Natural de Coimbra, Tiago Bettencourt assume-se como um mau contador de histórias. No entanto, este aspeto nunca o condicionou na carreira musical, que conta já com mais de dez anos de existência, enquanto cantor e compositor.

O término de 2020, para o artista, foi sinónimo da chegada de um novo álbum “2019 Rumo ao Eclipse”. Segundo Tiago Bettencourt o álbum fala sobre a guerra, sobre a crise de valores que tem vindo a invadir a humanidade. Ainda assim, nem tudo são aspetos negativos. O álbum assume-se, igualmente, como uma “luz”, sob uma ideia de liberdade, ligada à imaginação, e à criatividade. Para tal, é apenas necessária “disponibilidade” para o escutar.

Em entrevista ao Gerador, Tiago Bettencourt refletiu acerca do novo álbum, da sociedade, da invasão das redes sociais, do passado, e do que ambiciona, ainda, alcançar enquanto artista.

Gerador (G.) – O teu novo álbum chama-se “2019 Rumo ao Eclipse”. No entanto o lançamento só ocorreu no ano de 2020. Não achas um pouco contraditório o álbum ser lançado em 2020 e o título remeter para 2019? Por curiosidade, porquê rumo ao eclipse?

Tiago Bettencourt (T.B) – Sim! Eu gostei muito dessa ideia de o álbum nascer retro, nascer já vintage, sobre um ano que já tinha passado. O álbum era para sair em março, abril, de 2020, e já com o nome de 2019. Acabou por sair no final de 2020 porque achei que já não fazia sentido em 2021, chamando-se 2019, então consegui que saísse agora no final de 2020. No fundo chama-se 2019 porque fala sobre esse ano, que foi por si um ano estranho. Acho que por causa do ano, 2020, ter sido, ainda, mais impactante as pessoas não têm noção de que várias coisas que aconteceram em 2020, em termos de reação humanas e políticas, já se tinham vindo a anunciar no ano de 2019 e um bocadinho antes. Por isso, o álbum fala muito sobre essa guerra, sobre essa crise, de valores que acho que tem vindo a invadir a humanidade.

E, “Rumo ao Eclipse” porque o eclipse tem uma simbologia de renovação. Eu tenho uma amiga minha que me disse que ia haver um eclipse em dezembro de 2019, que ia fazer 1000 anos, achei bonita essa ideia. Achei bonita a ideia de uma caminhada até ao eclipse.

(G.) –  O álbum é composto por 12 temas, todos da tua autoria e produção. “2019 Rumo ao Eclipse” é um álbum que, segundo um comunicado da editora, “fala de movimentos que se passaram em 2019”. Podes explicar um pouco mais que movimentos são estes?

(T.B) – Depende muito das músicas… Por exemplo o “Fêmea” fala muito sobre o feminismo, a maneira como o feminismo veio à ribalta. Fala do feminismo de uma maneira que gosto de pensar nele que é a não deixar que a mulher deixe de ser aquilo que é. Eu quero continuar a respeitar as mulheres, trato-as com reverência. Eu trato disso, e às vezes parece que quando se fala de feminismo parece que se confunde um bocado as coisas. Eu acho bonito a mulher estar ali acima do nível do homem.

Canções como “Não queiras mais de mim” ou o “Fachada” fala sobre uma ganância desmedida, que eu acho que também tem acontecido nas várias áreas, tanto na música, como na política, como no jornalismo. As pessoas começaram a passar por cima uma das outras. A não terem vergonha na cara de fazer isso. A deixar os amigos para trás. São coisas que têm vindo a acontecer de maneira mais agressiva. Acho que as pessoas se desprenderam de um lado espiritual que as fazia ter consciência do próximo, do seu lado mais humano. Há uma ganância enorme em chegar a um sítio de sucesso para depois postar no instagram. Isso é um esvaziar da sociedade que não parou.

Acho que quando começou o confinamento as pessoas pensavam que isto ia tudo mudar, que as pessoas iam olhar mais para dentro, e acho que, ainda, piorou. As pessoas ficaram mais agarradas às redes sociais, o tik tok é uma coisa estranhíssima. Mas, é estranho o que as pessoas vivem nas redes sociais. De manhã à noite vivem para os likes é uma coisa mesmo estranha. Anda toda a gente a viver uma vida que não é real.

Mas, apesar deste meu lado pessimista, o álbum também fala de coisas bonitas. Eu não gosto de fazer álbuns só negros. Gosto de fazer álbuns que passam por uma profundidade que as pessoas não estão habituadas a pesquisar.E, depois através dessa profundidade cheguem a um sítio de luz. Então, também fala desse sítio de luz que é mais a segunda parte do álbum. Fala sobre uma ideia de liberdade, ligada à imaginação, à criatividade. Fala de um amor que tem a ver com luta constante.

(G.) – À rádio comercial afirmaste o seguinte: "Todos os meus álbuns são um labirinto, este é só mais um." Sendo o labirinto constituído por vários caminhos, qual o trilho certo para as pessoas se encontrarem com o teu novo álbum?

(T.B) – Eu acho que é mesmo ter tempo para ouvir. As minhas músicas não são imediatas. Eu até brinco com a minha editora, e com o meu manager, a dizer não tenham pressa que as músicas hão de chegar às pessoas devagarinho. E, a verdade é que já me habituei a isso. Nós lançamos, por exemplo, um single chamado “Dança”, em abril, e quando lançamos o outro single chamado “Viagem” não o conseguimos pôr a dar na rádio porque de repente o “Dança” tinha começado a dar na rádio, três meses depois. E, a verdade é que quando eu lancei parece que não teve assim grande impacto, ou seja, há um período de estranheza em relação às minhas músicas, que não são imediatas. Mas, se lhe dermos tempo e disponibilidade acabam por revelar qualquer coisa que as pessoas não estão à espera e agora até está o “Viagem” a dar na rádio. Por isso, o caminho é parar um bocadinho e dar mais de três segundos de oportunidade. Eu continuo a fazer álbuns como se fossem livros e é todo um percurso, uma história, que está ali. Por isso, não tem grande interesse ouvir uma música e passar para outro artista. O álbum tem músicas muito diferentes. É um álbum que tanto vai para um rock quase punk, como para uma balada ao piano a ouvir-se o mar. Por isso, não vai ser com uma música que se vai perceber o álbum. No fundo peço disponibilidade quando deixarem de fazer passeios higiénicos.

Fotografia disponível via facebook Tiago Bettencourt

(G.) – Explorando agora um pouco as tuas canções. Na música “Viagem” ouve-se o seguinte “Faz essa viagem, meu bem”; “Que as tuas mãos livres venham cheias”; “Que teus pés descalços ganhem vidas”; “Serenem no alívio dessa estrada”. Isto leva-me a crer que a música retrata alguém querido que perdeste recentemente. Sentes que é através da música que libertas constantemente as tuas emoções?

(T.B) – Eu acho que sim… Atenção essa interpretação não está totalmente correta. No entanto, não gosto muito que só tenha uma conclusão. Acho engraçadas as conclusões que se tiram daquilo que escrevo. Não gosto de dar demasiadas pistas sobre o que me fez escrever determinada letra. Mas, é interessante essa tua interpretação, e houve muitas pessoas que já ligaram a esse assunto também…

No fundo escrevo sobre coisas que sinto, sobre emoções. Não te sei explicar de outra maneira. Eu acho que não sou muito bom a contar histórias, não sei contar a história da dona Amélia que vai comprar peixe e encontra o Zé…. Acho que as minhas músicas falam de momentos. De momentos em determinadas histórias. Gosto de momentos parados.

(G.) – Face à crise pandémica que estamos a atravessar sentiste, desde logo, que o álbum foi bem recebido pelo público?

(T.B) – Senti que o álbum ainda não chegou às pessoas. Há muita gente que não sabe que lancei um álbum. Mas, senti uma reação muito bonita. Mas, lá está, as reações aos meus álbuns acabam sempre por demorar um ou dois anos, e às vezes mais. Por isso, não te sei bem dizer. Eu já fiz as pazes com a ideia de não estar em competição com artistas que lançam e têm sucesso. Eu acho que já não vou ser novidade outra vez. E, demorei um bocado de tempo a fazer as pazes com isso porque me causava muita inquietação. A verdade é que a reação vem aos bocadinhos quando as pessoas tiverem disponibilidade, sentam-se, e reagem ao álbum. A verdade é que isso tem vindo a acontecer, e não foi só com o lançamento do álbum. Mas, as reações estão a ser engraçadas…

(G.) – Se te pedisse agora para escolheres um tema do teu álbum qual escolherias? Porquê?

(T.B) – Nesta altura escolhia a “Viagem”. Gostava muito que a “Viagem” tivesse no princípio e no fim do álbum. Acho que é das músicas mais bem conseguidas que fiz na minha vida. Continuo a comover-me quando a canto. Foi feita num momento mágico, e acho que simboliza muito bem este álbum, por isso gostava que fosse ouvida no início e no fim. É uma boa música para começar e para a despedida.

Viagem - Tiago Bettencourt

(G.) – Antes do lançamento do álbum “2019: Rumo ao Eclipse” apresentaste, ainda, uma série de concertos / conversas, ao vivo, intimistas pelo país, para plateias que variavam entre as 20 e as 50 pessoas. Numa altura em que o mundo da cultura é um dos principais setores afetados pela pandemia, sentes que foi a nostalgia do público, do ao vivo, que te moveu a organizar estes pequenos espectáculos?

(T.B) – Nesse conjunto de listening parties, eu mostrava o meu álbum em vinil. Na altura, o meu álbum, ainda, não tinha saído e tinha um leitor de vinis. Eu tocava para aí três, as que já tinham saído. Depois, o resto mostrava a música como ela é e falávamos sobre isso. Por isso foram conversas, foram umas coisas engraçadas que se calhar até faço mais vezes porque gostei imenso de fazer. Criou-se movimentos engraçados, até porque as pessoas não estavam à espera daquele formato. Aliás, nem eu. No primeiro concerto não fazia ideia ao que ia e se pessoas iam falar comigo. Por isso, fui aprendendo o que espectáculo era à medida que o fui fazendo. A ideia veio desta listening party, que para mim era o Kanye West com os amigos num rooftop, e então tive de me lembrar de fazer uma listening party que tivesse mais a ver comigo. Então, arranjou-se este conceito de ir com um vinil, uma guitarra e uma planta, dá sempre aquele ar de casa, e falar com as pessoas. Perguntar o que as pessoas sentiam depois de ouvirem determinada música. Criava-se ali conversas muito interessantes, no mínimo, de duas horas. Não por causa de mim, mas pelas intervenções das pessoas.

Fotografia disponível via facebook Tiago Bettencourt

(G.) – Numa entrevista à revista TimeOut afirmaste o seguinte: “Eu apareci no mundo da música com sucesso e o mundo da música reagiu de uma maneira infantil.” O que te leva a fazer esta afirmação? Tens algum episódio que te tenha marcado mais nesta fase particular?

(T.B) – Eu acho que numa altura como a de hoje em que está tudo ultrassensível nas redes sociais, ninguém pode dizer nada, há logo movimentos gigantes… Eu acho que nessa altura ia ter movimentos gigantes porque realmente a brutalidade das críticas…. Eram tempos muitos estranhos. Os jornais a acusarem-me de plágio, mas sem fundamento nenhum. Eu sei que determinado jornal de música conhecido, naquela altura, tirava à sorte para dizer mal de nós. Era uma coisa muito estranha, muito agressiva. Também tinha a ver com o facto de eu vir de Cascais e as pessoas não gostarem de betinhos. Teve a ver com o facto de eu ter tido sucesso muito rápido, sem ter de depender de determinados críticos, ou de determinados graus. Também teve a ver com o facto de eu não estar fascinado com esse sucesso porque eu ia ser arquiteto. Não achava que ia ser artista, mas sim arquiteto. Tinha ali uma banda, e achava engraçado, mas sempre achei que a coisa fosse finita. Sempre tive uma certa distância que também essa imprensa confundia com antipatia, arrogância. Mas, não. Eu estava ali e de repente levei com um monte de gente revoltada, no mundo da música, porque eu apareci lá de repente. Eu não conhecia ninguém, não fazia ideia do que se passava. O que nos salvou foi o público que me quis ouvir. Na altura, tinha muito público universitário e depois chegamos com a “Carta” a um público muito maior. Mas, antes da “Carta” já tínhamos uma grande base de fãs universitários. Mas, não foi fácil tive de fazer um exercício de desprendimento destas pessoas. E, sobrevivi! A pessoa ganha caule…. Muito bullying, na altura a palavra não existia senão teria a usado muito.

(G.) – Ainda, à Blitz referiste “Acho que o mais importante devia ser a música. Há artistas que são mais influencers do que artistas. Porquê? Porque vende.” Olhando a realidade ao teu redor, sentes que o número de “influencers” aumentou?

(T.B) – Não sei… Eu acho que o percurso está muito feito ao contrário. A partir do momento em que estes canais, para chegar às pessoas, são usados como, por exemplo, hoje aprendo a tocar uma música na guitarra… Ao invés de as pessoas aprenderem outras músicas postam logo um vídeo dessa música e mandam para os artistas. Dá a ideia de que antes não tínhamos tanta pressa para chegar a lado nenhum. Pelo menos, a distância era tão grande entre saberes tocar uma música na guitarra, ou decidires ser músico, que éramos mais livres. Não estávamos presos a esta ideia. Tocávamos uma música porque gostávamos realmente dessa música. Depois se a coisa até acontecesse tínhamos de participar num concurso. Eu, por exemplo, participei num concurso de novas bandas, que nem queria, já que achava que as minhas músicas não estavam sólidas o suficiente para mostrar a ninguém, e nessa altura já tínhamos muitas músicas. Havia muito trabalho de antes… Hoje em dia, vende-se a ideia de que cantas mais ó menos, vais a um festival de talentos, e tens imensos seguidores no instagram, vais ter uma carreira enorme. E, isso é tão mentira que obviamente que se alimentares isso com um posts incríveis no instagram vais sobreviver mais tempo. Mas, não é enquanto músico…. É enquanto influencer. As tuas músicas vão acabar por desaparecer de 15 em 15 dias e o que vai ficar é a tua vida pessoal. E, como é o teu namorado, como acabaste com ele, ou como são os teus filhos. É vender tudo. No “Dança” falo disso. “É vender tudo sem desdém hashtag pai e mãe.” As pessoas estão por tudo. Para o like mostram os filhos e tudo mais. Tudo isto misturado com o tentar ser músico. Acho que está tudo muito confuso, em que os miúdos têm demasiada noção de como se devem vender, e isso turba um bocado a atração principal que é fazer arte, música. Estão mais preocupados com a imagem…. Há, no entanto, muita gente a fazer boa música em Portugal, mas essas pessoas estão a ser passadas à frente por pessoas mais espertas nas redes sociais. Atualmente quem dá canal passa à frente.

(G.) – O que gostavas, ainda, de alcançar a nível artístico e profissional?

(T.B) – Tudo! Eu adorava tocar lá fora. Adorava ir para o Brasil. Adorava ter uma carreira internacional, que mais uma vez já fiz as pazes porque ninguém está numa de ouvir o tipo de música que eu faço em português. Por isso, gostava muito dessa disponibilidade. Eu acho que o mundo está cada vez mais aberto. E, acho que isso ainda vai acontecer. Não sei é se vou estar vivo… Mas, acho mesmo que o mundo está cada vez mais curioso a ouvir canções de outros países. Quem sabe daqui a uns anos o mundo não se apega a esta bonita língua que temos e começa a ouvir um bocadinho mais de português. Já faltou mais! É um sonho que tenho.

(G.) – Para as pessoas que anseiam ver, ao vivo, o “2019: Rumo ao Eclipse” onde te podem esperar?

(T.B) – Agora não porque vá-se lá saber deixou de ser permitido dar concertos, que é uma coisa que me envergonha bastante, mas que é uma coisa normal deste país. É não perceber que a cultura também é prioridade. E, percebeu-se isso durante a quarentena ao pensar o que seriam as pessoas sem música, sem livros, sem filmes, no entanto continua a cultura sempre a ficar para o fim. A fazerem dos artistas uma comunidade de pedinchões que é uma coisa vergonhosa, humilhante.

Eu tinha uma tournée que ia agora começar de apresentação do álbum, que tive de desmarcar, mas mal seja permitido dar concertos vamos com a tournée.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Tiago Bettencourt