É na pequena freguesia de Sangalhos, em Anadia, junto ao Centro de Alto Rendimento – Velómetro Nacional, que nasceu a 22 de junho o Museu Duas Rodas. É o único do país que dá a conhecer a história local, nacional e até mundial da motorizada e da bicicleta. O objetivo é imortalizar duas modalidades que ainda hoje inquietam a indústria do concelho de Anadia.

Desde bicicletas e motorizadas a peças e acessórios, algumas autênticas raridades, nada escapa ao Museu Duas Rodas. Tomemos o exemplo de uma bicicleta do século XIX, um dos veículos mais antigos em exposição. Todas as peças em exibição são fruto da procura constante realizada de porta-a-porta e da doação de, por exemplo, famílias de ex-ciclistas a esta casa.

À parte destas raridades, está também exposto um importante espólio documental e fotográfico. Construído tanto para miúdos como para graúdos, a ideia é tornar a visita a mais dinâmica possível e, acima de tudo, relembrar os antepassados do ciclismo em Portugal. Por enquanto, a entrada mantém-se gratuita, ainda assim está sujeita a marcação prévia.

O Gerador foi procurar saber mais sobre a origem do Museu Duas Rodas com Teresa Monteiro, uma das responsáveis pela recolha cinematográfica e de acervo. Ao longo da conversa, Teresa procurou explorar a história do ciclismo em Sangalhos, e na região, o processo de recolha das peças, a valorização destas modalidades a nível local e nacional, confidenciando ainda algumas histórias da sua passagem por este museu.

Gerador (G.) – O Museu Duas Rodas foi inaugurado a 22 de junho e está localizado no Centro de Alto Rendimento de Anadia – Velódromo Nacional, em Sangalhos. Como é que nasceu o sonho de criar o Museu Duas Rodas? Porquê na freguesia de Sangalhos?

Teresa Monteiro (T. M.) – Exatamente na freguesia de Sangalhos porque foi a zona onde existiu imensos armazéns que comercializavam bicicletas. Aliás, até é mais extensivo do que Sangalhos diria mesmo toda a zona da Bairrada onde existiram muitas indústrias ligadas às motorizadas, até aos 50cc.

Existiam mesmo indústrias importantes, na época, e estes meios eram ainda mais importantes culturalmente, porque, realmente, as pessoas se transportavam neste tipo de veículos, tanto bicicletas como motorizadas. Ainda hoje se veem muito pela região as pessoas a deslocarem-se através destes meios.

G. – Além de bicicletas e motorizadas, o Museu conta com uma grande panóplia de peças e acessórios, sendo que alguns são autênticas raridades que marcam também a história do ciclismo e do motociclismo local, regional e nacional. Um dos veículos mais antigos em exposição é uma bicicleta do século XIX. Como é que funcionou o processo de recolha das peças em exposição?

T. M. – Foi todo um trabalho de procura de pessoas… Havia pessoas que já as colecionavam com o propósito de as deixarem para o museu, havia pessoas que trabalharam para fábricas que já estão extintas, como, por exemplo, a SIS Sachs.

Foram mesmo as pessoas que foram guardando em casa e como essas fábricas foram extintas tinham a convicção de que mais tarde se viesse a guardar estas peças na memória coletiva. Atualmente, existem muitas peças ligadas às bicicletas, desde os pedais às campainhas, e todas elas foram fabricadas aqui na região.

G. – Caso alguém queira doar peças antigas, para o museu, ainda é possível?

T. M. – Sim, sempre até porque este museu funciona muito com uma particularidade: o espólio temporário. Por exemplo, a nível do universo das motorizadas temos dois ou três modelos, de cada marca, mas existem muitos mais modelos. Há interesse em haver rotatividade…

Temos casos de pessoas que nos cedem durante seis meses, um ano, mas que depois fazemos a permuta, no final do ano, e entram novos modelos. Claro que há alguns que têm de estar sempre presentes como a V5 ou a Famel XF17, que são mesmo modelos icónicos na memória dos portugueses, a nível nacional. No geral, continuamos sempre numa infinita busca.

G. – Paralelamente, está também em exibição um espólio documental e fotográfico. Esta opção foi pensada como uma forma de transportar até aos visitantes uma maior “sensação” de nostalgia, através do sentido visual, a estes meios de transporte?

T. M. – Sim! Também estamos a fazer essa reunião… Temos até alguns protocolos com a ABIMOTA, por exemplo, que possui todo o legado da Famel. Assim sendo, estamos, neste momento, num processo de digitalização, desse legado, para um arquivo digital. Aliás, o nosso museu também tem a caraterística de possuir esta parte digital, seja através das mesas interativas que contêm informação disponível para complementar a que está exposta nas paredes e no próprio espólio. Talvez seja até mais dirigida ao público mais novo e que está mais habituado a lidar com este tipo de informação. É mais apelativo para eles… Por exemplo, fizemos questão de ter alguns simuladores de bicicletas em que é possível fazer o percurso da região. O público mais velho está mais habituado a um espólio mais físico… Para isto acontecer estamos constantemente a reunir novo espólio documental. Os ex-ciclistas de Sangalhos tinham e têm muitas fotografias, recortes de jornais, que fazem questão de nos ceder.

G. – Além da valorização da importância do setor das duas rodas para o concelho, quiseram também transformar esta zona num ponto de maior interesse turístico?

T. M. – Sem dúvida! É mais do que um polo de atração turística…. É uma zona muito rica a nível de gastronomia, de termas e de parte cultural, a nível de geografia, também é um complemento.

G. – Por curiosidade, sentes que este setor é valorizado em Portugal?

T. M. – Curiosamente, quando fizemos a recolha do espólio, apercebemo-nos de que aqui na região é, mas isso não significa que seja a nível nacional… Da nossa experiência apercebemo-nos de que as pessoas de cá têm quase tudo guardado. Por exemplo, não têm só duas motorizadas em alguns casos chegam a ter 50… Nós não queríamos acreditar… Há mesmo esta cultura! As pessoas fazem questão de ter o seu veículo restaurado porque foi do pai ou do avô e fazem questão de dar uma voltinha com ele no verão.

Nós temos um moral com imensas bicicletas expostas que não estão restauradas, são de muitas marcas daqui da região, e as pessoas chegam lá e dizem-nos sempre que têm uma igual em casa que também não está restaurada, mas que esperam conseguir preservar aquele património.

 G. – O que é que se deveria procurar melhorar a nível nacional para se dignificar mais este setor?

T. M. – Acho que o mesmo que devia ser feito em todo património… As pessoas têm de estar mais informadas, têm de ter mais acesso, etc. Em termos de cultura, a nível nacional, acho que estamos sempre um bocadinho atrás. Há pouco investimento.

Por exemplo, a ideia do Museu foi original porque fizemos um aproveitamento do espaço físico que é o Centro de Alto Rendimento, que é uma pista onde diariamente, semanalmente, treinam seleções de todo o mundo e, portanto, é muito movimentado. O Museu é todo ele à volta da pista, num movimento circular, e é muito frequentado. Dinamizamos isso. Foi uma forma de atrair e criar movimento. Eu acho que é isso que falta. Às vezes há coisas que podemos aliar não é preciso ser de raiz. É preciso, sim, valorizar o que já temos…

Outra coisa que procuramos sempre fazer é reportagens com atletas, com o senhor que restaura as bicicletas, com o senhor que trabalha na fábrica antiga, porque essas pessoas um dia vão desaparecer e este testemunho imaterial também é importante. Acima de tudo, o Museu significa não deixar morrer as memórias da região.

G. – Essas reportagens também são exibidas no espólio documental do Museu?

T. M. – Sim, sim! Estes filmes são constantemente exibidos lá.

G. – Refletindo agora sobre a parte logística, caso as pessoas o queiram visitar de que forma o podem fazer? Possui algum tipo de custo?

T. M. – Não, neste momento, está a funcionar gratuitamente. Têm sim de fazer marcação… Estamos a fazer grupos com dez pessoas devido à pandemia, que mesmo agora com as novas especificações não está muito bem definido quantas pessoas podem estar no interior. Assim sendo, estamos a fazer marcação de visitas de hora a hora. Pode ser efetuada através do telefone, do contacto do Centro do Alto Rendimento, ou do email.

G. – Ao bocado falavas-me acerca do processo de andar de “porta-a-porta” atrás de peças como de histórias… Há alguma destas histórias que te tenha marcado de uma forma particular?

T. M. – Acho que o que mais me fascinou, que eu não sabia, foi a quantidade de atletas famosos que o clube de Sangalhos acolheu e que trouxeram importância para cá. Por exemplo, o grande nome de Alves Barbosa que venceu a volta em 1951 era atleta do Sangalhos Desporto Clube. A família dele cedeu-nos generosamente o espólio durante dois anos. Esse espólio contém a camisola amarela com que ganhou, a bicicleta com a qual percorreu a volta… O contacto com as pessoas vivas que eram praticantes deste desporto para mim até foi o que me despertou mais curiosidade.

O ciclismo, na altura, não tinha o estatuto profissional que tem agora e as pessoas não se dedicavam só aquilo. Antigamente não… As pessoas saíam da terra, iam treinar, voltavam, com vida muito dura, e hoje com 70 anos eu falo com eles, às vezes não me atendem, porque foram fazer ainda uns 100 quilómetros. Eu achei isto fascinante.

G. – Há algo que gostasses de acrescentar?

T. M. – Acho que agora só falta mesmo virem visitar. É um museu diferente… Acho que está interessante a própria dinâmica de ser circular, não o torna cansativo, a seguir a cada curva há sempre uma peça nova e diferente, temos peças restauradas e não restauradas. É um museu com muita luz e cor.

Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia do Museu Duas Rodas