através do argumento da utilidade, que bloqueia uma atitude mais contemplativa. Esta relação passa pelas histórias, porque são elas que nos ligam, dão um rosto, humanizam. Desde sempre que as histórias foram um elemento unificador dos humanos, que se reuniam para as escutar. Jeanne de Kroon, na sua participação nas Fast Talks, comentou que “O mais interessante da moda é o storytelling”. Pessoalmente, reparo como é curioso que o contacto com as histórias tem vindo a transformar-se e a adquirir novos moldes, muito mais individualizados e virtuais. Perdeu-se a tradição oral. E é sozinhos que vemos séries.

Passa, também, por pôr de lado o estereótipo em relação à roupa em segunda mão e “aprender com os avós a tratar das roupas, em vez de deitar fora quando estão estragadas, pôr graxa no sapato, coser. Perceber que podemos arranjar, em vez de ir comprar outra nova”, aponta Maria.

Isto também se aplica à marca. “Há a ideia que a sustentabilidade não traz lucro. Temos que nos reinventar. Reconstruir partes dos nossos modelos de negócio. Pensar a inovação do design na durabilidade. Nesta equação será que mais vale comprar 5 sapatos durante o ano ou comprar uns sapatos que vão durar 5 anos e pagar o mesmo?”, esclarece Salomé, que indica, ainda, o uso de desperdício no fabrico como benéfico para os custos de produção.

O despertador tocou? Clicámos para pôr vermelho o coração e procurámos mais links com as nossas próprias vidas?

Todos os entrevistados aplaudiram a orientação seguida por este evento, a comunicação para dentro e para fora do mundo da moda, para a qual contribuem as actividades abertas ao público, e a própria mensagem do espaço, que apresentava detalhes como, por exemplo, a proibição do plástico descartável, os contentores da Humana e os aguadeiros da EPAL, onde os visitantes poderiam encher as suas garrafas de água.

Eduarda Abbondanza, presidente da Associação ModaLisboa, afirma que a mudança é comunitária e que temos a responsabilidade de nos acordar uns aos outros para sermos vigilantes, “polícias”, das grandes instâncias, fazendo com que “quem lidera, chefia, comanda, esteja mais limitado”. Tocando na questão que tem vindo a ser abordada, refere que há que passar da “primeira camada”, “a fase mais superficial e excitada”. A presidente diz Associação já não está aí e procura aspectos que o comprovam, entre os quais o facto dos carros patrocinados serem híbridos, a “optimização de toda a área dos bastidores”, levada a cabo por Nana Benjamin, associada e fundadora do ZeroWasteLab, que excluiu o uso dos cotonetes de plástico dos bastidores (são usados, em média 13500 cotonetes por edição, revela Plastic Sun Days), substituindo pelos de bambu, a reutilização e reciclagem de materiais das edições anteriores e o trabalho com a produção local.

Archie comenta o aspecto educativo destes 4 dias, em contraposição com as instituições oficiais de educação: “As pessoas, numa escola pública não percebem a forma como esta indústria trabalha. Especialmente em Lisboa, não há uma boa educação em têxtil e é pena, porque é uma herança nacional.” O designer reconhece o esforço da Associação ModaLisboa, da Câmara Municipal da nova “Capital Verde Europeia” e compara com a Fashion Week de Londres, a sua terra natal, sentindo que se verifica uma acção maior nesta última. Porém, sente que a ModaLisboa “tem um conjunto de pessoas a fazer o mesmo esforço” e que “aqui a mensagem é clara”. Maria Galvão reconhece que “foi uma decisão estratégica e, sem dúvida, para estarem alinhados, mas pode ser uma base para haver esta conversa”.

Todavia, Eduarda defende que “as pessoas não vão voltar para o século XIX” e que “a questão da moda tem que ver com as empresas globais de produção, (…) nasce da não regularização”. Considera que Portugal não “tenha, do ponto de vista da indústria têxtil, um grande problema, comparativamente â indústria de outros países, porque nós temos as normas da Comunidade Europeia.”

“Acho que a Fashion Week tinha que vir aqui dar, estar awake e repensar uma série de coisas”, diz Salomé que, novamente, chama a necessidade de repensar os propósitos. “Não estou a falar do ModaLisboa, mas de todas as outras do mundo, que deviam questionar o propósito. (…) Se isto é uma plataforma para os desigenrs e as indústrias criativas terem voz, então reinventemos as nossas Fashion Weeks. Pessoalmente, acho que não precisamos de ter duas Fashion Week por ano, porque esta ideia de estação está completamente obsoleta, seja a nível de sistema da moda, que já não existe, seja a nível climático, pois já não temos as quatro estações. Sem dúvida, é preciso haver uma plataforma em que os designers de moda tenham voz e, simultaneamente, para impulsionar a economia, mas também repensar este buzz gigante, em que centenas de pessoas de todo o mundo voam constantemente de cidade para cidade. É um evento efémero de 4 dias e depois é desmontado”. A própria Fashion Revolution admite ter tido algum gasto para estar presente, que diz ter de optimizar, posteriormente a este.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografias da cortesia de Archie, Trimalhas e Cristiana Morais