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Tem Graça: Mulheres palhaças trazem comicidade a espaços públicos de Évora

Um casamento, um funeral, uma festa de aniversário, uma passagem de ano e uma missa: esta era a premissa e a promessa da programação do Tem Graça – Festival Internacional de Mulheres Palhaças, em Évora, que foi muito mais do que isso.

Festival Tem Graça © Beth Freitas

Com muita cor, música e alegria a compor momentos divertidos e absurdos, os vários espectáculos fizeram ecoar gargalhadas pela Mata do Jardim Público, onde na sua maior parte se realizaram, sem esquecer uma intervenção no Mercado Municipal da cidade.

“A programação em Évora, superintensa, com espectáculos de manhã, à tarde e ao início da noite, já foi sonhada há dois anos, com a pandemia a estragar-nos os planos e a cancelar a parte de Évora no ano passado”, começa por dizer Susana Cecílio, directora artística e coordenadora geral do festival, realizado pela Algures – Associação Cultural. “Com a particularidade de ter sido toda na rua, habitámos a Mata do Jardim Público, com dois palcos, dentro do Artes à Rua, o grande festival em que Évora dá corpo, voz, palco a vários artistas e pretende levar as artes para a rua, na música e nas artes performativas em geral”, acrescenta.

Nas suas palavras, o Tem Graça trouxe “as pessoas para o espaço público, para o ocuparem e comungarem de um espectáculo de clown e colectivamente poderem rir e emocionar-se juntas num espaço que é delas”, não esquecendo que “nem sempre as emoções presentes nestes espectáculos são rir às gargalhadas. A beleza do clown e desta programação é termos a possibilidade de vermos várias abordagens a esta linguagem”.

Sobre o conceito do encontro, Susana Cecílio reforça a “necessidade de termos um festival de mulheres que trabalham com a comicidade. Parece-nos um ponto importante”. Para além deste evento, que acontece em vários pontos do país, a Algures dinamiza o podcast “Dou a minha palavra”, que reúne conversas com mulheres palhaças. “Tenho entrevistado várias artistas e nestas entrevistas vamos percebendo que, de facto, estamos a escrever história agora, que ainda há muito poucas palhaças profissionais e que as pessoas que estão no terreno têm poucas referências femininas”, partilha.

Em Portugal, existe, no seu entender, a visão de que “todo o trabalho ligado ao teatro popular, os contadores de histórias, os actores que trabalham com teatro de máscara, as marionetas e o clown, são artes menores, com menos espaço e menos visibilidade e muitas vezes até digo que nos situamos no conceito de interseccionismo”. Como as mulheres que são negras e sofrem racismo duplicado, porque são mulheres e são negras, exemplifica, “eu faço esse paralelo com o Tem Graça. Somos mulheres e trabalhamos com a comicidade, o ridículo e o feio, e à mulher é sempre pedido o contrário, para ser bela, para se comportar, para manter os padrões sociais aceitáveis. Estamos nesse lugar de interseccionalidade a fazer este trabalho em várias frentes”.

Neste momento, as fotógrafas e videógrafas Patrícia Poção e Beth Freitas estão a gravar várias entrevistas e conteúdos para um documentário, que estará pronto no final do ano [de 2022], “para pensarmos sobre isto em todas estas dimensões. Acredito que pode ser muito potente, romper com o padrão do que é o género, feminino, masculino, neutro ou outro, e também o género artístico”.

Espectáculo “Umana” de Maria Simões © Beth Freitas

Mais de 15 palhaças e três dias de muitas gargalhadas

A contar com a participação de mais de 15 palhaças, vindas de vários países, entre Espanha, Argentina e Brasil, e de vários pontos de Portugal, a programação, dividida entre três dias, abriu com a actuação de Maria Simões e a sua “Umana”, uma viagem sobre a passagem do tempo, a solidão e as recordações, “em busca da eterna juventude”.

A palhaça, vinda de Castelo de Vide, por onde o festival também passou no mês de Junho, apresentou, no dia 5, “a festa de aniversário da rainha dona Maria, a mais incrível festa do ano, no castelo”, preparada mesmo diante dos olhos de todos os que rumaram à Mata do Jardim Público de Évora para o momento de arranque do festival.

Seguiu-se “B.O.B.A.S.”, um espectáculo em antestreia da argentina Jimena Cavalletti, da espanhola Laia Sales e da dinamarquesa Lisa Madsen. As três formam uma banda musical que anima cerimónias fúnebres, mas desta feita nem o padre nem o morto aparecem. Neste compasso de espera, sem palavras, mas com música, as três tentam gerir o incómodo provocado pela situação, entretendo familiares e amigos presentes na plateia, com acontecimentos desastrosos e ao mesmo tempo com (muita) graça.

Espectáculo “B.O.B.A.S.” de Jimena Cavalletti, Lisa Madsen e Laia Sales © Beth Freitas

“Eu e a Laia começámos a fazer esta criação há cerca de um ano e dois meses. Tínhamos ganas de fazer algo sem falar, uma coisa muito boba, com música também, mas não sabíamos bem o que podíamos fazer exactamente”, começa por contar Jimenna Cavalletti. “Convidámos a Lisa Madsen, que aceitou de imediato, e, à medida que nós falávamos e partilhávamos ideias, a Lisa desenhava tudo. Achámos interessante e foi assim que chegámos à ideia de que seria um enterro e nós as animadoras musicais desse momento. O espectáculo é isso, a sigla B.O.B.A.S. significa Banda Orquestra Benéfica de Actos Sepulcrais”, adianta.

Para Laia Sales, esta foi uma oportunidade para “explorar a possibilidade de não ter linguagem verbal para perceber se funciona com o público de Portugal”, enquanto Lisa Madsen, pela primeira vez no nosso país, destaca a importância do movimento das mulheres palhaças no país e partilha que já participou “em muitos festivais de palhaços e palhaças pelo mundo, mas foi a primeira vez aqui e é sempre interessante abrir horizontes”.

Para as três, o projecto é ainda “muito novo. Palhaço e palhaça precisam do público para terminar o espectáculo. Partilhamos ideias e ensaiamos entre nós, imaginando que há uma resposta do público, mas precisamos que ela aconteça de verdade. Necessitamos da resposta real, e há respostas que não imaginamos nunca. O timing do espectáculo é o público que o dá”.

Interacção com o público expande-se em intervenção pública Com a “Intervenção no Mercado”, Luna e Susanation, de Portugal, Socorro, do Brasil, e outras palhaças convidadas, num total de mais de 15, percorreram o Jardim Público eborense até chegar ao Mercado Municipal, numa saída colectiva de rua onde interagiram com as pessoas que encontraram neste caminho. A partir de novas descobertas e variadas brincadeiras, protagonizaram aquele que foi o maior momento de interacção, troca e partilha entre as palhaças participantes no Tem Graça e o público local, tendo a improvisação como base criativa e artística.

Espectáculo “A Aparição” de As Testemunhas Duo, de Rafa Santos e Eva Ribeiro © Beth Freitas

Na tarde de sábado, teve lugar “A aparição”, a marcar a estreia d’As Testemunhas Duo, dupla composta por Eva Ribeiro e Rafa Santos, que trouxeram ao jardim “a mensagem do amor e da paz universal” ao dar corpo às personagens Maria da Conceição e Emilinha. Em entrevista, as duas artistas manifestam que “este espectáculo foi criado a partir de duas figuras de rua, testemunhas de Jeová, que fomos observando durante algum tempo e percebendo como as palhaças podem habitar esse lugar da rua a partir desse olhar”.

Não é, garantem, “uma obra que parodie a religião”. Interessa-lhes, acima de tudo, “observar fisicamente e energeticamente como as personagens da vida social se comportam, sobretudo figuras que estão à parte, que de algum modo habitam o espaço público como se já fizessem parte do cenário”. Para Eva Ribeiro, “as testemunhas de Jeová sempre tiveram esse lugar, criam uma estranheza no espaço, isso interessa-me e a partir daí começámos a investigar”.

O projecto As Testemunhas Duo teve, assim, início em 2019, no âmbito do Laboratório Internacional de Clown, onde participam regularmente, de investigação sobre clown minimalista, “uma estética específica dentro da multiplicidade estética que existe dentro do clown”, explica Eva Ribeiro. Os vários projectos em que têm participado ao longo do tempo “interseccionam-se e criam novos filhos, novos seres” e marcar presença neste festival fez também parte desse processo.

Esta obra de comédia física, que marca o primeiro trabalho das duas enquanto dupla, tem como objectivo “explorar o humor abstracto e absurdo” e a presença no Tem Graça assume, para Eva e Rafa, a maior importância. “Queremos frisar a resiliência do festival, superimportante, porque representa a comicidade feminina e traz mulheres com estilos muito diferentes. É importantíssimo em Portugal e no mundo acontecerem estes festivais, também para nós, palhaças, podermos conhecer-nos e trocar referências, estilos e inspiração”, dizem.

Segundo Eva Ribeiro, “estas trocas e parcerias são fundamentais. É o que nos faz ter fôlego para continuar em força e cada vez mais fortes. É um trabalho que me enche de esperança, também”. O trabalho que desenvolvem é, na perspectiva da palhaça, actriz cómica e formadora, “ainda muito precário e visto como menor. Gosto que seja visto como uma arte menor, popular, de público. Não é elitista, é feita para as pessoas, com as pessoas. Palhaço vem daí, mas que seja subestimada na sua capacidade transformadora é o que me deixa preocupada, que tenhamos realmente muita dificuldade em dignificar esta arte e a tê-la mais presente nas programações”.

Festivais como o Tem Graça criam, por isto, “importância junto de uma programação, a do Artes à Rua, onde o palhaço tem de estar também. Numa sociedade como a de hoje, tão triste e deprimida, de repente a palhaça vem e traz esse fôlego de humanidade, de voltar a trazer o mais essencial ao ser humano e a esperança, algo de que precisamos muito hoje em dia”.

Rafa Santos, por seu turno, acredita que marcar presença neste festival é “dignificar uma arte, pessoas, espaços e tempos e é muito importante todas as partilhas que nele acontecem, a abertura dos espaços e o facto de as pessoas virem assistir aos espectáculos e abraçar os espaços”.

Espectáculo Varieté © Beth Freitas

Prestigiar e misturar gerações, abrindo caminho para as mais novas e vindouras

O dia de sábado terminou com Varieté, um espectáculo de variedades do qual fizeram parte números seleccionados a partir de uma convocatória aberta a toda a comunidade e onde a comicidade se fez representar em diversas linguagens, tais como circo, dança e música, rumo a uma criação colectiva.

“Abrimos uma call para números até 12 minutos, com a premissa de que gostávamos de ter vários estilos e gerações. Tivemos artistas com vários estilos, de pessoas mais velhas, com 30 anos de experiência, a pessoas que estão agora a começar. O Tem Graça também tem muito este perfil de misturar gerações”, afirma a directora artística e coordenadora geral do festival, Susana Cecílio. “Isto é, para nós, uma aprendizagem constante e, para além da vertente pedagógica, uma forma de abrir um espaço para pessoas que normalmente não têm espaço nestas programações de grandes festivais”, explica.

Esta situação pode justificar-se pelo facto de as artistas, no início do seu percurso, conseguirem apenas fazer números mais pequenos, mais curtos no tempo, até se profissionalizarem. “Nesta programação são todas profissionais, mas importa lembrar que até à profissionalização, até terem estrutura para criar um espectáculo de uma hora, por exemplo, e depois participarem nos festivais, demora alguns anos”, justifica. “Este Varieté, que juntou pessoas da Argentina, Brasil, Espanha e Portugal, visou, assim, dar resposta a uma série de pessoas. Tivemos mais de 20 inscritas, que já são profissionais e que têm números curtos e ainda não têm um solo”, acrescenta.

Espectáculo Aceitas?, de Marta Costa © Beth Freitas

No domingo de manhã, o jardim de Évora recebeu cedo o espectáculo da actriz e clown Marta Costa. O cenário, composto por um tapete azul, uma passadeira vermelha, uma mala recheada de surpresas e uma placa que pergunta Aceitas?, dá-nos as primeiras pistas sobre esta história de uma noiva que não tem o seu noivo, mas prometia “provocar a gargalhada na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias e para sempre” e cumpriu.

Com três elementos do público como convidados para representar o pai da noiva, o padre e a menina das alianças, o momento cativou a atenção do público pela proximidade e conhecimento sobre o tema. “Afinal, todos sabem o que é e como é um casamento. Quando apresentei pela primeira vez, percebi que o tema funciona. É dramaturgia universal”, partilha Marta Costa. “O espectáculo necessita de interactividade, flui nesse sentido. As pessoas vão a palco e esse é um lugar muito sensível. Respeito muito isso, o meu objectivo é sempre que a pessoa se sinta bem e possa aproveitar. As pessoas têm muito humor dentro e tudo o que eu puder fazer para isso sobressair fico muito realizada”, continua.

Marta Costa começou a fazer teatro no grupo da sua aldeia e, desde logo, gostou da sensação de estar em palco e da ligação com o público. “Gostei também de estar em cena nessa linguagem, não muito verbal, mais física, em que a ligação com as pessoas é muito importante, em que há um universo muito particular e essa linguagem do palhaço é de jogo, brincadeira, de coisas não muito comuns”, refere, para depois acrescentar que nascia, neste momento, o fascínio pelo clown. Depois de um curso de desporto e de uma espera para ser professora de educação física, integra o Clown Laboratory Porto para fazer formação. Em 2015, cria o solo Aceitas?, em que interpreta uma noiva que fica sozinha e faz o seu casamento com as pessoas do público, e, em 2017, inicia uma colaboração com a Operação Nariz Vermelho.

O Tem Graça, onde participou a convite de Susana Cecílio que já conhecia o seu trabalho, “sendo um festival apenas de mulheres palhaças, é um movimento muito interessante também por colocar a comicidade feminina em vários pontos de vista. Como mulheres temos universos parecidos, mas, ao mesmo tempo, muito diferentes”.

Ao chegar, sentiu de imediato “que estas pessoas têm os mesmos objectivos que eu, estão a trabalhar a mesma arte e isso é mesmo agregador e é muito forte. A experiência, neste festival, foi potenciadora nesse sentido e acho que estamos mesmo num caminho muito bom de realização do clown, dos palhaços, desta linguagem que é o palhaço e na qual existe muita diversidade”.

Espectáculo Ai ai ai de Ayelén Ormaechea © Beth Freitas

Ai ai ai, por sua vez, conta a história de Pandora, interpretada pela argentina Ayelén Ormaechea, que conheceu um japonês no Tinder. Apaixonada e feliz, ao longo de 50 minutos, treina com o público o momento do encontro e constrói, a partir da sua imaginação, “o universo possível do amor efémero e o instante trágico do amor bengala, amor de palavras e feitiços milenares”.

A fechar a programação deste festival em Évora, Mireia Miracle preencheu todas as cadeiras disponíveis e até as mesas do parque de merendas adjacente para assistir ao seu espectáculo Rojo. A palhaça espanhola sai do interior de uma mala, transforma o público na sua família e despede-se dele para viver uma nova vida, levando consigo os seus pertences e os seus sonhos. Na viagem, encontra uma fronteira, que depois de muita luta, e com boa disposição, ultrapassa. Sem se esquecer de que se ama muito, frase que repete por diversas vezes durante o espectáculo, a personagem principal deixa a mensagem de que o amor próprio pode ter a força de que precisamos para encarar da melhor maneira aquilo que, de uma forma ou de outra, vai atrapalhando o nosso caminho.

Espectáculo Rojo de Mireia Miracle © Beth Freitas

“É importante ressalvar que a linguagem do clown é uma linguagem que abarca verdadeiramente todos os estilos e este Rojo da Mireia, palhaça que vem do teatro social e da dança, é um espectáculo premiado que traz uma sensibilidade muito forte. É um espectáculo cheio de emoções”, considera Susana Cecílio.

O festival Tem Graça, que se tem vindo a realizar em diversos pontos do país, foca-se na comicidade feminina e promove, em Portugal, desde 2020, uma programação que oferece, ao longo do ano, tertúlias, formações e espectáculos. Nestes, já actuaram artistas como Gardi Hutter, da Suíça, Virgínia Imaz, de Espanha, Jay Toor, da Alemanha, e Hilary Chaplain, dos Estados Unidos da América, entre outras. Segue agora para Mértola, onde chegará em Setembro para despertar a hilaridade.

Aposta na investigação integra acção da Algures

Com o suporte científico do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Tem Graça abraça ainda uma dimensão académica, ao dinamizar uma bolsa, dirigida a mulheres e pessoas não binárias, no valor de dois mil euros, destinada à produção de um artigo. Entre 31 candidaturas, foi seleccionada Melissa Lima Caminha, que também marcou presença nos três dias do festival em Évora. Licenciada em Artes Cénicas pelo IFCE, no Brasil, tem mestrado e doutoramento em Artes e Educação pela Universidade de Barcelona e é autora da tese “Palhaças: histórias, corpos e formas de representar a comicidade a partir de uma perspectiva de género”. Actualmente a trabalhar enquanto investigadora, é também professora na licenciatura em Artes Cénicas da Escola Universitária ERAM, em Espanha.

O ano passado, também no âmbito desta bolsa e deste trabalho de investigação desenvolvido no âmbito do Tem Graça, a bolseira Radarani Oliveira, que este ano também participou no festival, na Intervenção no Mercado e no espectáculo Varieté, produziu o artigo “E a palhaça, o que é? Ela é o que quiser”.

* Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico
Texto de Inês Antunes Malta

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