Quantas pessoas já olharam para ti de lado quando saíste a horas do trabalho?
Para quantas pessoas já olhaste de lado porque estão a sair a horas do trabalho?

Um e-mail para ser respondido a um sábado.
Umas férias com emergências da empresa.
Uma hora de saída irrelevante.
Um “é só mais uma semana.”
Um patrão a prometer uma promoção que nunca acontece.
Uma chefe a dizer que também passou por isso.
Um pensamento de “tenho de conseguir.”
Um emprego que não podes perder.
Um projeto para ser entregue ontem.

Não é uma canção do Pedro Abrunhosa, é o caminho para o burnout.
De uma forma resumida, a síndrome de burnout é um pico de exaustão emocional e física. Caracteriza-se pela sensação de fadiga constante, afastamento social, perda de empatia, problemas de memória, sensação de descontentamento e desmotivação no trabalho, comprometendo imensamente a qualidade de vida pessoal e o desempenho laboral (mais, aqui). 

1. O questionamento

Como freelancer, sofri muito de uma pressão interna de que quanto mais trabalhar, melhor e mais serei e terei mais valor. No entanto, rapidamente me apercebi de que não é assim que devemos funcionar: não somos o que fazemos. Se fossemos, éramos todos bílis, urina, cocó. Assim sendo, tenho trabalhado em dizer mais vezes “não”, ajustar melhor os meus próprios horários e perceber que não tenho de aceitar condições que em nada favorecem a minha saúde física e mental. No entanto, sei que esse tipo de raciocínio e de poder organizar o meu horário como é melhor para a minha vida, é um privilégio. (Esta característica faz parte dos prós do freelance. O contra da instabilidade financeira constante fica para abordar numa outra altura). Quem trabalha numa empresa ou num estúdio faz o movimento inverso de adaptação: adapta a vida pessoal à vida laboral. E quando te querem anular o teu tempo pessoal e fazer a tua vida girar totalmente à volta do trabalho?

Ciente desta questão, perguntei às pessoas que me seguem no Instagram o que já tinham ouvido das chefias onde trabalham e de elas próprias como chantagem emocional para trabalharem até à exaustão. Recebi centenas e centenas de respostas, cada uma mais tóxica do que a outra. Ao analisar, criei os “Perfis da chantagem emocional tóxica de chefia*” * ou de um cargo superior ao nosso, ou de nós mesmas, quando somos a nossa chefe:

Não há horas de saída e os fins de semana são para trabalhar.

Pérola máxima: ter de sair mais tarde do que a hora contratual de saída por forma a compensar pausas para comer e ir ao WC.

Isto é para ontem

Pérola máxima: Ter de ter o trabalho pronto na data, mesmo que estejamos nas urgências do hospital com um problema grave de saúde.

Não falta quem queira o teu lugar

Pérola máxima: Não podemos ir a funerais de familiares próximos num sábado, porque os sábados também são para trabalhar e não receber.

A falsa recompensa de promoção

Pérola máxima: É fixe trabalhar até à exaustão, porque depois as pausas sabem melhor.

Estupidez Máxima de comentários, desde comentários machistas a propostas de salário descaradas

Pérola máxima: Se queres ganhar mais dinheiro, dorme com os clientes. Primeiro lugar partilhado com: Só podes parar de trabalhar quando sangrares das mãos. 

Se não tens família, pertences à empresa

Pérola máxima: Vais trabalhar nesse sábado extra sim, mesmo que seja o casamento da tua irmã. Só quando for o teu casamento é que, pronto, tolero.

A juventude é para trabalhar

Pérola máxima: És nova, aguentas trabalhar a tua juventude toda sem descanso.

A chefia abusadora merece toda a empatia

Pérola máxima: Tens de vestir a camisola da equipa, trabalha por duas, sem receberes mais por isso, que assim gasto menos dinheiro. No meu tempo (… qualquer coisa sobre ter trabalhado até ser exaustão sem comer, como se isso fosse recomendável).

Tens de te esfolar, senão toda a gente sofre

Pérola máxima: Se não trabalhares as horas extra todas sem receberes, vais ter a culpa toda se o projeto correr mal e vais lixar as tuas colegas.

A culpa é tua que não te organizas

Pérola máxima: Fazer horas e horas por fora faz parte do trabalho, é porque tens de saber organizar melhor o teu tempo.

2. O nosso problema: Não posso dar-me ao luxo de perder este emprego

Dito isto, em contraste, percebo que uma pessoa trabalhadora tenha medo de fazer finca-pé no emprego, pois pode perdê-lo e não estamos numa época em que possamos dar-nos a esse luxo. Ainda, é compreensível que, se toda a gente faz mais horas, não queiramos ser aquela que se recusa, porque “se toda a gente faz, parece mal que eu também não faça”. O que poderemos fazer? O ideal seria que as pessoas dos altos cargos das empresas tivessem noção de que há condutas laborais de respeito mútuo e direitos humanos a seguir. Felizmente, há empresas que as seguem. E as que não seguem? Se todas as pessoas trabalhadoras exigissem direitos de trabalho, e tivessem o privilégio de os poder exigir sem se preocuparem se mantêm o trabalho ou não, tudo de resolveria. Se ninguém aceitasse trabalhar com más condições de trabalho, as empresas teriam de mudar de estratégia. No entanto, não é justo de todo pôr a responsabilidade nas trabalhadoras. O correto seria que as chefias percebessem como respeitar as pessoas e os direitos laborais, é a sua obrigação. À falta de bom senso, resta-nos mostrar às chefias como levar as trabalhadoras à exaustão, é contra-producente economicamente.

3. O problema do sistema: Exigir horas de trabalho loucas é anti-producente

Uma pessoa sobrecarregada resolve mais lentamente os problemas; tem propensão a não escolher o caminho mais rápido de execução; cria mais atritos no grupo de trabalho; torna problemas em grandes fatalidades; tem mais probabilidade de ter acidentes no trabalho e fora dele; está susceptível de forma alarmante a um burnout; e ainda, com os problemas, a trabalhadora vai de baixa para casa. Onde está a produtividade aqui? A produtividade estaria em descansar bem para trabalhar bem. Inclusive, há imensos estudos e artigos sobre as vantagens de trabalhar somente quatro dias por semana. Não me vou alongar agora aqui, basta pesquisarem no motor de busca.

No caso da medicina, temos pessoas médicas e enfermeiras a fazerem turnos loucos, não sendo remuneradas devidamente pelo seu trabalho e investimento na profissão. Se fosse noutros tempos, o ideal seria terem turnos mais curtos e contratarem mais pessoas (em termos pandémicos, deveriam ser extremamente bem recompensadas). Quantas negligências médicas não deveriam ter sido rotuladas de sobrecarga de trabalho? O cansaço faz com que o nosso poder de decisão fique toldado, e aumenta em muito o tempo de reação a um problema (que deve ser o mais curto possível). 

Mais relevante do que as consequências de stress no trabalho, são as repercussões dele na qualidade de vida da população. As pessoas não devem limitar a sua vida ao seu trabalho, isso sim é trabalhar para morrer. O ideal seria gostarmos do nosso trabalho, mas trabalharmos para viver: sustentar-mo-nos para viver a vida plena fora do trabalho.

Este sistema de pressão laboral que nos diz que o nosso valor está relacionado com a nossa produtividade é muito perigoso. Vivemos numa sociedade em que os detentores de poder, os que pagam salários e projetos, fazem das pessoas trabalhadoras marionetas, dando impulsos de chantagem emocional. 

Afinal, queremos pessoas trabalhadoras competentes, ou exaustas?

— Claro que há boas chefias, mas essa não é a regra geral. Além disso, existirem boas, não anula as más que há.

— Os plurais do texto encontram-se no feminino, como um ato ativista de tentar equilibrar (o que já é impossível na realidade) os plurais universais masculinos. Plurais referentes a “pessoas”.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio.  Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
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