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To endure

Nas Gargantas Soltas de hoje, Sara Carinhas fala-nos sobre as relações entre pessoas e espaço.

Fotografia de João Silveira Ramos

Querida casa. Estamos na vertigem da nossa despedida. Começas agora a ficar vazia de nós e nós com frio já da falta de tudo o que te fazia mais nossa. Foram-se os quadros que nos distraíam os olhos pela tua tela branca, os espelhos iludindo-nos da tua falsa imensidão, os livros todos já em caixas empilhadas, pesadíssimas, esmagando as palavras todas, roubando-te as cores distribuídas, a companhia de tanta gente falando. Empacotados igualmente os mais frágeis objectos, feitos para serem pousados em ti, em ti distribuídos, lembrando as viagens, os amores mortos, o símbolo das coisas, e também a perigosa acumulação da vida. Pudemos ensaiar em ti o vislumbre de um lugar de porta aberta, mesa cheia, divisões para todos os corpos, família a ser acolhida, escolhida a cada dia. Soubeste também proteger-nos do que não estava certo, do que não cabia, do que não podia entrar. Na tua sala: os jantares adiados, a dureza, as conversas-sonho-de-futuro, o natal-perturbação, desabafos, mesários e aniversários, monólgos-desabafos, tentativas frustradas de diálogo, visitas do Brasil, eleições, véspera de casamento, o café da manhã que se arrastava com amor pelo dia; as aulas dadas on-line, as reuniões on-line, discussões com cortes a meio da fala, emoções sem filtro e sem abraço, descobertas à distância; aflições veterinárias, acidentes nos tapetes, olhares cúmplices; o sofá nevrálgico, horas de séries viciantes, tanto filme para não pensar, ficção acompanhando o fim de dia, os silêncios, a ternura do abraço, a comida caindo na almofada, a sesta involuntária, e todas as nossas pessoas ainda por ali espalhadas, encostadas, recostadas, estendidas pelo espaço afora. No quarto de dentro: as visitas que ficavam para o dia seguinte, para a semana seguinte; o escritório que não deu certo por falta de luz natural; o esconderijo para a Marie; a saleta sem solução. As casas também têm lugares-problema, não-lugares, fracassos sem solução. O corredor seguindo o correr dos nossos filhos-cães felizes, sempre atrás de nós, farejando todos os teus cantos, as tuas imperfeições, os teus ângulos mortos. E eu que sempre tive pesadelos com corredores intermináveis, corredores quase túneis que dava, para o nada. Agora já não sonho, estou crescida. O quarto: ninho, corpo protegido esmagado de amor; noites sofridas de indisposição, de pensamentos a mais; e o terror da vizinha de cima - criança a mandar em todas as nossas manhãs, no nosso sono, nas nossas dores de cabeça, no nosso cansaço e na nossa disposição, aos pulos, aos berros e aos saltos, sem piedade, batendo em ti como um martelo imenso, roubando a alegria de viver. Os vizinhos de cima usando a sua casa como parque, como jaula. Tenho a sensação que corres riscos de te desmoronares de vez, à sua mercê (que a vida lhes dê amor e muita compreensão…). Mas e uma casa, o que é? O que és tu afinal? Uma amiga leu o meu mapa astral e disse-me que os caranguejos vêm nus ao mundo e que criam sua carapaça onde fazem seu canto, mas que à medida que crescem ela deixa de servir, é preciso fazer outra. Também me disse que a minha casa eram os meus aliados, especificamente os meus amigos. E eu sei que tu não és os candeeiros, as flores nas jarras, as chaves no móvel de entrada. Tu não és os camarins dos teatros, os restaurantes, os quartos de hotel, as cidade de infância, os chocolates escondidos nas gavetas da casa dos avós, ou a tenda em terra batida, o mar com o vento forte, um cantinho debaixo de um toldo, uma janela num comboio. Mas podes ser tudo isso. Se lá estiver o nosso signo, o músculo do nosso coração, o caroço da maçã. Querida casa. Teria de reformular a carta, afinal. Não podia começar com despedidas. Isto sou só eu de novo nua, a refazer a carapaça avermelhada, queimada que fica do Sol. Olho para as caixas e não vejo nada. Vejo-te a ti. E quanto mais te vejo mais solidão e mais possibilidade. Estamos a pensar fazer uma festa quando estiveres vazia das coisas. Celebrar-te despida, minha igual. Deixar aqui as energias, o trabalho feito, o cheiro. Fazer um brinde ao privilégio de te ter, à vida em comunhão, ao sonho. Desculpa, tenho de continuar a empacotar, fazer mais malas. Tentar ainda este limbo entre nós. Talvez imprima o que te escrevi e dobre num papelinho tão pequenino que o consiga esconder num buraco no chão, num buraco de parede, como no “Ghost story”. Outra família um dia virá, ou já só os nossos fantasmas, quem sabe.

novembro de dois mil e vinte e dois

apartamento na capital de um país algures num planeta do imenso cosmos

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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