O ponto de encontro estava marcado: mensalmente, às terças-feiras, as portas do Teatro Nacional D.Maria II abriam para ouvirem-se histórias, palavras, leituras e conversas dos poetas. No entanto, a parceria entre o Teatro e a Casa Fernando Pessoa antevia pausar no dia em que o Teatro fechou portas, sem data prevista para a reabertura, acompanhando todo o cenário pandémico nacional.

Mas se a iniciativa “D.Maria II em Casa” continuou a levar o teatro até à casa dos portugueses, Teresa Coutinho percebeu também, desde logo, a viabilidade de adaptação do Clube dos Poetas Vivos em período de confinamento. Coordenadora, desde 2016, do ciclo de poesia do Teatro Nacional D.Maria II, Teresa Coutinho não tem dúvidas de que o lugar certo para o encontro é no átrio do teatro, junto das pessoas. Contudo, ressalva a importância da presença online e das oportunidades que surgiram deste novo formato: “O online deu-nos a possibilidade de sermos vistos do outro lado do mundo”.

O “Clube dos Poetas Vivos” continuará temporariamente todas as terças-feiras, às 17h, em direto no Instagram do D. Maria II. “Poesia para crianças”, “Poesia Experimental Portuguesa”, “Letrista é poeta: de Buarque a Dylan” e “Poesia erótica e satírica” são os temas que compõem o Clube dos Poetas Vivos em junho.

Ao Gerador, Teresa conta como foi pensar e moldar o Clube ao online, fala sobre os ganhos e as perdas deste novo formato, e ainda de como na adversidade se percebe o quão se pode ir mais longe.

Gerador (G.) – Como foi pensar um novo formato, criar uma nova dinâmica e, sobretudo, qual foi a liberdade criativa a que a Teresa se permitiu numa altura de restrições e confinamento
Teresa Coutinho (T.C.) – Quando nos demos conta que os teatros iam fechar, que o país ia parar – apesar de no início não sabermos, naturalmente, de quanto tempo de confinamento estaríamos a falar – o TNDM II, a Casa Fernando Pessoa e eu pensámos logo que o Clube dos Poetas Vivos era suficientemente flexível para poder manter a sua identidade e transitar para o online, com os devidos reajustes. Percebeu-se que a habitual conversa com o poeta – porque vive da dinâmica e da força do encontro entre o público e o convidado – não faria sentido neste formato mas, em contrapartida, pensou-se numa programação que permitisse irmos além fronteiras na poesia que se lê e, aproveitando que estávamos todos em casa, com mais tempo entre mãos, que relacionasse a poesia com temas a que urge dar espaço, atualmente. Temas que são importantes por nos permitirem refletir sobre a atualidade, por estarem inevitavelmente na ordem do dia ou, pelo contrário, resgatar de algum lugar de invisibilidade a que foram votados, temas que merecem ser conhecidos do público. Exemplos disto são os clubes dos poetas vivos da Poesia Queer ou da Poesia e Feminismo, enquanto temas centrais a pensar na nossa sociedade e no outro espectro, o clube dos poetas vivos do Grupo do Café Gelo, esse grupo de poetas que se reunia durante a ditadura de que pouco se sabe, para além do trabalho que a Joana Emídio Marques fez recentemente.

(G.) – Agora em formato online a presença de poetas e dramaturgos estrangeiros está muito mais presente. O online permitiu trazer “a palco” estes autores de uma tal forma que não seria possível no formato normal do Clube?
(T.C.) – Quando o Clube dos Poetas nasceu, o seu objectivo era dar espaço, divulgar e reconhecer a poesia portuguesa contemporânea. Essa era a sua missão, muito assente na premissa do encontro presencial entre o poeta e o público, que proporciona uma partilha que, de nenhuma outra forma, é tão rica. Por mais que nas inúmeras conversas (algumas de duas horas!) que ali se tiveram no átrio do TNDM II, os convidados tenham evocado, naturalmente, muitos poetas não portugueses e não contemporâneos, a missão do Clube era a de pensar e ouvir a poesia portuguesa. Era assim que me parecia fazer sentido.
Claro que qualquer transição implica compreendermos do que é que podemos abdicar e o que é que podemos ganhar. O online deu-nos a possibilidade de sermos vistos do outro lado do mundo, por poetas e por seguidores e termos poetas a participar, a partilhar a sua poesia e de outros, em lugares como o Brasil ou os EUA. Esse é, claramente, o ganho que este formato nos trouxe.

(G.) – Por outro lado, perdeu-se alguma presença. Houve algum encontro que gostava de ter tido mas que o acesso ao online não permitiu?
(T.C.) – Os três poetas que estavam programados para abril, maio e junho são os encontros que eu gostaria de ter tido. Tê-los-emos no futuro, no átrio do TNDM II, ao vivo e a cores, seguramente.

(G.) – Enquanto público do online, nós temos acesso a uma extensão de um encontro prévio ou os diretos são um improviso do momento?
(T.C.) – Há um trabalho de programação – escolha dos convidados ou no caso do online, dos temas – que é feito com bastante antecedência. No caso do online, a seleção de poemas é feita com algum tempo também, para que possa ser partilhada com os atores e discutida, trabalhada. Como as sessões acontecem todas as semanas, temos que trabalhar com um ritmo um bocadinho frenético, mas nunca poderíamos partir para o direto sem sabermos o que vamos partilhar, como o vamos partilhar e porquê.
O que acabou por acontecer, à medida que os diretos foram ganhando forma, foi eu perceber que havia espaço, sim, para uma intervenção breve de alguém que dominasse o tema e viesse criar discurso acerca do que tinha sido ouvido. Têm sido intervenções muito ricas e generosas, que nos deixam sempre com vontade de mais. Esses convites, sim, nem sempre foram feitos com muito tempo! (risos) Mas tenho tido a sorte de ter interlocutores muito generosos e disponíveis.

(G.) – E como é que a Teresa consegue criar momentos de ligação com os diferentes convidados e torna esses momentos íntimos? Ou, por outro lado, acha que o online formou uma certa barreira que acabou por interferir na profundidade das conversas?
(T.C.) – Como disse antes, acho que há que aceitar, à partida, que um direto de Instagram não é um encontro no átrio de um teatro. Não podemos esperar as mesmas coisas, não podemos lamentar o que se perde num e noutro, se não, não se fazem adaptações. Assume-se que não se quer fazer noutro formato, que as concessões são maiores que os benefícios e pronto. No caso do Clube, pesou mais na equação o que a continuação do projecto, ainda que em moldes tão diferentes, poderia trazer às pessoas e ao próprio Clube, permitindo-nos repensar, sempre, a sua missão, a sua relação com o público, a abrangência da sua programação.
Tenho a certeza que o lugar do Clube dos Poetas Vivos é no átrio do teatro, com as pessoas sentadas nas mesas e nas escadas, a ouvir quem convidamos, mas também tenho a certeza que esta adaptação nos fez perceber muito sobre o que pode ser o Clube, quando voltar a materializar-se num encontro. Seria estranho se, depois destes meses e desta experiência tão intensa, tão específica, o Clube dos Poetas Vivos não fosse permeável ao que lhe, nos aconteceu. Às vezes, na adaptação à adversidade, percebemos como é que, no regresso ao que conhecíamos, podemos ir mais longe.

Entrevista por Bárbara Dixe Ramos
Cartaz do Clube dos Poetas Vivos