Olho-te nos olhos.

Não te vejo.

A película vítrea, a pele, não me aproxima, inteiramente, de ti.

Pouso os meus olhos nos teus.

Quero dizer, tu estás diante de mim, mas estás ausente, não inteiramente.

Toco-te.

Não, afinal é só uma parede translúcida.

Hoje, ao acordar, pensei que estava do outro lado. Quero dizer, estava mesmo do outro lado. Havia um mundo inteiro do outro lado. Um universo e mais além.

O tamanho do universo não é um deslumbre.

Todas as luzes, vazios negros, rotações, atrações,  afastamentos, colisões, certezas, mistérios, perguntas que nunca serão respondidas, a imensa conceção na qual estou perdido. Outro universo e mais outro e mais.

Tão sozinhas, todas as estrelas, juntinhas na Via Láctea!

Deste lado é mais ao menos a mesma coisa.

A pele uma fronteira ou o laço entre as partes.

O verso e o reverso, versoreverso, reversoverso.

Ao pousar os meus olhos não pouso de verdade.

Estou meio aqui e ali. Nem binário nem nada. Bailo no pousio pendente nas linhas que desenham as metades e os inteiros. Os inteiros dentro dos inteiros. Os inteiros fora dos inteiros. Os inteiros que estão dentro e fora e outros tantos que não são nem deixam de ser inteiramente, pois desta inteireza frágil se faz a inteiritude.

Vejo-te. Olho-te. O tempo. Quanto tempo até este olhar, quanto depois dele? Está o tempo deste e do outro lado, não sei se passa no mesmo relógio, com acerto ou desacerto. Os olhos ganham abutres e falcões, pérolas do rio e peixes reluzentes (como estrelas). Corrompem-se no limiar da madrugada, seduzidos pelo jogo perpétuo das horas no seu lugar ou fora dele. Corrupção benfazeja. Cada vez que se rompe a certeza caio onde não sei. Neste não saber há mais que universos e inteiritude. Finalmente, nadar e saber que não chegarei à margem, que não haverá a oportunidade de outro lado. Esta emersão e submersão, oxigénio e afogamento, move-se o líquido em torno de mim ou serei eu? Inteiramente partido. Inteiramente inteiro. Deste lado. Tu estás do outro lado. Sim, estive lá e não te vi. Só te via (não inteiramente) quando eu estava deste lado e tu do outro. E quando o verso foi reverso, afinal onde estavas?

Olho-te. Situo-me aqui. Sim, estás ali. E há este ecrã de permeio. Ou será a minha pele? A tua pele?

Há uma dor eu sei. E também uma alegria. Uma pluralidade de dores e alegrias. Neste compasso compõe-se  e descompõe-se o que importa.

Importância. Importação. Imposição. Imposto. Talvez importe sem impostos ou imposições as coisas importantes. Ou estas não sejam por serem só as luzes que não deixam ver.

Ver-te. É importante.Tanta luz.

Meu Deus, sufoca-me a mão entre os lados.

Coloco-me no ecrã. Sou o ecrã. Vejo os dois lados. Vejo quem se vê. Quem se vê não inteiramente. Sufocarão.

Eu não tenho lado. Sou só a pele que liga e separa. Ecrãmente.

Cubro-me de nudez. Faz frio aqui. Olho-te nos olhos.

Não te vejo.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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