Ou Como pensar a situação actual, sem falar dela

Porque se temem a incerteza e o vazio, as instituições procuram assegurar as consciências e promover uma estabilidade (ilusória). Privilegiam a segurança, as certezas garantidas pela autoridade e a constituição de identidades aparentemente fortes. Por isso, as instituições constituem, nas palavras de Michel de Certeau, “seguradoras que protegem contra a questão do outro, contra a loucura do nada”. Ou seja, contra a loucura da falta.

Certeza e segurança estão, assim, associadas à repetição do já-conhecido, ao hábito, à tradição recebida, tantas vezes tida como “intocável” – e são uma forma de neutralizar a diferença, o outro, a proposta que põe em causa o estado das coisas presentes.  Uma das frases escritas nas paredes de Paris, em 1968, foi: “Le sacré, voilá l´ennemi!” –  O sagrado, no sentido etimológico, é o intocável, o separado, o inquestionável, e isso é o verdadeiro inimigo da imaginação: nesse domínio, o império do passado é “religiosamente”, escrupulosamente, mantido e repetido, desapossessando o homem de si mesmo e do poder de imaginar a sua vida. Sagradas são, neste sentido, as ideias feitas, as fórmulas repetidas, os “lugares-comuns” do pensamento que não se ousam pôr em causa.

Hoje, contra esse sagrado, quero celebrar a imaginação e a incerteza como o espaço espaçoso dos possíveis. Quero louvar a plasticidade (sinal de vida) e não a rigidez (reflexo da morte). Quero sublinhar a importância daquilo a que Nietzsche chamou Força plástica: a força activa que permite a alguém desenvolver-se de maneira original e independente, de transformar em si e de assimilar o passado e as influências que recebeu, de curar as suas feridas, de reparar as suas perdas, de enfrentar o incerto.

Diante da incerteza, a imaginação pode/deve propor outro estado de coisas, outro “horizonte de possibilidades” (outro Mundo) – e acima de tudo, enfrentar a falta, ser capaz de imaginar a falha antes de propor o que falta, em vez de o tapar (por medo do vazio, do nada) com as respostas já seguras, gastas e retardadas.  A falta, aquilo que nos falta, remete para o necessário desequilíbrio introduzido num sistema: um desacerto que perturba e subverte a ordem. Depois de experimentar esse desequilíbrio não podemos já regressar sossegados à antiga ordem. Começa uma forma de outridade.

Só se pode acolher algo, um outro, um diferente, se houver lugar para isso. Se não se estiver cheio (de si, de certezas e seguranças), se houver lugar vazio. E Lao Tsé ensinava: “Molda-se o barro para fazer um vaso, é precisamente o que nele não existe que dá utilidade ao vaso. Furam-se portas e janelas para fazer uma sala, é precisamente o que nela não existe que dá utilidade à sala”.  Esse espaço aberto, esse vazio tem de ser criado. É preciso, então, em primeiro lugar, contra todo o poder seguro, esvaziar.

Tal como os indivíduos, as comunidades podem, e devem, compreender-se neste modo de outramento e imaginação desassossegada. O que é a utopia senão outro nome para o desejo de um outro modo de ser? Um laboratório onde se testam possibilidades inesperadas. Um atelier. E essa possibilidade ficcional, lugar sem lugar, desassossega já este lugar existente, aqui e agora. Essa parece-me ser a sua principal função. Exercício de imaginação já presente e a criar desequilíbrios. A primeira função da utopia, indicou Bloch, é “manifestar que o real não se esgota no imediato” – o real tende para o que ainda não é. Para que tal aconteça, tem de se ser muito realista, de modo a se conhecer e julgar bem a realidade, as suas injustiças e necessidade de mudança, para propor uma outra realidade.

A ficção utópica está já a impregnar de sentido e desassossego este lugar que é o nosso. Um “enclave”, chamou-lhe Frederic Jameson. A utopia, é o que impede que o horizonte de expectativas se funda com o campo da experiência; ou seja, que não se confundam a esperança e a tradição, o desejável e o efectivo. Basta existir uma utopia para que uma pergunta se torne já presente e nos inquiete: e se? É esse desacerto o que a utopia cria. A consciência de um mundo inacabado, não terminado, um descontentamento com o já existente no presente, apontando uma distância que nos põe a caminho. A imaginação faz surgir, nas paredes do real, portas inesperadas: com a possibilidade da sua abertura, com a incerteza do que está ou virá depois de ser aberta. Abre-se, assim, na situação presente, mesmo na mais desesperada, uma possibilidade de saída, de fuga, de um outro modo de ser. Mesmo para um condenado à morte, como num célebre filme de Bresson – que é o mesmo que dizer: para todos nós.

Deste modo, contra a atrofia da imaginação, queremos lembrar que “a imaginação é um modo indispensável de investigação do possível” (Ricoeur). Relembrar que ela é a nossa liberdade – mas sem esperar milagres. Mais do que a realização futura, a função da utopia é a crítica já do presente para aí compreender o intolerável. Procurar alternativas com uma “consciência antecipante” (Bloch). Nas mais diferentes perspectivas: educativa, política, económica, urbanístico-arquitectónica, tecnológica, religiosa, médica, cultural… A função das utopias é explorar possibilidades. E viver, como sabia Emily Dickinson, é “habitar na possibilidade”.

*Frase escrita numa parede de Paris, em 1968. Este texto é uma adaptação do ensaio escrito para o Festival de l´incertitude, Fondation Calouste Gulbenkian, Paris, 2016

**Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira
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