There Is No Alternative (T.I.N.A.) é uma expressão que ficou bem conhecida em duas ocasiões recentes da nossa história. Uma no final do século passado, outra na crise de há cerca de 10 anos atrás.

Diz o mito urbano que foi Margaret Thatcher que cunhou esta frase com a ambição de sublinhar que não existe alternativa ao capitalismo. Serviu de mantra para o partido conservador britânico e inspirou toda a dinâmica neoliberal que se instalou pelo mundo fora.

Já no século XXI, a TINA volta a fixar-se nos discursos e nos autos de quem promovia a rigidez da austeridade. Só havia um caminho: cortar nos investimentos públicos, poupar nas despesas, conter a dívida.

A luta histórica entre Keynes e Hayek parecia, finalmente, decidida. Os mercados ganhavam a exigida liberdade requisitada por Hayek, os reguladores perdiam relevância e o Estado contraía-se.

Por volta de 2016, no entanto, há nova reviravolta nesta novela recheada de temporadas. Afinal a austeridade foi demasiada, não criou sistemas de recuperação da economia, deixou de rastos quem já estava de joelhos e, acima de tudo, amplificou a desigualdade no ocidente.

Ainda que muito timidamente, o Estado volta a fazer investimentos, devolve parte do dinheiro às pessoas e faz a economia crescer. Portugal é citado, aliás, como exemplo deste novo rumo.

Afinal havia alternativa e conclui-se que compensa investir agora para colher os frutos no futuro. O fim da sobretaxa, o aumento do salário mínimo, a diminuição do IVA na restauração, por exemplo, promoveram o emprego e o consumo e, por consequência, uma capacidade de angariar mais dinheiro através dos impostos. Algo que seria um custo transformou-se em proveito.

Ora, é sobre esta vontade de investir no futuro que vos quero falar. Aplicado, naturalmente, ao que nos traz a estas páginas: a cultura.

A política de investimento na cultura tem a mesma lógica desde sempre. Ela é pensada como um custo, como uma despesa. Nunca como um investimento que vai trazer retorno a prazo. Até financeiro.

Os apoios públicos, a nível nacional, regional ou local, estão orientados para ajudar projectos que assegurem o cumprimento do que a constituição estabelece: o direito à criação e fruição cultural. E pronto.

Ficamos, por isso, focados numa conversa errada. Em vez de sermos capazes de pôr em causa a forma de investir na cultura, de repensar os dogmas, debatemo-nos, antes, com ganhar mais umas décimas, com tentar o 1%. Temos que alterar o paradigma de investimento. Temos de encontrar uma alternativa.

Não há dúvida da importância da fruição cultural. É imprescindível numa sociedade livre e moderna. Mas pensar num orçamento para a política cultural deve ter em conta a consequência que a cultura e as artes desempenham a médio e longo prazo. Algo a que chamarei aqui, de forma algo simplista, admito, de cultura para a cidadania.

A cultura para a cidadania é a forma como a cultura contribui para tornar os cidadãos mais informados, mais participativos e mais criativos. Algo genericamente aceite pelos decisores políticos, independentemente das cores que ostentam ao peito.

Mas não são só os decisores que têm esta opinião. Os portugueses estão bem conscientes das repercussões positivas da cultura nas suas vidas. Vejam estes dados retirados do Barómetro Gerador Qmetrics 2020:

– 70% acredita que a cultura tem um papel educativo;

– 60% afirma que cultura é mais importante agora neste período de pandemia do que antes, porque ajuda a interpretar melhor circunstâncias actuais;

– numa escala de 1 a 10, os portugueses dão a classificação elevada de 7,7 à questão: considera que a cultura ajuda as pessoas a resolver problemas pessoais e profissionais de forma criativa?

É claro para a população portuguesa, mesmo para aquela que não consome habitualmente cultura, muitas vezes por existirem barreiras de acesso ou financeiras, que esta dimensão tem um lugar importante no seu dia-a-dia.

Será razoável, então, dizer que investir em cidadãos mais informados pode diminuir outro tipo de custos? Poderão diminuir perdas associadas a acidentes de automóvel, à violência doméstica, a doenças ligadas aos excessos alimentares, ao engodo das fake news?

Será pertinente, então, afirmar que investir em cidadãos mais participativos pode tornar a sociedade melhor? Poderá reduzir o surgimento de forças políticas populistas, aumentar o respeito pela diversidade e pelos outros e estimular o pensamento sustentável?

Será relevante, então, referir que investir em cidadãos mais criativos pode fazer crescer a economia no futuro? Poderá a próxima geração de gestores ser mais produtiva, poderão os portugueses ser mais competitivos na cena internacional, poderemos descobrir avanços científicos importantes? 

A cultura é um instrumento de valorização económica de um país, pelo papel transformador único que tem no seu principal activo: as pessoas.

Está na hora de estilhaçar o conceito actual de investimento cultural e partir para a alternativa assente no futuro. Quanto vale o futuro de um país?

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Começou a trabalhar aos 22 anos na Telecel e, pouco depois da mudança de marca para Vodafone, resolveu ir fazer estragos iguais para a PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca. Hoje é o Presidente da Direção do Gerador, a plataforma que leva a cultura portuguesa a todos.

Fotografia de David Cachopo