Nos dias 24 e 25 de janeiro Arroios recebe uma pop-up solidária que se desdobra em talks, DJ sets e outras manifestações artísticas. Leonor Bettencourt Loureiro, realizadora e responsável por The Ghost of Future Fashion, lança o repto: começar cada ano mais leve, consciente e com um novo ritual que abale o paradigma de desperdício ainda muito presente.

A ideia surgiu quando Leonor entrou numa loja da zona de Arroios que, por algum motivo, lhe trazia a sensação “de que tinha de entrar lá”. “Quando decidi entrar lembrei-me que podia ser o sítio certo para fazer qualquer coisa à volta da sustentabilidade e da segunda-mão”, explica ao Gerador. Leonor, que recentemente foi distinguida com o prémio de melhor realizadora no Porto Fashion Film Festival, conta que tem estado “num processo” de se “livrar de coisas”, algo que tem notado que “é uma coisa geral, que deve fazer parte do alinhamento mundial”, mas que nem sempre desfazermo-nos daquilo que já não queremos precisa de ter um retorno financeiro.

Foi esse o ponto diferenciador de um evento que pensou com Maria Galvão de Sousa, comunicadora e produtora de moda responsável pelo blog Contemporary Lives Here, que se tem destacado no panorama nacional pelo trabalho de reflexão na sustentabilidade de moda, e com quem naturalmente alinhou pensamentos. No Pandemónio Studio, ao lado de Leonor, Maria relembra que sempre admirou o trabalho da realizadora e que foi a partir de um outro trabalho pessoal que se conheceram. “Não paramos quietas e queremos fazer mais projetos iniciativas, em vez de esperar que a coisa nos caia no colo”, completa Leonor.

A escolha da zona de atuação e da associação com que iam trabalhar foi natural: “Vivo na Almirante de Reis e diariamente sinto-me hipócrita por não poder de alguma maneira ajudar os sem-abrigo que encontro por lá. A associação surgiu no sentido em que queria encaminhar as coisas para o sítio certo, para as mãos certas; andei a fazer uma pesquisa e percebi que a Comunidade Vida e Paz chegava a sem abrigo e refugiados, e que não passava por mais loja nenhuma, não havia mais fonte nenhuma. Pareceu-me o sítio certo”, explica a realizadora.

Para que o evento consiga gerar momentos de debate e consciencialização, Maria preparou duas talks, uma em parceria com a Fashion Revolution Portugal – associação que é também parceira do evento – , sobre Sustentabilidade na indústria da Moda, no domingo às 16h00, e a outra sobre o Case Study dos Anjos70, um espaço que passou de mercado de roupa a pólo criativo, às 18h00, com Catarina Querido, a fundadora. “Quando começamos a falar de sustentabilidade a grande organização é mesmo a Fashion Revolution porque apesar de serem uma organização pequenina cá em Portugal, fazem um trabalho muito pertinente e tinham que ser nossos parceiros”, contextualiza Maria.

Leonor e Maria acreditam que juntos conseguimos fazer melhor. O evento comunitário que prepararam estende-se às talks mas também à participação de artistas de diferentes áreas que tanto podem vender a sua roupa como objetos artísticos criados a pensar na pop-up – do cartaz feito pela Espirro, à montra desenhada por Mafalda Slam, objetos de merchandising de Kruella d’Enfer ou Alex Couto, e DJ sets de King Kami e João Magalhães .  O critério da escolha, tal como toda a organização do evento, prendeu-se com a pertinência do trabalho de cada um e com o facto de, por algum motivo, estarem ligados ao polo criativo que é a zona de Arroios-Anjos.

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Hey kids. Feels great to help others, doesn’t it? Então ya, let’s do it. Pelo menos foi isso que tentei fazer quando aceitei o convite da @leonorbettencourtloureiro e da @mariagdgsousa para ter roupa minha — e cartazes de Nova Lisboa — à venda numa pop-up solidária dia 24 e 25, na Rua Passos Manuel, número 4. A venda das roupas reverte para os sem abrigo da Almirante Reis, no coração do agora bairro mais cool do mundo. A roupa que eu não vender também, já agora. Escrevi este cartaz numa tentativa de gerar awareness para a nossa hipocrisia total, até porque sou uma das pessoas retratadas na frase. Não acho que seja um exclusivo de Nova Lisboa, o que ainda é mais deprimente. Deixo o cartaz oficial do evento nas minhas stories, este cartaz sumarento vai estar lá na montra só para ficarmos com remorsos, à venda vão estar aqueles outros mais irónicos que vocês tanto gostam. Ajudem, ya? 🤷🏼‍♂️

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Alex Couto lançou recentemente Nova Lisboa, um livro de contos que fala da aventura que é viver numa Lisboa em que “sais à rua e o teu vizinho te diz bonjour”

No número 4 da Rua Passos Manuel as portas abrem-se a partir das 15h00 do dia 24 para vender, comprar e pensar sustentável, num gesto de coragem para remar contra a maré dos saldos e das compras pouco conscientes. Leonor diz que “é aquele tipo de questão que depois de saberes não consegues esquecer que sabes”. “Entras numa loja da Inditex e sentes-te mal, e começas a ponderar todas as tuas escolhas. Mas se conseguirmos trazer um bocadinho deste vírus positivo, já conseguimos fazer qualquer coisa.”

A participação com roupas para venda é aberta a quem nela quiser participar e durante os dias 22 e 23, Leonor Bettencourt Loureiro e Maria Galvão Sousa juntam-se a amigos que se voluntariãràm para ajudar a inventariar as peças. A tabela de preços tem apenas cinco valores – 5€, 10€, 15€, 25€ e 50€ – e a seleção funciona “na lógica do bom senso”. “O que não é bom para nós, também não é bom para os outros”, sublinha Leonor. À excepção das peças mais caras, de 25€ ou 50€, o que não for vendido será entregue à associação. E porque em The Ghost of Future Fashion se pensa na sustentabilidade como um todo, a pop-up funciona com uma política de “traz o teu próprio saco”.

Podes ir acompanhando o despontar das novidades do evento até ao dia D através do Facebook, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia cedida por Leonor Bettencourt Loureiro

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