Aproveito este espaço que me é cedido para os mais variados assuntos. Uns agradam a uma tribo, outros agradam a outras tribos, mas com certeza que ficam com uma ideia - não conseguem meter nenhum rótulo ao Varela, o gajo que tanto está num evento com a ex-Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, como horas mais tarde pode estar a jogar uma batota na Zona M em Chelas (no meu Instagram encontram fotos dessas duas situações).

Hoje toco num tema que me diz muito e revolta, que é a exploração da nossa cultura e dos meios urbanos por quem não é de lá. Não há regras impostas, não há uma lei a seguir, mas o respeito é o respeito, e não o vemos ser aplicado em muitas situações.

Eu costumo dizer que todos querem ser do bairro até chegar a altura de lidar com verdadeiros problemas do bairro. Sem dúvida que a tua forma de viver as tuas experiências, o teu sofrimento e alegria, ajudam no teu processo criativo, o que leva a todas as waves e estilos que são criados pelo mundo fora. Nos bairros, a maior parte da  formação vem da experiência, do atrevimento e dos problemas que a vida te dá.

Mas nem todos vivem essa realidade e isso no Hip Hop acontece muito. É normal termos pessoas que viveram uma vida completamente diferente, uma vida privilegiada, sem dificuldades, a achar que tem de passar por esse processo de dificuldade, de discriminação e desigualdades. ERRADO.

Amigo, aqui, todos são aceites. Não tentes vender o que não és, até porque, aqui, somos muito bons a perceber o que é falso e o que é verdadeiro. Em alguns casos, temos artistas com alguma visibilidade a passar valores completamente errados para os jovens das nossas comunidades. Quando quem está nas comunidades tem uma mensagem diferente… Não digo com isto que nos ghettos só se tem uma linha ou um estilo, mas mesmo quem lá está e fala de criminalidade ou outra coisa, fala com conhecimento de causa e, na maior parte das vezes - arrisco-me a dizer 99% -, quer sair dessa realidade para uma vida muito melhor. E andamos a ter estes indivíduos que, por amarem a nossa cultura, acham que têm de tocar nos mesmos assuntos quando podiam ir noutro sentido.

Lembro-me de uma label ter entrado em contacto comigo para comunicar um artista nacional que, apesar de muito ter sido investido na sua carreira, não tem muita expressão. Foi-me dito que a estratégia foi mudada, as músicas também e que o artista agora ia ter uma atitude mais street. Bem, ouvir aquilo mexeu comigo. Então, mas espera lá… ele acordou de um dia para o outro e disse "já não sou o que era ontem, hoje sou street, sou bairro, porque assim os gajos do bairro vão gostar de mim". Não, meu amigo. Ser street ou ser do bairro é muito mais que isso,  não nasce em ti de um dia para o outro. É por isso que se diz que saímos do bairro, mas o bairro não sai de nós. Estas personagens são engraçadas, porque nos momentos em que o c* aperta, deixam de ser street ou bairro. Vemos isso numa operação stop ou numa simples ida a um bairro social, onde lidam com pessoas com as experiências que eles queriam ter.

Daqui passamos para outro assunto, a apropriação cultural. Vou criar inimigos com este assunto, mas o que seria do Varela sem inimigos?! 🤣

Mota Jr, Richie Campbell, Branko, são alguns dos nomes que já vi por aí, a serem apelidados como ladrões da cultura de outros. Não acho, não acho nada, mesmo. É muito normal para quem cresceu nos bairros de Lisboa conhecer um caucasiano que fale criolo, e que fale muito bem. Além de falar, é conhecedor da cultura e respeita-a. Ver o Richie Campbell ir à Jamaica conviver com as pessoas, mostra o quanto gosta e respeita a cultura e procura saber mais. O Branko esteve em Cabo Verde e esteve na casa do Bitori nha bibinha, um grande nome do funáná. Wow, isto para mim mostra um gosto enorme e respeito que muitos de nós, talvez, não temos porque damos muita coisa como garantida, e a cultura do país dos nossos pais é uma delas. Conhecemos muito, mas sabemos muito pouco.

Agora se falarmos de alguns artistas da música Portuguesa que pegam no nome de estilos como o funáná e o Kuduro, fazem uma coisa completamente diferente e estão constantemente nos programas de TV a cantar essas músicas, aí sim, é uma grande apropriação cultural. Não consigo perceber como não conhecemos um estilo, um povo, uma cultura e pegamos num estilo musical, um prato, uma dança e usamo-lo como queremos. Nem quero imaginar o que aconteceria se, em Timor, alguém fizesse algo do género com o FADO. Acho que cabe a nós também metermos o dedo na ferida e resolver estas questões.

Estes assuntos têm de ter uma voz que os defendam porque ir deixando passar é o que normaliza as coisas e deixa muita gente pensar que a coisa é X quando afinal é Y.

Beijinhos, abraços e até para o próximo mês.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Pedro Vaccaro
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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