Os The Twist Connection nasceram em 2016, mas os seus membros já conhecem a música muitos antes do que isso. Provenientes de outros projetos musicais anteriores, a banda começou pela mão de Carlos Mendes e Samuel Silva. Sérgio Cardoso entra mais tarde e fecha o trio.

O novo álbum, Is That Real?, lançado no primeiro trimestre do ano, invoca o Rock’n’Roll na cidade portuguesa que mais bem conhece o género: Coimbra. “O futuro é perceber como vamos fazer em relação à nossa droga, que são os palcos”, dizem.

G. – Vocês sempre estiveram ligados à música e fizeram parte de outras bandas antes de formarem este trio. Trouxeram as mesmas sonoridades do vosso passado para os The Twist Connection?

Samuel Silva (S.S.) – Cada um de nós traz consigo uma história e uma forma de abordar os seus instrumentos e a música que, muito provavelmente, se reflete naquilo que fazemos com os The Twist Connection. Não temos dúvidas de que não soamos a nenhuma das bandas que faz parte do nosso passado, mas será impossível – nem há necessidade disso –renegar tudo o que fizemos anteriormente.  

Carlos Mendes (C.M.) – Como é natural. Só que o tempo não para e estamos sempre a descobrir algo de novo que nos faça levar noutras direções ainda que subjacentes àquilo que nos juntou, o Rock´n´Roll. Mas o que não pretendemos mesmo é estarmos a repetir aquilo que já fizemos.

Sérgio Cardoso (S.C.) – Eu diria que não trouxemos as mesmas sonoridades do passado. Mas sem esse passado não construiríamos o presente que é esta banda. Tudo aquilo que vivemos em outras bandas, o que sofremos por elas, o que nos divertimos com elas, o que fizemos por elas, o prazer que tiramos delas, corre agora nas nossas veias como sementes para as sonoridades dos The Twist Connection. 

G. – O nome da banda tem alguma ligação ao vosso tipo de música ou surgiu arbitrariamente?

C.M. – Ainda que tenha ligação estética – à década do movimento associado ao Twist, à dança, às sonoridades – o nome surgiu como um nome de banda falso para entrar nos EUA sem visto profissional. Como tinha feito várias tours pela América sempre sem visto profissional, aconteceu ser detido para interrogatório numa delas. Com medo de ser impedido de entrar na última tour que fiz lá com os Bunnyranch, dei este nome e, como ao pesquisarem no Myspace não encontraram nada, não tive problemas. 

G. – Sobre o novo álbum, Is That Real?, o que é que o ouvinte pode esperar quando ouvir este trabalho?

S.S. – Um álbum de Rock'n'Roll. Coeso e maduro no melhor dos sentidos da palavra: não falamos de conquistar miúdas nem de ir para os copos. É a vida, com os seus desafios e questões que vamos abordando. São as nossas dúvidas existenciais (colocadas em palavras pelo Kaló) que ali estão. E somos nós, com uma sonoridade, que acreditamos ser nossa e cada vez mais nossa.

G. – Qual foi o processo criativo que deu origem a este trabalho? É fácil, enquanto trio, trabalharem em conjunto?

S.S. – Tem sido sempre, nesta banda, relativamente fácil criar. Criamos muito no momento, partindo de uma linha de guitarra ou um riff que surge por ali perdido. O Kaló tem essa capacidade de apanhar algo que lhe capta a atenção e delinear, a partir daí, um caminho para a canção. Cria uma batida, escreve uma letra e a canção vai crescendo. E o Sérgio tem, depois, um papel destacado: introduz sempre pormenores melódicos ou estruturais que fogem ao normativo e que tornam aquele embrião de canção numa canção nossa. Estes são os papéis genéricos. Obviamente que há momentos em que as coisas surgem de maneira ligeiramente diferente, sendo o Kaló a trazer a primeira batida ou o Sérgio a introduzir uma linha de baixo, seguindo depois a canção outros caminhos. Algumas das nossas canções são iniciadas e terminadas (estrutura e melodia principais) num ensaio. Outras levam mais algum tempo a amadurecer mas, habitualmente, funcionamos bem em conjunto e conseguimos criar com relativa facilidade.     

G. – Os verdes anos do Rock‘n’Roll já aconteceram ou sentem que não existem períodos áureos para os diversos tipos de música?

S.S. – Desde logo, a música pop, usando um termo mais abrangente, não tem, nos dias que correm, a relevância cultural que já teve, acredito eu. Já não vemos a música e os músicos de braço dado com grandes movimentos sociais, como observámos noutros momentos da nossa história recente. E o Rock'n'Roll, centrando aí a resposta, é cada vez mais, parece-me, um fenómeno de nicho, que parece ter, nalguns momentos, dificuldade na renovação do seu público. Ainda assim, somos gente de fé e acreditamos na sua relevância... Ou isso ou não sabemos fazer e viver de outra forma.

C.M. – Existem vários períodos monumentais, mas será sempre uma perspetiva pessoal de cada um. Esperemos que o melhor esteja para vir.

S.C. – Obviamente que, cronologicamente falando, podemos admitir que existiu um tempo onde foi dado o murro do Rock‘n’Roll. Mas os períodos áureos estão dentro de nós. Nunca vos aconteceu numa determinada altura da vida vibrarem com um género musical que já passou? Ou com um artista que já não existe?

G. – Coimbra sempre teve uma ligação especial ao Rock‘n’Roll. Sentem especial pressão por isso ou é um privilégio?


S.S. – Eu, como sou um pouco mais novo do que o Sérgio e o Kaló, vejo-o como um privilégio. Poderia perder tempo a desmontar essa relação Coimbra e Rock'n'Roll, mas é importante dizer que crescer como músico tendo a possibilidade de ver de perto o que os Bunnyranch ou os WrayGunn – entre muitos outros, claro – faziam, foi uma tremenda sorte e uma inspiração profunda. 

C.M. – Sem pressão nenhuma: é um privilégio poder continuar a fazer música, independentemente da cidade.

G. – Que artistas podem ser apontados como as vossas maiores influências? 

S.S. – Essa não é uma questão fácil. Em primeiro lugar, porque somos três pessoas com algumas influências díspares e outras tantas que nos aproximam. Em segundo lugar, porque acreditamos ter uma sonoridade própria, idiossincrática. Somos, no entanto e obviamente, permeáveis a várias influências e, se tiver que nomear algumas bandas que, de forma mais direta (porque outros músicos não terão uma influência tão direta naquilo que faço nos The Twist Connection) hão de chegar àquilo que aqui faço, apontarei os Rolling Stones, os  Make-Up, os Blues Explosion ou os Stooges.  

C.M. – Acrescento nomes como o Johny Burnette, The Small Faces, The Cramps, Speedball Baby, The Sound, Nick Lowe... 

S.C. – Pessoalmente, em todas as décadas tenho sempre referências: Chuck Berry, David Bowie, Jimi Hendrix, Neil Young, Ramones, Clash, The Birthday Party, Gun Club... Para acabar estes nomes, os Mão Morta.

G. – Lançaram agora um novo álbum. Já estão a pensar no futuro?

S.C. – Para já, o futuro é perceber como vamos fazer em relação à nossa droga, que são os palcos. É aí que nos sentimos em casa e é aí que devíamos estar, como toda a gente hoje em dia.

S.S. – Sempre. Há que pensar sempre nas próximas canções, nos próximos álbuns, nos próximos concertos. Há uma insatisfação permanente que nos mobiliza e que nos empurra: as próximas canções, álbuns e concertos têm que ser melhores, muito melhores. Há novas sonoridades para explorar. Mais influências musicais, artísticas e não só para absorver. Se assim não fosse, com tanto caminho percorrido e tanta coisa já feita (ainda mais o Kaló e o Sérgio), não estaríamos aqui juntos nos The Twist Connection... Estávamos a viver do passado e do que já foi feito. Mas isto é a nossa vida, a nossa forma de viver e, por isso, não podendo estar parados, há que olhar em frente. Sempre.  

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia cedida pela banda

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