A busca pelo sucesso, o querer mais, querer passar para o próximo nível acaba, muitas vezes, por ser um “assassino” de grandes momentos, que vão passando pela nossa vida sem que nos apercebamos. Durante esta quarentena foi possível refletir bastante sobre alguns feitos, objetivos alcançados e chegar ao ponto em que, com apenas 36 anos, considerar que se alguém fizesse um filme, ou mesmo um livro sobre mim, até poderia ser interessante.  Isto aplica-se a muitos profissionais das diferentes áreas aonde opero e se forem como eu, que até coloca algumas coisas nas redes sociais, o Instagram pode ser um bom aliado para ajudar a fazer esta mesma reflexão.

Explorar o nosso feed e ver grandes momentos que passámos pode fazer parecer, ou até mostrar, que já atingimos o tão esperado nível. Não acredito na felicidade, acredito sim em momentos felizes. Podia falar aqui sobre milhares de momentos desses, passados com a família, que passei no mundo da música, mas vou partilhar apenas alguns sobre esta última.

Já passei por certos momentos, em que estava numa determinada situação, e tive uma sensação do tipo: “isto está mesmo a acontecer!”. Por exemplo: todos os anos sou responsável por vários projetos nacionais nas viagens de finalistas, desde concertos de artistas nacionais, a batalhas de Hip Hop, ou mesmo ter um palco com o nome do meu maior projeto, a Hip Hop Sou Eu, o que faz com que leve todos os anos mais de 20 pessoas ao sul de Espanha para entreter milhares de alunos finalistas. É uma experiência única para mim, para os artistas, muitos deles a começar a sua carreira, onde somos instalados em hotéis de 5 estrelas e com direito a muitas regalias, por exemplo na altura das refeições, dos banhos nas piscinas… e é aí quando sinto aquele feeling de “damn, isto está mesmo a acontecer?”. Ver um monte de artistas a conviver no mesmo hotel e, o mais importante, ver a alegria na cara deles por estarem a viver uma experiência diferente. Isto para dizer que, a importância que damos àquele momento, enquanto o vivemos, muitas vezes (na sua grande maioria) não é a que devíamos dar ou poderia ser dada. Mais tarde, ao relembrá-lo, aí sim, verificamos que vivemos um grande momento. Lembro-me, por exemplo, de acompanhar um dos artistas da minha agência, o Dj Mizzy Miles ao Festival Iminente em Londres, e logo no Aeroporto estar com este feeling. Assim que chegámos ao Aeroporto vimos um grande número de artistas, chegámos a Londres e tínhamos aquele aparato de motoristas com papéis enormes a dizer “Iminente”, fomos levados até ao Hotel e mal chegámos à entrada dou de caras com o Sam the Kid, com o Dj Big… e novamente o mesmo feeling: “porra, ainda há uns aninhos estava a ir a casa do Sam chateá-lo por beats e agora estamos aqui em Londres, num bom hotel, a viver o que para muitos é um sonho…”. O melhor de tudo foi o regresso a Portugal do qual, com muita pena minha, não há uma única foto de todos, juntos, no mesmo avião. Imaginem, lado a lado vinham: Dino Santiago, Branko, Vado Mas Ki As, Halloween e a sua band.

O Halloween e o Vado foram colocados perto das asas do avião, logo, tiveram de ter uma pequena formação com a tripulação sobre a abertura das portas de emergência, caso algo corresse mal, o que gerou de imediato algumas risadas entre nós (e novamente o meu feeling).

Com o meu grande amigo e grande artista Malabá, com quem provavelmente tenho o maior número de datas na estrada, também tenho alguns desses momentos. Vou contar-vos o mais recente: na altura das listas nas escolas é normal andarmos pelo país todo, a alegrar o intervalos dos alunos. No meio de tantas escolas que fizemos, formos convidados para ir falar com uns alunos às Caldas da Rainha. Tudo certo, até aqui. Porém, por falha minha, acabei por pensar que seria apenas uma escola e estaríamos numa sala com cerca de 20/30 alunos, no máximo. Errado. Ao chegar à morada indicada, um bocado atrasados e sem ter comido antes, vimos que não se tratava de uma escola. Pensámos que seria rápido e em vinte minutos estaríamos finalmente a comer. Novamente, errado. Assim que estaciono o carro, deparamo-nos com um pequeno aparato, com fotógrafos e alguns homens engravatados à nossa espera. Afinal, era o Presidente da União de Freguesias das Caldas da Rainha e o responsável pela Juventude. Depois de nos cumprimentarmos, foi quando nos informaram que, afinal, estavam a aguardar a chegada de mais autocarros com alunos para começarmos o evento. E foi aí, nesse momento, que descobrimos que, afinal, íamos falar num auditório para centenas de alunos! Tanto o Malabá, como eu, estávamos um bocado assustados, mas no fundo felizes com a importância que nos deram à nossa chegada… e novamente o mesmo feeling.

Teria aqui momentos para uns 100 mil caracteres, mas fiquemos por aqui, só com estes, para já. Considero que todos nós temos, tivemos ou iremos ter mais destes momentos, que para quem se encontra numa correria de trabalho ou, quem está sempre a criar e a inovar, esses momentos são ultrapassados e até esquecidos pelo momento seguinte. O meu último grande momento, que devia ter sido celebrado com uma garrafa de champanhe foi o facto de ter sido convidado para escrever para o “Gerador”. Se me dissessem, há uns anos, que isto ia acontecer, a minha resposta seria: “estás maluco!”.

Assim, aproveitem todos os vossos momentos, e documentem tudo, se for possível.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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