No passado dia 29 de Novembro, foi lançado o livro [TASCAS] - Pelas tascas de Lisboa, de Frame Colectivo, um atelier de arquitectura sediado em Lisboa, que desenvolve pesquisa e projectos para espaços públicos e semi-públicos, a partir de colaborações interdisciplinares.

Na introdução da obra, podemos ler: "Na arqueologia, os vestígios mais reveladores e informativos sobre a vida e as sociedades estudadas em escavações são frequentemente os elementos ligados a actividades domésticas em torno da cozinha. Estes podem ser bastante mais abrangentes nas suas camadas de complexidade do que as ruínas de edifícios públicos ou representativos, já que resultam de estritas encenações. A cozinha detém indícios das verdadeiras dependências, capacidades tecnológicas, influências culturais e movimentos migratórios".

A partir do desejo de sinalização desta centralidade e da fragilidade em que actualmente se encontra, devido à especulação imobiliária, que traduz uma desumanização política, o Frame Colectivo criou um projecto de arquitectura experimental, explorando a tipologia da tasca, a partir de fotografias de vinte e um fotógrafos e ensaios de especialistas de áreas distintas, entre as quais, geografia, arquitectura, filosofia, antropologia e jornalismo, pela grafia de Inês Brasão, Eduardo Brito, Álvaro Domingues, Délio Jasse,  Kiluanji Kia Henda, Filipa Valladares, Maria João Guardão, Patrícia Azevedo da Silva, Maribel Mendes Sobreira. O foco são as últimas cinco décadas, durante as quais as tabernas se reformularam em casas de pasto, muitas das quais derivadas de carvoarias e mercearias, que, por sua vez, se tornaram tascas que, hoje em dia, se identificam
como pequenos restaurantes adaptados ao consumo popular.

Pelo olhar de Nuno Andrade, Beatriz Banha, Catarina Botelho, Augusto Augusto Brázio, Tiago Casanova, Catarina Osório de Castro, Paulo Catrica, Margarida Correia, Luísa Ferreira, Maura Grimaldi, Céu Guarda, Joana Hintze, Pedro Letria, Joana Linda, Vera Marmelo, Rui Dias Monteiro, Luís Pavão, Pauliana Valente Pimentel, Maria do Mar Rêgo, Francisca Veiga, Valter Vinagre, entramos em cada elemento destes espaços ameaçados, as toalhas de papel descartável, as ventoinhas, os copos de vinho tinto, os tremoços, os menus escritos à mão, as unhas sujas, as montras com fruta da época, os bibelôs no balcão, os cachecóis e posters dos clubes de futebol nacionais, as mãos grossas, a pele gasta, os rostos femininos na cozinha, os masculinos na sala, os assadores, os fogões e as panelas. Nuno Andrade focou a sua atenção numa tasca que já frequentava como cliente e que se revelou noutras possibilidades de relação, quando a visitou enquanto fotógrafo. "Alterou tudo. Eu ia lá para comer entrecosto com arroz de feijão, para estar com os amigos e beber um copo e, de repente, entrei nos bastidores, a cozinha, e percebi o outro lado e a preparação do teatro, que, normalmente, se passa quando lá vamos almoçar ou jantar", diz.

Fotografia de Nuno Andrade - Tasca Zé Pinto

 

Fotografia de Augusto Brázio - Isilda

 

Fotografia de Beatriz Banha - Restaurante das Flores

 

Fotografia de Valter Vinagre - Tasca do Gordo

 

Fotografia de Pedro Letria - Adega do Solar Minhoto

 

Fotografia de Nuno Andrade - Zé Pinto

 

Fotografia de Margarida Correia - O Cartaxinho

 

Paulo Catrica - A Castiça

 

A obra funciona como uma sequência, onde as fotografias constituem a primeira parte, "um roteiro pelas tascas, pelas diferentes maneiras de ver" e os textos funcionam "como o pólo que nos permite reflectir também sobre questões bastante diversas", abrindo uma perspectiva crítica que possibilita a revisão das primeiras, explica Gabriela Salazar, directora artística do Frame Colectivo, juntamente com Agapi Dimitriadou. Tratava-se de criar "um objecto de dois livros que estão interligados. Queriamos ter essa cisão bastante acentuada", continua.

O atelier caracteriza-se por um trabalho contínuo. Este livro provém de um projecto anterior, onde a gentrificação nas cidades de Berlim, Atenas e Lisboa era o foco da pesquisa. Tal conceito foi trazido para a nova pesquisa, que se dedica exclusivamente à cidade de Lisboa, e é encarnado pelas narrativas locais, das quais se aproximou a partir de entrevistas, que  visavam "recolher a relação com a cidade, a relação com o trabalho, a relação com os clientes e a maneira como tudo o que nós reconhecemos como tasca é construído e é criado ao longo das décadas de trabalho", refere Gabriela Salazar. Ao longo desse tempo de escuta, "houve pedidos para fotografar o mais cedo possível porque havia sítios quase a fechar. Toda a dinâmica que está a acontecer em Lisboa afecta, de forma bastante directa e forte, estes locais. Como são locais que sempre estiveram nesse formato, de aluguer, que nunca chegaram a ser comprados, estão extremamente fragilizados com o aumento das rendas", conta Gabriela Salazar. Estes surgiram, sobretudo, de um movimento de êxodo rural, a partir do qual, se abria a possibilidade de se formar pequenos negociantes que, com esforço, gradualmente, iam ganhando capacidade para os suportar.

Com o desaparecimento dos lugares, há laços que caem, pois as tascas foram-se tornando uma presença estrutural no tecido social dos bairros. A este respeito, Patrícia Azevedo da Silva escreve, em "A Tasca© 2.0": "(...) a comida funcionaria precisamente como esse fio condutor, um fio condutor particularmente rico e especial no sentido em que, sendo substância partilhada que vai constituir os corpos, cria uma ligação hiperbolizada semelhante às de parentesco, e redes de afecto e socialidade que as ultrapassam. Estas redes de afecto são accionadas nos espaços públicos aquando da partilha de alimento – comensalidade".

Apesar desta exploração ter tido vinte e uma tascas como terreno, impossibilitando uma visão exacta que permita traçar perspectivas no que toca ao percurso destes espaços, Gabriela Salazar reflecte que "alguns já não têm ferramentas, energia, meios para essa mudança e outros acompanham-na e vão continuar com as alterações necessárias. A próxima geração de tascas vai ter uma quantidade de adaptações, mudanças, que vão criar a questão de que se é, ou não, uma tasca verdadeira".

Podes encontrar a obra na STET - livros & fotografias e no Frame Games Shop. O Jogo da Memória é um complemento da obra, com um carácter lúdico, detendo uma linguagem mais acessível e apresentando pares de vinte e uma fotografias impressas em cartão.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografias cedidas por Frame Colectivo

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