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Tecnostress: de que forma as tecnologias podem impactar a saúde?

A nossa relação com a tecnologia chega a ser, por vezes, quase permanente e inevitável. Como tudo o que é em excesso, também o uso desmedido da tecnologia pode provocar danos físicos e psicológicos. Para além disso, as dificuldades que muitos sentem em manusear os atuais aparelhos eletrónicos ou em compreender como funcionam algumas plataformas também podem desencadear emoções, como a ansiedade, a frustração ou a angústia. Estes sintomas são a consequência de uma perturbação a que denominamos tecnostress e podem afetar qualquer pessoa, de qualquer faixa etária e em qualquer situação profissional ou académica.

Texto de Mariana Moniz

Ilustração de Marina Mota

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“Uso as redes sociais para ver a vida dos outros. Mas, ao ver a vida dos outros, acabo por sentir que a minha é que não presta. Isso não ajuda a sair de um certo estado depressivo, só ajuda a que te afundes mais nele”, começa por nos confessar Diogo Cunha de 37 anos. Trabalha na área da publicidade e do marketing digital e, por essa razão, vê-se “obrigado” a recorrer às plataformas tecnológicas diariamente. Atualmente, trabalha em regime freelance, pois isso “pressupunha ser dono do seu próprio tempo”.

Apesar de poder escolher onde quer trabalhar e a que horas, Diogo Cunha não deixa de ter de se adaptar ao fuso horário dos seus clientes, pois muitos são internacionais. Para além disso, desde jovem, Diogo sofre de ansiedade e nervosismo, o que, por vezes, torna o trabalho incapacitante. “Estou sempre a trocar mensagens e em reuniões via Google Meet com clientes do estrangeiro. Sinto que o meu cérebro não aguenta a quantidade de informação e de conteúdo que recebe diariamente.”

As tecnologias vieram alterar a forma como trabalhamos e nos relacionamos com os outros. Quebraram-se barreiras físicas e encurtaram-se distâncias geográficas. Surgiram novas soluções de conciliação da vida pessoal e laboral para os trabalhadores, particularmente através da utilização de dispositivos de comunicação móveis. O mundo ficou cada vez mais globalizado. Porém, as novas tecnologias também criaram uma sociedade que está constantemente ligada, “com fronteiras cada vez mais esbatidas entre a vida pessoal, familiar e laboral”. Como resultado, muitas organizações começaram a evidenciar a expectativa de que os seus trabalhadores estivessem sempre contactáveis.

Diogo Cunha. Fotografia da sua cortesia

O psicólogo americano Craig Brod desenvolveu o termo “tecnostress” em 1984 para se referir ao impacto negativo que o uso das tecnologias pode ter a nível psicológico e emocional. De acordo com Brod, o tecnostress é “uma doença que decorre da incapacidade de lidar com as novas tecnologias informáticas de uma forma saudável, manifestando-se de duas maneiras distintas, ainda que relacionadas: a dificuldade em aceitar a tecnologia e a procura em identificar-se com a tecnologia”.

Vânia Viana, mestre em Ciências Empresariais pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, desenvolveu o tema Tecnostress e a Procrastinação no trabalho remoto” na sua tese de mestrado. Em entrevista ao Gerador, conta que escolheu o tema do “tecnostress e a procrastinação no trabalho remoto”, pois a própria se revia nesta condição. “Queria falar da sobrecarga, da invasão e da complexidade das tecnologias que, às vezes, nos gera muito stress, acrescenta.

“Hoje em dia, as tecnologias estão tão avançadas, existem tantas utilizações, que temos de estar sempre a acompanhar. O facto de termos de estar a constantemente a par das atualizações, causa-nos stress”.

Vânia Viana, mestre em Ciências Empresariais

Quando a pandemia da covid eclodiu em 2020, Vânia percebeu “que as pessoas se agarravam muito mais ao computador e ao telemóvel por estarem em casa, e que isso tinha influência no seu comportamento. Percebi que estávamos sempre direcionados para aquilo, a querer informação, a querer estar sempre conectados com as redes sociais, estar a par de tudo.”

Dada a crescente preponderância da tecnologia no trabalho, agravada pelos vários períodos de confinamento dos últimos anos e a consequente generalização do trabalho remoto, o Observatório de Liderança e Bem-Estar da Nova SBE desenvolveu um relatório centrado no tecnostress e no uso da tecnologia em contexto de trabalho. Neste estudo, elaborado pelos docentes Filipa Castanheira, Pedro Neves e Inês Dias da Silva, foram apresentados alguns dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). De acordo com os mesmos, na semana de 27 de abril a 1 de maio de 2020, durante a pandemia, 58 % das empresas reportava ter pessoas a trabalhar em teletrabalho. Para além disso, o relatório evidenciou que, em 2013, o INE concluiu que 98 % dos indivíduos empregados utilizavam telemóvel para trabalhar.

Vânia Viana. Fotografia da sua cortesia

O nosso entrevistado Diogo Cunha é um desses exemplos. Confessa-nos que a maioria das ferramentas que precisa para trabalhar se encontra disponível no telemóvel e, por isso, mesmo que tente desinstalar alguma aplicação ou limitar o uso diário da mesma, acaba sempre por voltar a instalá-la. “Ainda tento usar mais o computador e não tanto o telemóvel, porque percebo que me faz mal. Mas, depois, sinto que não tenho nada para fazer e volto a instalar. Não sei como ocupar o meu dia, não consigo seguir uma série ou ler um livro.”

Desde 2022, Diogo sofre com uma depressão desencadeada por vários motivos pessoais e profissionais. Conta-nos que, devido a essa perturbação psicológica, se “refugia” nas redes sociais, mesmo quando não está a trabalhar. “Nos momentos em que não estou a fazer nada, ponho-me a ver stories no Instagram, vejo os outros a saírem e acabo por me projetar na vida deles. Isso afeta-me, claro, mas é um vício. A verdade é que as redes sociais só me ajudam a escavar o buraco, não me ajudam a sair dele”, prossegue referindo-se ao seu estado depressivo.

A psicóloga clínica Patrícia Branco licenciou-se na área de pré-especialização em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade do Minho, em Braga. Ao longo do seu percurso profissional, tratou de vários casos de crianças e jovens adolescentes que se tornavam, cada vez mais, dependentes das tecnologias, o que a levou a estudar o tema do tecnostress em profundidade.

Em entrevista ao Gerador, a psicóloga clínica explica que este fenómeno se trata de “um distúrbio psicológico negativo resultante da convivência, cada vez maior, das pessoas com as tecnologias. Pode ser provocado pela falta de habilidade em lidar com as mesmas ou pela dificuldade em lidar com elas de uma forma adequada, manifestando-se muitas vezes por uma dependência excessiva”. Acrescenta ainda que “este fenómeno psicossocial provoca, sobretudo, ansiedade, stress, fadiga/exaustão, frustração, ineficácia e descrença”.

Patrícia Branco. Fotografia da sua cortesia

Patrícia Branco fala de uma sociedade tecnodependente. “As pessoas querem fazer tudo à velocidade da internet e que tudo se resolva rapidamente. Estamos numa era em que se vive depressa, em constante alerta. As pessoas são demasiado estimuladas a desenvolver um foco tecnológico extremo e muitas sentem-se incapazes de desligar. Contudo, a seu tempo, a pressão de estar sempre disponível e acessível acaba por se traduzir num grave impacto na saúde mental, com danos psicológicos, emocionais e comportamentais.”

Para Diogo Cunha, alguns destes sintomas surgem quando recebe mensagens, principalmente por parte de colegas de trabalho, uma vez que o freelancer criou “um certo pânico” das possíveis “interpretações negativas” que as mesmas podem suscitar em si e nos outros. “Essa troca de mensagens rápida, sem contexto, sem preocupação, só assim como um tweet, faz com que eu as interprete da forma que eu quiser”, remata.

“Por norma, boicoto-me muito e penso sempre que o mundo vai acabar. Tenho-me esforçado para aprender que é só uma troca de mensagens e não uma guerra nuclear. Não é fácil”.

Diogo Cunha, freelancer

A psicóloga Patrícia Branco considera que podem haver vários níveis de gravidade de tecnostress. Em alguns casos, “pode interferir no padrão normal de funcionamento e perturbar as tarefas e atividades diárias”. Pode também “perturbar e alterar o padrão de relacionamento interpessoal, seja a nível familiar, social ou profissional. Devemos procurar ajuda e intervenção clínica quando estes sinais e comportamentos são visíveis, e quando desencadeiam emoções negativas ou comportamentos desajustados”, esclarece.

O tecnostress atinge as várias gerações de maneira diferente?

Na sua tese, Vânia Viana defendeu que “o trabalho remoto está associado a um menor controlo por parte dos supervisores, o que pode facilitar comportamentos de procrastinação no trabalho, designadamente, o adiar de tarefas profissionais (soldiering) e/ou navegar na internet para fins pessoais durante o período de trabalho (cyberslacking)”.

Para este trabalho, Vânia elaborou um inquérito a cerca de 110 pessoas que se encontravam em trabalho remoto no período de abril a agosto de 2021. Os dados recolhidos evidenciaram “diferenças estatisticamente significativas nas duas dimensões da procrastinação no trabalho em função do nível de escolaridade […]”. Isto é, os inquiridos que detinham uma licenciatura, mestrado ou doutoramento mostraram ser “quem tinha mais tendência a recorrer tanto a soldiering como a cyberslacking”.

Também o estudo elaborado pelos docentes Filipa Castanheira, Pedro Neves e Inês Dias da Silva apresentou algumas informações relativamente ao impacto que o tecnostress pode ter nas diferentes gerações. De acordo com o relatório, no que diz respeito particularmente ao uso da tecnologia, as gerações nascidas depois dos anos 80 “entraram em contacto com formas de tecnologia avançada mais cedo no seu percurso profissional”.

Porém, os resultados do relatório evidenciaram que o tecnostress é um fenómeno transversal à sociedade. Uma parte substancial dos inquiridos afirmou sentir níveis elevados de tecnosobrecarga, isto é, quando as tecnologias “facultam ao utilizador/trabalhador uma elevada quantidade de informação que conduz à fadiga e à perda de controlo sobre a mesma, obrigando o utilizador a trabalhar mais e com mais rapidez”, e de tecnoinvasão que, por sua vez, está relacionada com a falta de privacidade e elevada exposição a que muitos se sujeitam ao recorrerem às tecnologias.

Existem algumas diferenças entre homens e mulheres, sendo que os homens reportaram mais tecnosobrecarga e tecnoinvasão. Por fim, à exceção do indicador respeitante ao aumento da velocidade de trabalho devido às tecnologias móveis, não foram concluídas diferenças significativas entre gerações. No caso do indicador referido, conclui-se que as mulheres (50 %) e a geração Z (63 %), isto é, inquiridos com idades inferiores a 24 anos, afirmaram “discordar da necessidade de trabalhar mais rápido devido à tecnologia”.

Vânia Viana distingue cinco dimensões de tecnostress: a tecnoinsegurança, a tecnoincerteza, a tecnocomplexidade, a tecnosobrecarga e a tecnoinvasão. Na sua tese, analisou com profundidade as últimas três referidas.

No que diz respeito à tecnocomplexidade, a mestre explica-nos que “o stress não surge apenas em quem utiliza as tecnologias, mas também em quem não consegue ou não tem aparelhos eletrónicos. As tecnologias podem ser tão complexas, que as pessoas, ao terem de estar sempre atualizadas, percebem que não conseguem e desistem de as usar”. Deste modo, mesmo com as novas tecnologias e a facilidade de acesso à internet, ainda se verificam dificuldades a nível tecnológico em algumas pessoas.

“O stress não surge apenas em quem utiliza as tecnologias, mas também em quem não consegue ou não tem aparelhos eletrónicos. As tecnologias podem ser tão complexas, que as pessoas, ao terem de estar sempre atualizadas, percebem que não conseguem e desistem de as usar”.

Vânia Viana, mestre em Ciências Empresariais

A ansiedade perante o domínio das diferentes terminologias tecnológicas foi um dos primeiros sintomas de tecnostress manifestado pela professora de 1.º e 2º ciclo escolares, Vânia Ferreira de 43 anos. Da ilha da Terceira, nos Açores, conta-nos que “a variedade de nomes de utilizador, nomes de conta, ter de dominar o percurso para chegar a pastas e ficheiros e, evidentemente, cada programa e cada software” a obriga a “perder horas de qualidade”. O mesmo acontece com outras ferramentas do sistema do Office. “O Excel, por exemplo, requer sensibilidade e literacia que não se ganha facilmente, sendo eu de “letras.”

Para além destas dificuldades, a professora revela que, ao confrontar-se “com ficheiros perdidos, danificados ou mesmo programas “em baixo”, faz com que o seu trabalho “fique adiado ou mesmo inutilizado”. Segundo ela, isto provoca nela própria sintomas como “irritabilidade, frustração, raiva e muito cansaço”.

Vânia Ferreira. Fotografia da sua cortesia

A psicóloga clínica Patrícia Branco elucida-nos relativamente aos sinais ou comportamentos de risco que podem estar associados a alto níveis de tecnostress. Como exemplo, a psicóloga refere a “frustração e a ineficácia por não saber lidar com os equipamentos tecnológicos; a ansiedade e os altos níveis de stress quando a internet não tem sinal, quando o telemóvel fica sem bateria, sem rede ou se, por acaso, se esquecer dele; e ainda estar demasiadas horas ao telemóvel ou ao computador, ou seja, sinais de dependência tecnológica”.

Tal como o freelancer Diogo Cunha, também Vânia Ferreira se sente, de certo modo, forçada a trabalhar com as tecnologias e a acompanhar as suas frequentes atualizações por ser professora. Reconhece que as ferramentas tecnológicas a que tem acesso são “úteis e necessárias” para o “processo de ensino-aprendizagem”. Por este motivo, a indignação da professora é agravada por nem sempre conseguir lidar com essas ferramentas. “Em ambiente familiar, [a indignação] transforma-se em raiva e em irritação contagiantes”, afirma, referindo-se aos momentos de tensão que viveu com o marido devido ao tecnostress. “Contudo, atualmente, a cooperação, a tolerância e a colaboração na tentativa de erradicar a minha insensibilidade tecnológica [já] acontecem.”

“Em ambiente familiar, [a indignação] transforma-se em raiva e em irritação contagiantes”.

Vânia Ferreira, professora

Vânia usa as redes sociais “com muita pouca frequência”, precisamente por ter de estar à frente de ecrãs diariamente. Acrescenta ainda que o que a afasta destas plataformas sociais, é também o que a “afasta das pessoas, ou seja, a personalidade por detrás de cada perfil”. Ainda assim, reconhece o “papel preponderante” das redes sociais “na publicidade e divulgação de marcas, produtos ou projetos”.

Em 2020, Vânia Ferreira matriculou-se num mestrado onde tinha aulas síncronas online. “Correu tudo muito bem até começar a gerir a avaliação de cada área”, diz-nos. Estas avaliações consistiram “na elaboração e apresentação prévia de trabalhos individuais” para os quais eram necessários “requisitos formais”, tais como inserir o “número das páginas e a devida formatação de aspetos importantes como citações, referências bibliográficas ou notas”. Admite que, ao invés de elaborar estes trabalhos em computador, “esperava uma frequência ou um teste escrito como avaliação final de cada seminário. Foi ingenuidade e, de facto, concluí o primeiro ano sob altos níveis de ansiedade e desespero. Em prol da minha saúde e dos meus, não pretendo dedicar-me à dissertação”.

A psicóloga Patrícia Branco defende que “é fundamental que cada indivíduo saiba impor limites a si próprio, tais como estabelecer regras para a utilização do telemóvel/computador, definir horas de utilização da internet, fazer mais atividades e tarefas sem recorrer a tecnologias”. Algumas soluções que a psicóloga aponta para evitar o tecnostress são: “desligar mais vezes do telemóvel/computador; controlar o tempo nas redes sociais; escrever as tarefas em papel; concentrar-se numa tarefa de cada vez; e, por último, formar as pessoas para trabalharem com as tecnologias de forma adequada”.

Por sua vez, a mestre Vânia Viana acredita que a solução para evitar os sintomas de tecnostress não parte somente das empresas, mas também dos próprios usuários das tecnologias. “Eu tento, cada vez mais, quando estou com o meu filho ou de férias, desligar mesmo o telemóvel, não aceder às redes sociais”, explica na nossa entrevista. “Se eu já sei que o telemóvel é um “pseudoproblema” para mim, então eu tenho de o eliminar. Por mais que as empresas possam dar formações, todos nós sabemos qual é o problema e como o resolver. Nós é que acabamos por pensar «vou só dar uma espreitadela» e, sem querer, essa espreitadela gera-nos stress”.

“É fundamental que cada indivíduo saiba impor limites a si próprio, tais como estabelecer regras para a utilização do telemóvel/computador, definir horas de utilização da internet, fazer mais atividades e tarefas sem recorrer a tecnologias”.

Patrícia Branco, psicóloga clínica

Lidiane de Carvalho é o exemplo de uma pessoa que teve de quebrar, definitivamente, o contacto com as plataformas digitais, mais concretamente, com o WhatsApp. Tem 45 anos, é advogada e emigrou do Brasil, tendo vivido em vários países antes de vir para Portugal há sete anos.

Antes de se fixar no nosso país, a nossa entrevistada trabalhou em três empregos diferentes simultaneamente. Confessa que terá sido nessa altura que começou a desenvolver uma certa “fobia” ao telemóvel, devido ao “uso exaustivo” do mesmo e à grande quantidade de mensagens que recebia. “A sensação que eu tinha era a de que não conseguia fazer mais nada sem ser falar ao telefone”, começa por nos contar. “Sentia-me sufocada.”

Quando imigrou para Portugal, o problema parecia ter abrandado, até que Lidiane começou a exercer a sua profissão enquanto advogada e a trabalhar, maioritariamente, com clientes internacionais. “A partir daí, as coisas só pioraram. As pessoas ligam e esperam que você atenda no exato momento em que estão a ligar. Ligam muito cedo, ligam muito tarde, no final de semana.”

Confessa-nos que acabou por desenvolver uma relação muito negativa com o telemóvel e com a rede social WhatsApp, uma vez que não conseguia estabelecer um limite consigo própria e com os seus clientes.

“Não é aceitável, socialmente, que a gente não atenda o telemóvel. A pessoa te liga. Se você não atende, ela te manda um WhatsApp. Se você não responde, ela insiste e ainda te manda um email. Já é uma fobia para mim”.

Lidiane de Carvalho, advogada

Devido a todos estes fatores, Lidiane de Carvalho não recorre ao WhatsApp para uso profissional, conversando com os seus clientes apenas através do email e das videochamadas. “O meu telemóvel, como um todo, é um instrumento da minha vida pessoal e é muito útil!”, remata. “Mas é da minha vida pessoal. Eu quero ter controle sobre o meu tempo e decidir quando é que pego no telemóvel. Esta ânsia de ter de estar 24 horas atenta ao telemóvel ou de responder de imediato, é contraditória à mesma expectativa que as pessoas têm de que você faça um trabalho com qualidade, que você dê tempo de qualidade para essa pessoa e que escreva excelentes peças.”

Para além de tecnostress, Lidiane vive também com défice de atenção, o que aumenta as probabilidades de se sentir ansiosa perante as tecnologias. Há cinco anos que faz tratamento psicanalítico, pois percebeu que “tinha um problema”. A sensação de ver o seu espaço íntimo invadido, nomeadamente em situações de carácter profissional, deixou-a, muitas vezes, “angustiada, ansiosa, irritada e com ataques de pânico”. Ao sentir que “não tinha controlo do seu próprio tempo”, outras emoções foram surgindo ao longo do tempo, como sentir-se “incapaz, insuficiente ou má profissional”.

Conta-nos que, ao fazer terapia, percebeu que tinha o direito de escolher limitar o tempo que passa com o telemóvel e em que horários os seus clientes a podem contactar. “Os clientes estão habituados a que os profissionais trabalhem de certa forma. Esse é o novo normal. Mas, apesar de eu ser uma advogada progressista, também sou old school e tomei essa decisão de não usar o WhatsApp”,clarifica. “Foi uma decisão muito dura, muito difícil. Manter a decisão é difícil. Mas a qualidade do meu trabalho melhorou imenso. A qualidade da minha saúde mental e emocional melhorou imenso, então estou mais do que decidida em manter esta opção.”

Os seus sintomas de défice de atenção também diminuíram desde que começou a ser acompanhada psicologicamente. “Antes andava sempre aflita, clicava nos links errados, estava sempre desconcentrada, enganava-me nos dias em que marcava as coisas. Era horrível.” Mas, apesar de alguns sintomas terem diminuído, Lidiane continua a sentir alguma pressão por parte dos clientes ou colegas.

“Atualmente, o que mudou não foi o sentimento, mudou a maneira como lido com ele”.

Lidiane de Carvalho, advogada

A nossa entrevistada, enquanto emigrante, tem vários amigos e familiares no estrangeiro. Por este motivo, Lidiane diz-nos que passou a existir “uma certa expectativa de que estivesse sempre contactável”. Revela que chegou mesmo a perder uma amizade devido à sua “fobia” ao telemóvel e ao WhatsApp. “Ela disse-me que se eu não ligasse para saber da sua vida, então não conseguíamos ser amigas”, declara. “Ela esperava que eu fizesse isso. Se não o fizesse, então eu não era suficiente, não era preocupada. Eu percebo, não julgo. Mas foi muito duro, porque se tratava de uma amiga muito próxima e que foi muito importante para mim quando morei na Áustria. Até me emociono… Foi uma perda.”

Lidiane reconhece que toda esta rejeição em torno das tecnologias é o resultado de anos a que se submeteu às mesmas. Porém, não abdica do seu tempo de qualidade, o que implica abdicar de se manter em contacto com os outros em determinados momentos da sua vida. “A fobia ao telefone tornou-me numa pessoa muito táctil. Preciso do presencial e de comunicar pessoalmente. Eu não ligo para as pessoas no aniversário delas, não atendo quando me ligam no meu. E isso não significa que eu tenha mais ou menos amor por essas pessoas. Significa que, no dia do meu aniversário, eu quero vivê-lo com as pessoas que estão comigo.”


Outra das três dimensões do tecnostress que a mestre Vânia Viana destacou na sua tese, foi a tecnoinvasão que, por sua vez, pode esbater as “fronteiras entre a vida profissional, pessoal e familiar”. Quando esta invasão do trabalho na vida pessoal é elevada, pode pôr “em risco o bem-estar dos trabalhadores quanto à exaustão”.

Vânia Viana explica: “a primeira coisa que fazemos quando acordamos é aceder ao email, ou seja, ainda nem chegámos ao trabalho e já estamos a ver uma coisa que nos vai afetar. Antigamente, as pessoas eram muito mais felizes quando os telefones eram fixos, porque não podiam levar o trabalho com elas para casa”. Atualmente, já não é assim tão simples.

“Saímos do trabalho e levamos o computador para casa. No fim de semana até podemos querer ir sair, mas depois vamos só ali adiantar uma coisa, até que vemos um outro email e decidimos adiantar também essa tarefa. É um enredo. Nunca estamos desligados, estejamos de férias ou não”.

Vânia Viana, mestre em Ciências Empresariais

De acordo com o relatório publicado pelo Observatório de Liderança e Bem-Estar da Nova SBE, foram os inquiridos do sexo masculino que reportaram sentir “maiores níveis de tecnoinvasão”. Cinquenta por cento afirmou sentir a “necessidade de manter o contacto com o trabalho durante as férias”, e 26 % desses inquiridos afirmou debater-se com “a necessidade de sacrificar o tempo de férias para se manter a par com as tecnologias móveis”. Entre os vários grupos geracionais, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas.


Ricardo Ribeiro, de 29 anos, é consultor na área de recursos humanos e trabalha, diariamente, com software e tecnologias. Na altura da nossa entrevista, encontrava-se a desenvolver projetos para clientes da Austrália, tendo estabelecido o seu horário de trabalho em função dos mesmos. Esse horário estava repartido em dois: das 9h30 às 14h30 e das 22h00 à 01h00 da manhã.

Ricardo Ribeiro. Fotografia da sua cortesia

“Tenho um horário de trabalho definido, mas eu próprio não consigo cumprir esse limite”, começa por nos contar. “Quando estou fora do horário de trabalho, estou a pensar nele ou estou a pensar em adiantar trabalho. Quando damos por nós, estamos a dedicar todo o nosso tempo ao trabalho e nenhum a nós mesmos.”

Diz ser introvertido, o que o ajuda a “gerir o stress” das relações pessoais. Ao trabalhar à noite, “prescinde” das saídas durante a semana, mas, mesmo as outras atividades da sua vida, como ir ao ginásio ou assistir às aulas de um curso, acabam por ser preteridas, muitas vezes, por causa do trabalho.

Apesar de se considerar uma pessoa responsável, Ricardo assume que também recorre ao trabalho para não se distrair com as redes sociais, por exemplo. “Se eu não tiver nada para fazer, é provável que vá passar o meu tempo a ver vídeos, quando podia estar a ler um livro.” A verdade é que as redes sociais, nomeadamente o Instagram, fazem-no sentir que “está a perder tempo”. Chegou mesmo a desinstalar a aplicação, o que o ajudou a “desligar-se” das redes sociais.

“Confesso que comecei a inclinar-me mais para o YouTube. As tecnologias e as redes sociais no geral conseguem produzir uma sensação de prazer rápido com os vídeos curtos, por exemplo, o que pode deixar as pessoas facilmente agarradas ao telemóvel”.

Ricardo Ribeiro, consultor na área de recursos humanos

Chegou a sentir alguns sintomas de burnout [esgotamento psicológico devido ao trabalho] nos anos de 2021 e 2022, o que, de acordo com as suas palavras, poderá estar relacionado com o seu “espírito de sacrifício para com a empresa” onde trabalha. “Quero sempre dar mais. Quis mostrar empenho ao contactar clientes que não estivessem no nosso fuso horário. Mas é uma coisa que não me faz assim tanta confusão. A maior parte de nós fica acordada até à meia-noite ou uma da manhã a ver séries. Eu adianto trabalho. Agora se isso será uma desculpa ou não…”. Apesar disso, garante ter controlado a situação e sentir-se bem psicologicamente.


A mestre Vânia Viana alerta para a procrastinação que pode derivar do tecnostress e acrescenta ainda que o ato de procrastinar “tem que ver com o facto de nós acharmos que já sabemos fazer tudo” e decidirmos “adiar o trabalho até ao limite”, esclarece. “Acontece que, depois, ficamos stressados, porque se calhar aquela tarefa tornou-se mais complexa do que aquilo que achámos que iria ser e nem sempre entregamos as coisas a tempo ou acabamos por entregar mal feito”.

Residente em Braga, Carla Barroso tem 26 anos e terminou o mestrado em Direitos dos Negócios Europeus e Transnacionais em 2021. Ao longo do processo de escrita da sua dissertação sobre o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço, Carla encontrava-se com “elevados níveis de stress”, não só devido a algumas questões de saúde, mas também “ao bloqueio criativo” com que estava. “Sinto que o tempo de escrita poderia ter sido menor se tivesse passado menos tempo nas redes sociais”, confessa na nossa entrevista online. “Eu passava horas no TikTok ou no Instagram e depois sentia-me culpada, porque poderia ter estado a escrever a tese”.

Carla Barroso. Fotografia da sua cortesia

Admite que esta fase da sua vida se tornou num “ciclo vicioso”, pois, ao ficar ansiosa por não conseguir escrever, acabava por se “refugiar” no telemóvel para não ter de “lidar com os seus pensamentos”. Só que o sentimento de culpa regressava sempre e Carla tentava acabar a tese, mas as dificuldades não eram atenuadas. “Sentia que a minha vida não estava a andar para a frente por não conseguir acabar a tese, que não ia conseguir arranjar emprego ou juntar dinheiro para sair de casa dos meus pais. No TikTok, as pessoas publicam coisas positivas, então acaba por ser uma pescada de rabo na boca. Via estes vídeos para me sentir melhor, mas ao ver pessoas que estavam melhor do que eu, não saía da aplicação com um bom sentimento. Acontece que acabava sempre por lá voltar.”

Chegou a ter de pedir para adiar a entrega da tese, sendo que os dias passavam e a escrita tornava-se cada mais complicada. “Se eu perdesse uma manhã, deixava para escrever só no dia seguinte, porque ficava com a sensação de que o dia estava perdido. Se não começasse o dia direitinho, já não escrevia”. Para além do sentimento de culpa, Carla relata ter sentido angústia, falta de motivação, ansiedade e chegou mesmo a procrastinar algumas vezes durante esse período.

“Eu via vídeos de pessoas a iniciar a sua rotina às cinco da manhã e pensava como é que elas conseguiam? Isso fazia-me sentir mal por ainda estar na cama a determinadas horas”, prossegue no seu discurso. “Percebi que tinha de começar a ser mais produtiva e que conseguia escrever melhor à noite. Acabei por conseguir desbloquear a frustração que sentia por causa da tese, ao chegar à conclusão de que não somos todos iguais, nem funcionamos todos da mesma maneira.”

Nesta fase da sua vida, Carla recorda-se de se autocriticar bastante por passar tanto tempo nas redes sociais. Hoje em dia, essa culpabilização já não acontece, mas admite que ainda “é um sacrifício” não ir às redes sociais durante o dia. “Isso assusta-me”, assume.

“Tenho medo da falta de controlo, uma característica das pessoas com ansiedade. E estar tão dependente de uma coisa, por si só, já me causa stress, porque sinto que também não tenho controlo sobre isto”.

Carla Barroso, mestre em Direitos dos Negócios Europeus e Transnacionais

As redes sociais são, para a nossa entrevistada, “um refúgio” para quando se sente triste ou frustrada com algum problema da sua vida. Na verdade, já reparou que se estiver de “melhor humor” passa menos tempo nas plataformas. “Se estiver mais ansiosa ou numa fase em que não consigo lidar com os meus pensamentos, fujo para o TikTok para não pensar nisso”.

Conta-nos que, na altura em que estava a concluir o mestrado, chegou a fazer uma “desintoxicação das redes sociais” durante um mês. “Nos primeiros dias foi complicado, porque já era automático pegar no telemóvel e abrir a aplicação. Sentia-me aborrecida ou com medo de estar a perder alguma coisa. Mas depois, com o passar do tempo, fiquei a sentir-me mais leve e até dei por mim a ler muito mais”.

De acordo com algumas informações do Centro Nacional de Cibersegurança, a síndrome de FOMO (fear of missing out), isto é, o “medo de ficar de fora” manifesta-se, sobretudo, em quem passa grande parte do dia nas redes sociais a acompanhar o que os outros usuários publicam.

Segundo a mesma plataforma, o FOMO trata-se da ansiedade que experienciamos quando sentimos que estão a acontecer eventos excitantes e que nós não participamos neles. Atualmente, este sentimento é, cada vez mais, desencadeado pelas redes sociais. Para além da ansiedade, podemos também sentir-nos angustiados por não conseguirmos acompanhar o ritmo das publicações, ou seja, sentimo-nos offline. As causas desta síndrome passam pelo mau uso das redes sociais e revelam, por norma, baixa autoestima, défice de satisfação e solidão, podendo mesmo levar a estados de ansiedade e depressão.

Carla é seguida por um psicólogo desde 2021 e admite que o uso das redes sociais chegou mesmo a tornar-se uma obsessão.

“Já estabeleci um limite de 30 minutos para usar o Instagram, mas a verdade é que ignoro a notificação muitas das vezes e permaneço na aplicação”.

Carla Barroso, mestre em Direitos dos Negócios Europeus e Transnacionais

Quando a “normalidade” se rege pela tecnologia

A pandemia provocada pela covid intensificou os sintomas de tecnostress na população. “As pessoas ficaram presas em casa, as escolas fecharam, os serviços essenciais deixaram de funcionar presencialmente e passaram a fazer-se online”, começa por explicar a psicóloga clínica Patrícia Branco. “O novo “normal” passou a reger-se mais pela tecnologia, com foi o caso do teletrabalho, da telescola, os serviços digitais a fazerem parte do quotidiano. Tudo isto trouxe novos níveis de pressão, ansiedade e stress”.

Para grande parte da população empregada, a pandemia conduziu a um súbito aumento da carga de trabalho, bem como a alterações na forma e nas condições de trabalho, tais como o teletrabalho ou o emprego de curta duração. Tal como evidencia Vânia Viana na sua tese, devido ao confinamento e à obrigatoriedade de se trabalhar remotamente, os empregados passaram a estar “ativos 24 horas sobre 24 horas, sem se aperceberem, passando grande parte do seu tempo a trabalhar ou ligados ao computador/telemóvel”. Este fenómeno manifestou-se nas diferentes gerações.

Mariana Furtado é mestranda do curso de Jornalismo na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem 22 anos e é uma estudante deslocada, uma vez que veio da ilha de São Miguel, nos Açores.

Mariana Furtado. Fotografia da sua cortesia

A pandemia eclodiu quando Mariana estava no seu segundo ano da licenciatura em Ciências da Comunicação, na mesma faculdade. De repente, tal como o resto dos estudantes, viu-se obrigada a permanecer em confinamento e a aderir ao regime de aulas online. Para além da faculdade, Mariana também pertencia à International Association of Students in Economics and Commercial Sciences (AIESEC), uma associação que reúne um grupo de jovens que, por sua vez, ajudam estudantes internacionais a arranjar estágios profissionais. Sendo uma organização estrangeira, todas as tarefas e reuniões são realizadas em regime online.

“Eu era extremamente responsável, sentia que não podia falhar com a associação. Tentava assegurar que estava tudo OK com os membros, que estivesse tudo em dia”, conta em entrevista ao Gerador. Tentando conjugar a vida académica com a AIESEC, à grande quantidade de trabalho, acrescentava-se o facto de Mariana viver perto da faculdade. Segundo as suas palavras, isto causava-lhe ainda mais stress, pois “acreditava que tinha tempo para fazer todas as tarefas pessoais, académicas e profissionais, e isso nem sempre se concretizava”.

A rede social WhatsApp era, e ainda hoje é, uma das aplicações que a deixa mais ansiosa. “Tenho a sensação de estar constantemente ligada. Naquela altura, sempre que recebia uma notificação, ia ver. Aquilo tinha uma urgência imediata! Ainda hoje é assim. Temos de perceber que o dia só tem 24 horas e que, se não conseguirmos fazer tudo, amanhã também é dia.”

Mariana Furtado acabou por sair da AIESEC no final de 2020, pois percebeu que a sua saúde mental estava a afetar o seu trabalho. Ainda assim, a vida académica não se revelou mais fácil em termos tecnológicos, tendo havido determinadas cadeiras nas quais Mariana sentiu algumas dificuldades.

Uma dessas cadeiras foi a de ciberjornalismo, sendo que se tratou do primeiro contacto da estudante com a edição de vídeo e de som. “Na área do jornalismo, precisamos de ter conhecimento das várias plataformas. Era muito exigente e muito desafiante. De repente, tens um painel à tua frente, com imensos comandos que não sabes como usar”!

Recorda-se também de ter precisado de pedir ajuda a um colega da faculdade para um trabalho de fotografia, pois ele teria “mais facilidade com as tecnologias”.

“Acabei por stressar, porque tinha as fotografias no telemóvel, que era um iPhone, mas o meu computador era Android. Quando tentei exportar as fotografias para o computador, não consegui, porque os softwares eram incompatíveis. Senti-me profundamente incapaz e infoexcluída por uma coisa que aparentemente deveria ser simples. Mas as situações de stress impedem-nos de aprender e de fazer as coisas com a devida calma”.

Mariana Furtado, estudante de Jornalismo

Atualmente, a nossa entrevistada admite reconhecer alguns dos seus erros perante as tecnologias e aprendeu a lidar com o seu stress através da meditação. Contudo, ainda se debate com algumas dificuldades como, por exemplo, a “falta de espaço na Google Drive”. “Por muito que apague emails, não posso perder certos conteúdos e acabo por estar sempre sem espaço. Isto resolve-se de uma maneira simples. Só precisava de criar uma conta nova de Gmail, mas aquela coisa de estar constantemente a receber notificações a avisar “está a ficar sem armazenamento”, é um trigger [gatilho] para mim”.

Os anos de pandemia também aumentaram os níveis de ansiedade da nossa entrevistada Carla Barroso. Ao longo da nossa entrevista, refere que acordava e adormecia a ver as notícias sobre a situação pandémica. Hoje, reconhece que desenvolveu uma certa obsessão pelo assunto, pois vivia os seus dias a ler as notícias no telemóvel ou a ver televisão. “Lembro-me de pensar que, se os dados não saíssem até ao meio-dia, teria morrido muita gente. Estava sempre muito atenta e foi um desgaste muito grande para mim.” Nesta altura de grande stress, Carla assume ter apresentado sintomas de falta de concentração ou mesmo falta de memória.


Residente no Porto há seis anos, Inês Costa é designer gráfica e tem 24 anos. Exerce como freelancer e costuma trabalhar nas suas obras em casa ou em bibliotecas públicas.

Em entrevista ao Gerador, começa por afirmar que os primeiros sintomas de tecnostress surgiram na altura da pandemia, sendo que, na altura, estava a terminar a licenciatura. “Tive de fazer uma pausa consciente das tecnologias, porque a pressão de estar sempre online e “disponível” começou a causar-me muito mal-estar”.

Inês Costa. Fotografia da sua cortesia

Apesar de os seus níveis de tecnostress terem aumentado durante a pandemia, confessa que esta altura acabou por se tornar mais fácil de gerir, pois aproveitou o facto de as empresas e faculdades estarem fechadas para se desligar das redes e do telemóvel.

Atualmente, assume lidar diariamente “com ansiedade, stress e dores de cabeça por estar tantas horas à frente do ecrã do computador”. Depois de um dia de trabalho, costuma “ficar sensível à luz e ao som alto”. No que diz respeito a outros setores da sua vida, Inês também sente algumas dificuldades ao utilizar algumas das tecnologias, como as aplicações de pagamentos por conectividade. “Houve uma vez que tentei depositar dinheiro no banco, e a máquina engoliu o dinheiro sem o contabilizar. Fiquei muito nervosa e com receio por não haver um funcionário humano que me pudesse ajudar. Senti vergonha por ter essa relação com a tecnologia, é como se não conseguisse acompanhá-la”.

Explica-nos que “a linha que separa o trabalho freelance da nossa vida pessoal é demasiado ténue” e, por essa razão, sente-se cansada e stressada com mais frequência. “Sinto-me assim quando não consigo fazer alguma coisa tecnológica e esse stress faz com que tenha mais dificuldade em usar certas plataformas.”

A mestre Vânia Viana defende que o tecnostress não afeta apenas a área profissional dos usuários de tecnologias. “Podemos ficar stressados por sentirmos que não temos capacidade para trabalhar com um certo programa ou com algumas aplicações do telemóvel”, esclarece. “O tecnostress engloba tudo, não só o trabalho.”

Inês Costa afirma que os níveis de tecnostress têm vindo a afetar diretamente as suas relações afetivas. Por esse motivo, tem tentado limitar o uso das tecnologias ao estritamente necessário.

“A minha visão também está a piorar e sinto-me mais facilmente cansada e irritada a fim do dia. Claro que isso vai passar para as minhas relações, seja com amigos, família ou no trabalho”.

Inês Costa, designer

Vânia Viana também sofreu com tecnostress no passado, mas, desde que foi mãe que tem tentado desenvolver uma nova relação com as tecnologias. “Não lhe quero transmitir a ideia de que, para estar num determinado sítio, preciso de um telemóvel. Eu preciso de algo para me distrair. Antigamente, as pessoas distraiam-se e eram felizes. Não é um telemóvel que me vai dar felicidade. Temos de desfrutar dos pequenos momentos com as pessoas e com o ambiente em si”.

Com base no inquérito elaborado pela mestre e no estudo realizado pelos docentes Filipa Castanheira, Pedro Neves e Inês Dias da Silva, confirma-se que todas as gerações são suscetíveis de sofrer com tecnostress. Para a estudante Mariana Furtado, “a geração que mais sofre a seguir à nossa, é a dos nossos pais que têm mais aversão em aprender as novas aplicações e acabam por se ver forçados a tal”.

Por sua vez, a advogada Lidiane Carvalho tem “esperança” de que este fenómeno se trate apenas de “um bug temporário” e que, daqui a uns anos, “a gente consiga chegar a um ponto de equilíbrio entre a distribuição do nosso tempo que não é infinito”.

O nosso entrevistado Diogo Cunha reconhece que as redes sociais não ajudam a melhorar o seu estado depressivo, estando a considerar, inclusive, deixar de usar smartphone. “Queres e não queres acompanhar a vida dos outros. Muitas vezes, as pessoas que publicam coisas na internet nem me são próximas. Por isso, agora que penso, nem me faria diferença não acompanhar o seu dia a dia”, conclui. O tecnostress caracteriza-se como um distúrbio de adaptação que se relaciona com o uso inadequado das tecnologias de comunicação e de informação. Nas palavras da psicóloga Patrícia Branco, precisamos de “estabelecer fronteiras saudáveis e, principalmente, parar e avaliar as nossas vidas, porque somos nós próprios que criamos este tipo de problema e não a tecnologia em si”.

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