Entrar para a escola é algo com que, quando somos crianças, sonhamos muito. De tanto ouvir falar, não vemos a hora de começar a vida de estudante, aprender, conviver, e sonhar com as portas que a vida de ensino nos podem abrir.
Mas continuar por lá é algo que nem todos fazemos, ou vemos como solução. No texto de hoje quero tocar num assunto em que antes não pensava, mas em que ultimamente tenho pensado muito, que é a escola, faculdade e, por fim, a licenciatura.
Num bairro social, neste caso falo do meu, acho que se puxar pela cabeça, mesmo tendo um dia para pensar, não consigo encontrar seis amigos meus que tenham terminado uma licenciatura, e se pensar na minha família, chego à mesma conclusão.
Com isto, comecei nas minhas pesquisas e, falando com algumas pessoas, constatei que é uma realidade presente em muitas vidas. Estranho, não é?!
No meu caso, nunca houve um grande incentivo para estudar ou sequer pensar em tirar um curso superior, nem dos meus pais nem dos meus tios ou de algum primo ou prima, nada mesmo. Será pelo facto de não termos exemplos próximos, será pelo esforço financeiro que é feito?

Talvez tendo um licenciado na família ajudasse, crescermos com exemplos na família, ser incentivados. No meu meio o mais importante sempre foi trabalhar, independentemente do trabalho, o importante é trazer aquele dinheiro certinho para casa todos os meses, e se abandonares a escola aos 17 para ir trabalhar nas obras, era como se estivesses aceitar o teu destino desde cedo. Na altura, não via com maus olhos essa situação, hoje em dia pergunto-me como é que a minha mãe não me deu na cabeça e me obrigou a ficar na escola.
Não quer isto dizer que eu fosse ser um médico ou um arquiteto, mas as coisas seriam diferentes. A minha esposa é licenciada em Direito e vivi de perto todos os anos na faculdade, as tradições, os eventos e a forma como tudo termina, e era uma realidade que não conhecia e de que gostei muito.
Uma vez fui convidado por um empresário português a ir conhecer o seu escritório e conversámos um bocado. É um desses empresários que vai à Web Summit e investe em várias ideias, um daqueles que anda com relógios de 30 mil euros. Ao falarmos sobre o meu percurso, achei importante dizer que, apesar de não ter muitos estudos, voltar para a faculdade era algo que eu gostaria muito de fazer, não é que tivesse nos meus planos, mas achei que me iria dar alguma credibilidade, mas o que aconteceu foi o contrário e foi bastante engraçado — ele começou a rir muito alto como se eu tivesse dito uma asneira, e disse: “ Varela, quem estuda, trabalha para homens como nós os dois”. Na altura, fiquei com aquela cara de “hum tens razão, sim senhora”, mas bah não concordo, uma licenciatura é uma licenciatura, e o orgulho que dás aos teus pais não tem preço, quem sabe lá para 2030 não me inscrevo para me licenciar em…..

PRATICA(MENTE)

Esta semana um dos melhores álbuns de rap faz 14 anos, dezembro de 2006, no mês anterior eu tinha sido pai, dois grandes momentos. 2006 foi, de facto, um grande ano. Quero falar um pouco sobre este álbum por duas razões, há muita coisa de que poderia falar, como algumas das músicas presentes e que, para mim, marcaram uma certa mudança no panorama nacional, ou o facto de termos presentes o falecido Snake e o falecido Barbosa.
Mas gostaria de tocar, desta vez, só em dois pontos. Um deles, a excelente ideia que o Sam teve para a criação da capa, uma montagem com várias fotografias com muitas pessoas. Nunca cheguei a perguntar ao Sam como foi feita essa seleção, mas é algo que me orgulha muito fazer parte. Sendo para muitos fãs desta cultura, e não só, o melhor álbum de rap feito em Portugal, facilmente me encontram a dar esse flex. “Yo, sabias que eu estou nessa capa?” Agora, no dia do aniversário do álbum, foi muito bonito ver as pessoas a darem os parabéns ao Sam The Kid e a destacar a sua foto na capa do álbum, vi várias pelas redes sociais. Recordo-me muito bem de irmos ao quarto mágico e, na hora de irmos embora, o Sam costumava acompanhar-nos até ao metro e tirarmos a foto, numa daquelas máquinas que tiram as fotos tipo passe. Porra, mas que boa ideia, o álbum é de 2006, mas eu devo ter tirado a foto por volta de 2001/2002.
Outro ponto que gostaria de abordar — eu penso que já falei isto com o Sam assim por alto, mas vou contar aqui em primeira mão — que é o videoclipe da música negociantes, a 7ª música do álbum que conta com a participação do meu grande amigo Snake OG e do SP. Fui convidado pelo Snake a participar no videoclipe, algo que me deixou muito contente. Sendo eu um grande doente por tudo o que envolve hip hop, participar num videoclipe era algo que fazia todo o sentido. Fui cortar o cabelo, sempre aquele cenário a Nas e Az e comprei um outfit daqueles mesmo para impressionar. O Snake perguntou se podia ir com outro amigo meu da Zona J, o Tino Gato. Nesse dia sentia-me uma estrela, então andámos como estrelas, apanhei um táxi, e fui buscar o Tino e depois fomos para a localização do vídeo. Chegando lá, foi só seguir as ordens do realizador e fizemos vários planos, correu tudo bem, foi excelente e agora era ir para casa e aguardar o grande lançamento do videoclipe. Escusado será dizer que andei a espalhar para meio mundo que ia aparecer no novo vídeo do Sam The Kid, então digamos que devia ter umas 100 pessoas a espera desse grande momento.
O videoclipe saiu e o que aconteceu? Eu não entrei, isso mesmo, nem um segundo, nem meio segundo, nem um cotovelo, nem a minha sombra. Confesso que na altura fiquei bem chateado, não me recordo muito bem, mas acho que o Snake ficou assim, digamos, um bocado sem saber o que me dizer na altura, mas é algo mais que compreensível. Hoje em dia que trabalho diretamente com a área, sei como as coisas funcionam, mas digamos que, na altura, custou um bocadinho de nada, mas depois passou, ah mas o meu amigo Tino Gato entrou. rsrsrsrsrs

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
gerador-gargantas-soltas-nuno-varela