Esta semana, ao ler a mais recente edição da Revista FOmE, fui levado até um texto de 2016, publicado na The New York Times Magazine, de Jeremy Gordon, que considero importante recuperar. Intitulado Is Everything Wrestling?, o autor sintetiza, a dada altura: “… o resto do mundo alcançou o ethos do wrestling. A cada ano que passa, há cada vez mais faces da cultura popular a parecerem-se com o wrestling: uma “realidade encenada” em que histórias roteirizadas se misturam com eventos reais, numa linha confusa entre a verdade e a mentira que parece aumentar, e não diminuir, a adição do público pelo melodrama”*.

Num momento relevante no contexto político nacional – com as eleições presidenciais à porta – e internacional, pela tomada de posse do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, urge uma reflexão sobre o cenário dantesco que nos últimos meses veio, de alguma forma, tomar de assalto a própria democracia. Vejamos os factos sobre este prisma: a política e a forma como esta se molda na sua própria esfera, ligando-se a outras, funciona como um teatro, no qual o dispositivo cénico é orientado segundo determinados rituais e códigos que, em geral, todos reconhecemos. Acontece que até mesmo esses códigos têm mudado nos últimos anos, em parte pela preponderância das redes sociais na forma como integram determinados eventos, capitalizando a sua própria mediatização.

É nesse momento que o problema da alienação ganha novos contornos. Ao contrário de um evento como o 11 de setembro de 2001, que chegou até cada um de nós pelo poder das imagens televisivas, atualmente um qualquer acontecimento, como a invasão do Capitólio dos Estados Unidos, ocorrido a 6 de janeiro deste ano (e que até já tem direito a uma página na Wikipédia), começa muitas das vezes nas redes sociais, sendo que é aí que permanecerá até ser substituído por outro mote de conversa que suba nas tendências. Não obstante, neste processo de transformação ocorrido já este milénio, nem por isso os media deixam de ter o seu papel, pelo contrário. É nestes que reside a força da sua amplificação.

Sobre este ponto vale a pena recordar a entrevista do cientista social francês Daniel Dayan, ao número 7 da revista Comunicação & Cultura, publicada em 2009, em que este discorre sobre a forma como o terrorismo (num domínio profundamente imagético) acabou por substituir a própria guerra, como evento de choque: “de certa maneira, houve um tempo em que o terrorismo era algo novo e excitante. Era um modo novo de usar os media, um novo género mediático, uma nova forma de conduzir uma guerra. Tirava-nos o fôlego, e as pessoas ficavam genuinamente espantadas e chocadas. Com a multiplicação do terrorismo, dos atos terroristas, do modo behemoth de fazer a guerra, esse modo behemoth transformou-se na regra”.

Vivemos tempos de grande incerteza, mas também de instabilidade, não só pelo contexto pandémico em que nos encontramos, bem como pelo ambiente que temos experienciado nas últimas décadas – uma ressaca contínua de um sistema capitalista (em permanente ciclo de crise) que, embora coexista numa conjuntura democrática, tem sido, em boa parte, responsável por dar palco àqueles que mais a tentam destruir. E a verdade é que as redes sociais e os media não têm ajudado. Embora as diferentes plataformas digitais tenham colocado o ónus numa aparente democratização do debate, por outro lado demonstraram como a falta de regulação pode trazer grandes problemas, sobretudo a médio, longo prazo.

É paradoxal, por isso, que plataformas como o Twitter, o Facebook e o Instagram tenham suspendido as contas de Donald Trump, numa tentativa de tentar limitar a sua capacidade de semear discórdia e ódio, quando estas são igualmente responsáveis. Aí podemos entrar nos trâmites daquilo que é, na verdade, um jogo duplo: por um lado, demonstram a preocupação de regularem um determinado fenómeno que se descontrolou, sendo que por outro, tentam limpar a sua própria imagem. Recorde-se igualmente que é no seio destas que muitos movimentos continuam a nascer e a proliferar, alimentados por algoritmos que têm todo o interesse em disseminar mais e mais teorias da conspiração e ideias radicais que já estão fora daquilo que deve ser consentido num domínio democrático. E que quando não for nas plataformas mais utilizadas – por serem suspensos ou ilegalizados –, existirão sempre outras à espreita para capitalizar, à custa desses mesmos movimentos.

Numa análise astuta ao fenómeno, João Ribeiro, cofundador do Shifter, escreveu recentemente como esta suspensão de contas, em efeito dominó, aumenta a pressão sobre “os enablers da organização e, deputados, ativistas e civis começaram a chamar à responsabilidade empresas e serviços que, de alguma forma, colaboraram na disseminação da retórica de incitação à violência de Trump e de grupos mais ou menos orgânicos em seu apoio – como QAnon, ProudBoys ou o movimento #StopTheSteal”.

Em The Age of Surveillance Capitalism, recentemente traduzido em português, Shoshana Zuboff argumenta que, mais do que o produto, somos quem fornece a matéria-prima que alimenta as receitas de grandes empresas como a Google e o Facebook. A norte-americana vai mais longe,  realçando como estes “capitalistas de vigilância” – onde inclui Larry Page (Google), Eric Schimdt (Google) ou Mark Zuckerberg (Facebook) – reclamam o direito a saber tudo sobre as nossas vidas, sem que haja qualquer tipo de controlo ou de regulamentação sobre as suas próprias operações digitais em curso.

Embora inescusavelmente vigiados, a autora insta-nos a que reclamemos o nosso direito de regulação (e de vigilância sobre quem nos vigia) e também de termos um futuro que seja escrito e decidido por nós, livre das manipulações subtis que nos conduzem a ações que vão ao encontro do interesse de quem puder pagar mais. A uma semana das eleições presidenciais em Portugal, convivemos com um candidato presidencial que se serve da baixeza e mesquinhez constantes para distrair, silenciar ou perturbar os seus adversários, deturpando factos, que vão funcionando à semelhança daquilo que aconteceu com o 45.º Presidente dos Estados Unidos.

Não nos deixemos dominar pelo universo semi-ficcional do wrestling – ‘teatro de excelência’ que funciona sob uma ideia de reação, onde o ator reage constantemente ao público e vice-versa. Podemos escapar à alienação, sempre que formos capazes de refletir antes de agir e dessa forma resistir igualmente ao tempo de barbárie gratuita e desmedida em que nos encontramos.

* Tradução livre

-Sobre Ricardo Ramos Gonçalves-

Ricardo Ramos Gonçalves nasceu em Castelo Branco, em 1995, mas é em Lisboa que reside e trabalha atualmente como jornalista no Gerador, plataforma de comunicação na área da cultura que lhe permite estar envolvido em projetos artísticos que escapam às próprias fronteiras do universo da comunicação. É licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Ao longo deste tempo de itinerância entre áreas de estudo – que lhe permitiu viver e estudar por um breve período em Pádua, em Itália –, tem-se dedicado e envolvido sobretudo em iniciativas de âmbito cultural, em especial nos campos da literatura, do cinema e das artes visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Andreia Mayer
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