Sobe ao palco uma banda, três músicos e um vocalista inquieto. Há no ar uma atmosfera pesada que provoca um desconforto lento, ao som eletrizante de instrumentos tocados ao vivo. Assim nasce Ainda estou aqui, o espetáculo vencedor da 3.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço, com texto e encenação de Tiago Lima, que ocupa a Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, de 24 de junho a 4 de julho. O público mantém-se expectante até à última canção.

Ainda estou aqui é o espetáculo vencedor da 3.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço

Ainda estou aqui vem falar de entretenimento e da procura inconsciente por uma qualquer distração. O texto, da autoria de Tiago Lima, vem explorar mais a fundo a relação do público com as múltiplas formas de entretenimento, num mundo cada vez mais consumista da individualidade, que opta por um estreito caminho de sentido único. O espetáculo, que é também um concerto, torna-se numa afirmação do desejo constante de saciar aquilo que somos.

Com interpretação e música de Bruno Ambrósio, Débora Umbelino aka Surma, Eduardo Frazão e Rodolfo Major, Ainda estou aqui é o segundo trabalho de Tiago Lima, após a estreia, em 2019, da peça Dave, Queda-Livre, no Teatro da Politécnica, em Lisboa. Quiseram os desígnios de um falso intervalo que, da sua primeira peça, nascesse o fio condutor do mais recente projeto, vencedor da 3ª. edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Esta iniciativa, criada em 2018, apoia a produção de espetáculos de jovens artistas, promovida pelo Centro Cultural Vila Flor de Guimarães, O Espaço do Tempo, de Montemor-o-Novo, o Teatro Viriato em Viseu e o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Em palco juntam-se Bruno Ambrósio, Débora Umbelino aka Surma, Eduardo Frazão e Rodolfo Major

O Gerador esteve à conversa com Tiago Lima, após as estreias no Centro Cultural Vila Flor, a 11 de junho, e no Teatro Viriato, no dia 18 deste mês. Agora, a somar os dias no palco do Teatro Nacional D. Maria II, onde fica até dia 4 de julho, o jovem criador de Ainda estou aqui apresenta-nos o seu “segundo álbum”, um espetáculo com alinhamento de concerto.

Gerador (G.) – Como começou o teu percurso pelo teatro e como chegaste, mais concretamente, ao universo da escrita para teatro?
Tiago Lima (T. L.) – Eu nasci em Lisboa e fui muito cedo para Leiria viver com a minha mãe. Por volta do meu 9.º ano, a minha mãe achou que seria melhor ir para Lisboa morar com o meu pai porque não estava a fazer nada em Leiria, era um aluno medíocre. O meu pai sempre teve trabalhos relacionados com atores, tem um estúdio de dobragens, e da parte da minha mãe também, com um estúdio de cinema, e por volta dessa altura comecei também a interessar-me por fazer teatro. Nessa vinda para Lisboa, acabei por entrar na Escola Profissional de Teatro de Cascais e depois na Escola Superior de Teatro e Cinema. A parte da escrita surgiu a meio do curso, e foi também nesse momento que comecei a pensar na minha primeira peça, Dave, Queda-Livre, que estreou em 2019. A parte da escrita foi uma descoberta. No curso em Cascais não me identificava muito com algumas formas de trabalho e pensei que uma boa forma de trabalhar como ator era escrever o que me apetecia dizer em palco. Apesar de nunca ter entrado, como ator, num texto escrito por mim, o ponto de partida foi esse, que será mais fácil trabalhar como ator escrevendo as minhas histórias e as palavras que quero dizer em cena.

G. – Há uma conexão entre a tua primeira peça, Dave, Queda-Livre, que estreou em 2019, no Teatro da Politécnica, e Ainda estou aqui, a mais recente. Fala-nos desse encontro entre os dois textos.
T. L. – O texto do Dave, Queda-Livre surgiu de uma ideia inicial de explorar a relação de um pai e de um filho. Cedo percebi que não seria um bom caminho escrever sobre a minha relação com o meu pai, portanto comecei a preencher o universo do texto com outros autores e histórias que culminaram no Dave, Queda-Livre, que passou a ser um espetáculo de relações familiares e não familiares. Quando, em 2019, acabei de estrear a peça, houve uma cena em concreto que me fez pensar no Ainda estou aqui. O ator Bruno Ambrósio fazia uma cena que acontecia durante o intervalo da peça, uma espécie de falso intervalo, em que entrava em palco para anunciar o intervalo e acabava por ficar a falar sobre o tédio e o entretenimento durante esse intervalo. O facto de ele entrar com um microfone e um amplificador remeteram-me para a ideia de uma banda, e foi a partir daí que comecei a construir o Ainda estou aqui.

O ator Bruno Ambrósio interpreta o vocalista, após anterior participação em Dave, Queda-Livre

G. – O Ainda estou aqui surge para desenvolver essa ideia da banda e do entretenimento?
T. L. – Sim, a imagem dessa cena remeteu-me para uma banda em palco, e ao mesmo tempo para falar sobre o entretenimento. Um dos grandes autores que me influenciou para a escrita do Dave, Queda-Livre foi o David Foster Wallace. Ele fala desses temas e tornou-se importante continuar a explorar essa ideia através da música. A narrativa do Ainda estou aqui é uma banda que não está junta há cerca de um ano. Nesse retorno da banda o concerto não corre exatamente como eles esperavam, muito por culpa do vocalista e das suas convicções, que acaba por ser o causador de toda a história. Neste espetáculo existe mesmo uma banda em palco e o vocalista acha que não estão a entreter suficientemente bem o público, que o público quer outra coisa. É essa outra coisa que, quem for ver o espetáculo, vai descobrir o que é.

G. – Isso faz do espetáculo uma peça de teatro ou um concerto?
T. L. - A ideia foi sempre promover o espetáculo como um concerto, para, depois, como há uma punch line¸ se tornar mais surpreendente. Como é apresentado num teatro, e também é uma peça de teatro, não se pode dizer que é só um concerto. Toda a música é tocada ao vivo, os atores estiveram a aprender os instrumentos, tendo essa linguagem de concerto. Mas também tem a parte teatral. Diria que é um concerto encenado.

Os atores foram desafiados a aprender os instrumentos para integrar o espetáculo

G. – Houve um investimento, por parte dos próprios autores, de concretizar essas duas dimensões, musical e teatral?
T. L. – Foram três os atores que estiveram cerca de um ano e pouco a aprender a tocar as músicas do concerto. Depois queria integrar uma figura feminina na banda, e convidei a Surma. Ela já fez o caminho inverso, aprendeu o trabalho de atriz, enquanto os atores fizeram o trabalho de músicos. Há uma interdisciplinaridade entre eles que é fixe de se ver dentro e fora do espetáculo. O facto de virem de mundos diferentes também influencia o próprio espetáculo, a nível musical e teatral.

G. -  Essa mistura, entre a música e o teatro, o concerto e o espetáculo, foi intencional para criar alguma inquietação?
T. L. – Pensei numa ideia inicial de como o público reagiria ao que acontece, como se se tivesse enganado na sala. A própria personagem do Bruno, o vocalista, tem essa relação com o público. Ele está num concerto, mas sente algo estranho, de repente parece que aquele não é o público do concerto. Esse jogo é engraçado, perceber como o público reage aos instrumentos em cena, à música ao vivo, e depois o facto de os atores serem cumpridores no que fazem, exímios no que tocam, e isso faz com que a ideia de concerto seja real. No fundo, está mesmo a acontecer um concerto numa peça de teatro, o que se torna interessante.

A fusão de teatro e música, em palco, cria um fator inesperado ao olhar do público

G. – No fundo, exploras a ideia de um entretenimento sem resposta, nem o próprio público sabe o que quer.
T. L. - Uma das premissas do Ainda estou aqui é essa ideia de passarmos horas a tentar entretermo-nos para evitar uma dor ou qualquer outra coisa, mesmo sempre a transmitir essa ideia da dor, presente na personagem do Bruno. Pensar “o que é que o público quer afinal?”, “Se estamos a dar música e eles não querem música, afinal o que querem?”. Eu não estou a tentar dar uma resposta sobre o que é o entretenimento, mas a resposta está em saber exatamente o que as pessoas querem hoje em dia. Querem coisas tão diferentes… Mas de uma coisa tenho a certeza, querem estar distraídas de uma dor qualquer, só não percebem que essa dor não evita, só se adia. E essa dor pode ser uma coisa boa ou má, a ideia está em querer estar distraído. Não é o meu objetivo ter uma moral, passar uma mensagem ou influenciar de alguma forma. Simplesmente quando escrevo os meus textos a única coisa que procuro é contar uma história que faça as pessoas viajar. Não me interessa que saiam do espetáculo a pensar: “Tenho de mudar o meu comportamento.” Acho que o mais importante é ir ao teatro, ser entretido e saciado de algo que nunca saberemos o que é. O espetador é diferente e reage de formas diferentes a espetáculos iguais, e de formas iguais a espetáculos diferentes.

G. – Foi com este texto, Ainda estou aqui, que venceste a 3ª. edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Como aconteceu a candidatura e que importância teve este prémio para a tua criação?
T. L. - Tive a sorte de vencer e de, antes de vencer, já ter a ideia do espetáculo. O Ainda estou aqui surgiu primeiro que a candidatura, e como cumpria os parâmetros decidi arriscar. Mas pode acontecer o caminho contrário. O mais importante nestes prémios é perceber a dimensão de os vencer. Tens muitos parceiros, muita logística, e isso permite às equipas valorizar o trabalho, desde o técnico de som, ao técnico de luz, cenografia, figurinista, atores. É uma ótima oportunidade para quem está a começar, ter um primeiro contacto com essa realidade. Falo de ter vários parceiros, saber as relações que se tem com cada um e criar novas correntes de trabalho. Eu, até então, nunca tinha trabalhado com o Teatro Nacional D. Maria II, o Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo ou o Teatro Viriato. Em relação a este texto, senti uma pressão muito maior, como se escrevesse um segundo álbum. Para já começa nas datas, quando temos datas começamos a procrastinar nas coisas, mas nessa procrastinação estamos a criar. Chega a uma fase que parece que não estás a criar nada e tens de confiar em ti porque, nesse momento, também crias. Mas neste espetáculo senti muito isso, a partir do momento em que ganhei a bolsa pensava “menos um dia”, até estarmos nesta altura, em que estreámos em Guimarães e Viseu, e agora em Lisboa.

Após a estreia em Guimarães e Viseu, Ainda estou aqui apresenta-se no palco do Teatro Nacional D. Maria II

G. – O que sentes que mais mudou, relativamente ao Dave, Queda-Livre?
T. L . - Mais responsabilidade. No Dave, Queda-Livre praticamente fazia tudo, escrevi, encenei e fiz toda a parte de comunicação e produção. Foi um bocado insano. No Ainda estou aqui foi confiar nas pessoas, escolher uma equipa e confiar na viagem. Nestas questões todas da comunicação, produção, técnica, logística. É mesmo importante saber lidar com isso, ter uma estrutura e trabalhar com ela, confiando nas pessoas, que estão todas a trabalhar para o mesmo.

G – A estreia do Ainda estou aqui, no Teatro D. Maria II, aconteceu esta quinta-feira, 24 de junho, após as salas de Guimarães e Viseu. Que expetativas se levantam para os restantes dias?
T. L. – Eu preciso de alguma distância, mesmo depois do espetáculo, para analisar. Não consigo receber pessoas no camarim ou mesmo ficar junto do público. O facto de o Ainda estou aqui ser um concerto e as pessoas reagirem de forma diferente, fez com que fosse diferente em Guimarães, em Viseu, e será diferente em Lisboa, certamente. No geral, correu muito bem e estou muito curioso para perceber qual será a reação do público à música e ao que será dito pelo vocalista e pelos atores.

Texto de Ana Mendes
Fotografias de Filipe Ferreira

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