Os They Must Be Crazy (TMBC) “nasceram graças à vontade do Yuri Antunes (trombonista) e do Zé Cruz (trompetista) formarem uma banda de afrobeat”, começam por contar. A banda ganhou forma em 2013, em Sines, “após um concerto marcante de Ebo Taylor, figura emblemática do afrobeat”. O grupo iniciou-se com 16 elementos, número que agora está reduzido a 12. 

O ano de 2017 marcou o lançamento do primeiro disco, Mother Nature​. Agora, é tempo de apresentar o novo trabalho, editado este ano: o single ​Expensive Water (Mati Yakataika) conta com a colaboração da artista Selma Uamusse e pretende consciencializar para a importância da água no mundo.

Em entrevista, os TMBC falam da nova canção, da dinâmica do processo criativo, da importância da música de intervenção e da representatividade africana na indústria musical. Para o futuro, deixam o alerta: “Estaremos aqui para criar mais pontes culturais que façam sentido, servir e intervir no sentido daquilo que urge ressalvar e remediar, e, acima de tudo, continuarmos a desfrutar da música que fazemos”.

Gerador (G.) – Falemos de música. Lançaram o single Expensive Water (Mati Yakataika) no final de março, com a colaboração da artista Selma Uamusse. A música serve também para sensibilizar para a importância da água. Porquê esta música agora e com a colaboração da Selma? 

TMBC. – Na realidade há uma história que nos levou a esta música. Na noite de tributo a Fela Kuti, ocorreu um cancelamento de última hora devido ao corte acidental no abastecimento de água por causa de umas obras na rua do B.leza, onde decorria a nossa residência mensal a que chamávamos de “Lisboa Shrine”. Estávamos a uma hora de começar o concerto, com mais de 400 reservas feitas e, mesmo assim, não tivemos outra alternativa senão adiar o concerto. Nessa noite, sentimos todos na pele o quanto um bem essencial pode ser tão caro, quando o tomamos por garantido. Nessa mesma noite tínhamos imensos temas do Fela para tocar, entre os quais o Expensive Shit e o Water Get No Enemy, e surgiu de repente na cabeça do Edgar a ideia de fazer um tema chamado “Expensive Water”, para nos lembrar para sempre desta lição. Começámos logo a ter ideias ainda dentro do B.leza, e percebemos que encaixaria num tema instrumental do Rui em que já vínhamos a trabalhar. Então, na manhã seguinte, rumámos logo à sala de ensaios, cheios de ganas para, de alguma forma, transformarmos uma situação catastrófica em algo positivo. E pelos vistos conseguimos! Entretanto o tributo ao Fela acabou por acontecer um mês depois e acabámos por incluir ainda mais temas, ainda mais convidados, e ter ainda mais gente, numa noite ao barrote do mais épico que a banda já viveu! Dos vários convidados envolvidos tanto na noite adiada como na que aconteceu, já fazia parte a Selma Uamusse, e quando o tema começou a ganhar forma foi a primeira pessoa que nos veio à mente, por já vir a trabalhar o elemento água (​Mati é o nome do seu último disco e significa água no dialeto moçambicano changana), além de ter sido uma autêntica embaixadora na resposta às recentes cheias em Moçambique. A Selma é, além de uma artista estrondosa, um ser humano de mais alto valor, é uma enorme honra ela ter aceitado o nosso convite e termos tido a oportunidade de cocriar juntos este “Expensive Water (Mati Yakataika)”.​

Videoclipe do novo single da banda

G. – Muitos artistas utilizam a música como arma de intervenção. Sentem que também foi esse o vosso papel com este novo single

TMBC. – Sim, este tema foi composto com a clara intenção de intervenção. E, nesse sentido, marca uma nova fase da banda, em que queremos colocar o poder da música que fazemos ainda mais ao serviço das causas que urgem ser chamadas à atenção. O afrobeat já é tão impactante musicalmente que já consideramos que, só por si, intervém a nível corporal e até espiritual, o que representa um ato cada vez mais político nos dias que correm, especialmente para a cultura ocidental. Essa intenção de provocar as pessoas a dançar freneticamente, até entrarem em estados de êxtase ou transe, está presente na nossa música tal como na base da criação do afrobeat do Fela. Tanto que talvez a frase mais célebre do Fela seja o clássico “Music is the Weapon!” E a mesma, é inseparável da intenção de intervir ao nível também lírico, mexendo com o mental ao mesmo tempo que o corpo e o espírito já estão a ser remexidos. No entanto, a nível lírico, nós não estamos aqui para lutar pelas mesmas coisas que o Fela. Há algumas que até podem ser comuns, mas o contexto espacial e temporal é outro. Por exemplo, no nosso contexto, as várias problemáticas que se relacionam com a preservação da água é, sem dúvida, dos assuntos mais alarmantes a colocar em cima da mesa. Vai desde os efeitos colaterais de todo o tipo de hábitos e consumos que fazemos, ao próprio descuidado com as águas internas de cada um. Não é em vão que a água compõe dois terços do nosso organismo e constitui na mesma proporção o planeta que habitamos. Está tudo ligado. E estamos todos ligados, até porque foi nela que a vida começou. Então, a mesma água que não estamos a saber cuidar dentro de nós é a que está em desequilíbrio no ciclo planetário. As águas são as emoções, são elas que respondem de imediato à vibração básica. E nós não estamos a saber lidar nem cuidar delas. Estamos cheios de emoções plastificadas, de verdades pouco transparentes, de corpos poluídos e canais espirituais entupidos, que não nos permitem fluir em liberdade e abundância, como deveria acontecer num ciclo natural. 

Visto deste prisma, é exatamente assim que as águas do planeta se encontram. Então, é como dizer que precisamos de voltar a chorar pelas coisas que realmente merecem atenção e deixarmos de nos derreter pelas que não merecem. E não esquecermos que a água terá sempre a audácia, perseverança e paciência para, mais tarde ou mais cedo, rebentar com qualquer sistema que a queira conter ou controlar. 

G. – A música dos They Must Be Crazy caracteriza-se pelos ritmos africanos. Sentem que faz falta uma maior representatividade africana na indústria nacional? 

TMBC. – Sentimos que em Portugal a música com nítidas raízes ou influências africanas está num momento de saudável crescimento. São várias as pontes e fontes que nos têm vindo a tornar como um ponto de encontro significativo a nível internacional dessa abrangente diáspora cultural africana. Principalmente na música que já se mistura muito com a eletrónica, do hip-hop à música de dança, há muito a acontecer por aí e com bastante visibilidade. No entanto, se nos perguntarem se sentimos falta de mais bandas a tocar música africana, isso sim. Elas existem, claro. Mas por exemplo, no caso do afrobeat, de momento, para além de nós, existem apenas os já míticos Cacique ’97, os nossos amigos Carapaus Afrobeat, os e os recém-chegados Afro Groove Collective. Também, se nos perguntarem se para lá da indústria sentimos que faz mais falta música africana, em regra geral nunca é de mais. No contexto ocidental moderno e tecnológico continuamos muito tempo fechados na cabeça, então o contacto com a visceralidade africana pode estabelecer um importante ponto de equilíbrio no sentido de trazer-nos mais para o corpo e para o espírito. 

G. – Em comunicado, referem que com esta pandemia, “ou fazemos por evoluir juntos pela autorregeneração dos nossos ecossistemas ou continuaremos a aprender cada vez de formas mais duras, cada vez mais caras”. Tendo em conta que o vosso primeiro álbum se chamava Mother Nature, sentem que a natureza é o vosso ponto de partida para fazer música? 

TMBC. – Na verdade, a natureza é algo que nos une a todos como seres. Nós, seres humanos, precisamos de nos relembrar que somos parte da natureza e não algo dissociado. Esse é um aspeto que urge ser relembrado, sensibilizar as pessoas a terem uma melhor consciência de como habitar este planeta, respeitando e amando-se mais a si mesmas, aos outros humanos, às outras espécies animais, vegetais, minerais, ou às águas que a todas servem. No fundo, relembrar o milagre e a festa que é a vida, e a honra que é sermos conscientes de que fazemos parte dela. Que vai muito para lá da curta noção temporal que temos. É preciso relembrar e agradecer a todas as formas de vida que nos trouxeram até ao que hoje somos, e no que ela se irá tornar dependendo do que agora fizermos. 

E é aí que falamos da ideia de autorregeneração. Que é uma ideia que já vai para lá da própria ideia de sustentabilidade, que toma como objetivo o sustento, que não deixa de ser algo com uma visão de curto prazo, e que esquece as gerações que ainda estão por vir. Precisamos de começar a pensar, não só como fazemos coisas para serem sustentáveis, mas para se autorregenerarem, para lá de nós, em todo o tipo de sistemas. Vai desde plantarmos florestas com bases no conhecimento da permacultura que lhes permitam continuarem a crescer por elas próprias, sem necessidade de ação humana. A deixarmos as novas crianças virem ser aquilo que vêm cá para querer ser, acreditando que as almas delas sabem bem porque vieram aqui nascer. Tal como nós, músicos, viemos aqui para fazer música porque é o que nos é natural, mesmo que já muito tenhamos de ter batalhado para o sermos, porque crescemos numa sociedade a dizer-nos para sermos outras coisas. 

Entender humildemente a natureza é estarmos ao serviço da alquimia da vida, para que ela possa engendrar pelo seu mais natural caminho mesmo que um dia nós tenhamos acabado como espécie ou falecido como progenitores. Parte de uma generosidade e de um amor para com a Natureza ​que para muitos humanos ainda está longe e difícil de compreender. Continuamos a ser muito controlados pelas fomes de poder e pelos medos dos instintos de sobrevivência, tanto os nossos quanto os alheios. E é por isso que a gente firma: “​They Must Be Crazy!”

Então, sim, é importante para nós ajudarmos na compreensão destas e de outras dimensões sobre o que é a natureza. É esse o ponto de partida e de chegada da nossa música. 

G. – Na vossa opinião, a questão da lusofonia, que ainda junta Portugal com outros países, tem de ser vista também como um elo de ligação entre os territórios que partilham a mesma língua? 

TMBC. – É certo que as ligações entre os países lusófonos já existem há tempo suficiente para terem criado memórias que nem tão cedo quebrem essas relações. No entanto, elas deverão representar um elo enquanto for uma verdadeira vontade entre todas as partes. Até porque a questão se torna delicada quando de um lado temos a formação da língua portuguesa em Portugal, originada por uma sequência de acontecimentos que a tornaram muito mais natural de ser falada no seu território. Mas do lado da restante comunidade de países de língua oficial portuguesa, ela foi imposta através de processos de colonização que na sua maioria recorreram à violência e à submissão dos povos indígenas que já habitavam esses territórios. É que aqui, por mais que desde o Estado Novo se insista em ensinar nas escolas que fomos “bons colonizadores”, a verdade é que nunca existiram nem virão a existir bons colonizadores. Alimentamos um grave mito da excecionalidade do nosso colonialismo até aos dias que correm, quando a colonização deve ser vista como um crime contra a humanidade, sem exceções. E o mais triste é que ela continua a acontecer em muitos sítios no mundo, disfarçada das mais diversas formas. 

Então, tendo isto em conta, talvez seja pertinente questionarmos qual é a real vontade da parte dos povos dos países que outrora foram colonizados, em manter esse elo. Será que uma pessoa que seja, por exemplo, falante a tempo inteiro num dialeto regional moçambicano e nunca teve contacto com o português acha justo tomar o português como língua oficial na escola? Talvez não, até porque talvez prefira e deva continuar a comunicar na língua local dos seus ancestros, que terá nos seus elementos sagrados resultado de um processo natural de criação. Afinal, quais são os fatores naturais para lá da colonização que conduzem essa pessoa a falar português? E se realmente é uma relação de elo e de troca, então porque não aprendemos aqui essas outras línguas da lusofonia nas nossas escolas? 

Falando nisso, por acaso, por opção estética e de expansão de uma mensagem de urgência global, o “Expensive Water” foi escrito em inglês. Mas aproveitando a presença da Selma no processo, quisemos incluir um provérbio num idioma bantu moçambicano.​“Mati Yakataika, Si Ungayawolere” é um provérbio em língua nyungwe, que significa que a “água derramada não se volta a apanhar”. Tem duplo sentido ao existir nesta música: pela preservação do que é sagrado e se esgota, e pelo aceitar e perdoar os erros do passado com a profundidade que nos permita agir com força revigorada no futuro. 

Curiosamente este provérbio pode responder a esta mesma questão. Ele pode também querer dizer que mais que nunca é realmente importante preservar aquilo que é essencial na vivência de uma comunidade local, de um país, de uma cultura, ou uma língua, antes que os processos de poder político se sobreponham à memória desses elementos que definem o que se mantém como sagrado. Sobre os elos históricos, nomeadamente os que envolvem processos de colonização e do ponto de vista dos ex-colonizadores, é preciso saber olhar para eles com mais honestidade, mais responsabilidade e perante as evidências saber pedir perdão. Para depois renegociarmos esses elos e relações de um sítio que volte a ser justo e grato, e nos ajude a não voltarmos a cair nos erros do passado. 

G. – A banda é composta por 12 elementos. É fácil gerir um grupo com tanta gente? 

TMBC. – Fácil, não é. Mas para ser fácil temos várias outras formas de fazer música. Aqui o que nos interessa é que queremos fazer afrobeat, e ele depende da força do coletivo e de um grupo considerável de elementos, para que exista uma entrega na distribuição de cada elemento com a função que lhe é dada. Por vezes, essa função é um padrão rítmico igual do início ao fim da música durante quinze minutos. É preciso certificar que há uma pessoa ali só a garantir que aquilo não falha. Claro que poderíamos colocar uma máquina, mas aí faltaria a presença de espírito que um músico emana durante essa entrega, seja no tocar subtil de uma clave ou no soprar dum metal à força toda. Acreditamos que só assim se cria a real força do afrobeat com todos os elementos musicais que o definem e que só assim ele provoca no público as sensações que o caracterizam, e é a isso que nos queremos manter fiéis desde o início da banda até ao dia em que ela deixar de fazer sentido. E por enquanto, continua a fazer todo o sentido. Ainda que existam sempre os conflitos, as discordâncias, a maior probabilidade de dissonância. Mas isso prepara-nos para vida, a vida não é fácil. Temos aprendido muito uns com os outros sobre a vida. Por exemplo, como num grupo numeroso as formas de organizar a comunicação interna ou as estruturas políticas podem fazer toda a diferença. Ou como o real compromisso e respeito ou a pura dedicação de cada indivíduo se reflete sempre no coletivo. Ou como dar prioridade às relações de amizade entre a banda pode ser o que catapulta a criatividade para outros níveis mais potencializadores do que quando ficamos só dentro da mente, focados nas ideias só porque nos parecem ser mais lógicas. 

G. – Que balanço fazem dos últimos anos enquanto banda e que expectativas existem para o futuro? 

TMBC. – Os primeiros anos de banda são sempre uma espécie de zona de rebentação, que exige muita perseverança até chegarmos a uma zona mais estável. Há muito trabalho ao redor da criação do público, e de todo o espaço no mercado que precisamos de conquistar para podermos tocar para ele, até porque uma banda da nossa dimensão requer logísticas e investimento proporcionalmente adequados para podermos tocar a nossa música com as condições que ela merece. Cada vez têm vindo a ser mais e melhores, felizmente muito graças ao público que continua a encher os sítios por onde passamos e também às pessoas que dentro do meio têm acreditado na nossa valência e nos têm convidado e programado. Com o primeiro disco, passámos por festivais como ​Boom Festival,​ ​Lisboa Mistura,​ ​FNAC Live​, Materiais Diversos​, e ainda fomos a banda do ​“100% Lisboa” ​da ​Rimini Protokoll, o espetáculo mais visto de sempre na Culturgest. Criámos ainda a nossa própria residência, a que chamámos de ​“Lisboa Shrine”​ no B.leza, ao longo do ano passado, com imensa afluência e um real espírito de afrobeat. Só destes concertos, fora os muitos outros, já temos memórias inesquecíveis que levaremos para sempre connosco! 

Neste momento de lançamento do novo single, estamos irradiados com o ​feedback geral que nos tem chegado, dos quatro cantos do mundo. Desde as milhares de interações nas nossas redes de Facebook e Instagram, que dispararam em relação aos números de antes, à imediata entrada do tema para ​playlists de várias rádios locais, nacionais e internacionais, é um momento de satisfação total e gratidão pelo que nos trouxe até aqui. Ao mesmo tempo, o mundo está realmente numa fase tão louca e impermanente, que parece difícil determinar como e em que condições podemos continuar a fazer a nossa música daqui a diante. Esta situação da quarentena está a obrigar-nos a vermos serem cancelados ou adiados os vários concertos que já tínhamos agendado para esta temporadae e preocupa-nos imenso saber como será o mundo e consequentemente a nossa posição nele no pós-pandemia. 

Então, para já, em primeiro lugar e sem grandes expectativas, gostaríamos de poder continuar a fazer música como até então, sem que tenha de se tornar numa tremenda complicação podermos tocar num palco para um público que possa assistir descontraidamente à nossa música. Independentemente desse futuro das artes do espetáculo que toca a todos os artistas e profissionais, continuaremos a compor as músicas que vão dar forma ao segundo disco, e esperamos que elas possam continuar a mexer com as pessoas tanto ou mais do que este último single, e que a qualidade e poder da nossa música possa continuar a colocar Lisboa em destaque no mapa do afrobeat internacional. Estaremos aqui para criar mais pontes culturais que façam sentido, servir e intervir no sentido daquilo que urge ressalvar e remediar, e, acima de tudo, continuarmos a desfrutar da música que fazemos. 

Texto de Gabriel Ribeiro
Fotografia cedida pela banda

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