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Transmissão: o ciclo de teatro do imaginário que nos convida a escutar de olhos abertos

De um gesto de guerrilha nasce uma forma de resistência que vem celebrar o teatro…

Texto de Andreia Monteiro

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De um gesto de guerrilha nasce uma forma de resistência que vem celebrar o teatro radiofónico. De 20 a 25 de abril vais poder ouvir o Ciclo de teatro radiofónico Transmissão que contará com leituras de textos transversais a várias idades e estados de espírito. Esta é uma iniciativa organizada pelo UM COLETIVO, em parceria com As Crianças Loucas e com Txon-poesia. O Gerador junta-se a esta iniciativa ajudando na difusão de cada espetáculo a partir de dia 20 de abril. Para já, fomos falar com os organizadores deste ciclo e apresentamos um pouco daquilo que poderás ouvir.

A união de UM COLETIVO, As Crianças Loucas e Txon-Poesia deu-se de forma orgânica. Cátia Terrinca já tinha trabalhado com Vicente Wallenstein numa peça de Carlos Wallenstein, que seguia este modelo de teatro radiofónico. Surgida a ideia de voltar a pegar nesse trabalho, Cátia ligou a Vicente e acelerou-se o processo de pensar num projeto conjunto entre UM COLETIVO e As Crianças Loucas. A chegada da associação Txon-Poesia dá-se com uma relação “umbilical” de Cátia com Cabo Verde – “a minha família materna é de lá e, neste momento, o dramaturgista do UM COLETIVO reside em Cabo Verde, onde fundou a associação que também se juntou a este ciclo - Txon-Poesia.” José Pinto, em representação desta associação, afirma que a “Transmissão é uma irreverente emissão de afetos atlântica, entre amigos de Portugal e Cabo Verde” constituindo um “modo poético de chegarmos às pessoas e de lhes dizer ao ouvido que estamos juntos.”

Em comunicado, a organização diz que esta iniciativa é “também, uma resposta à bidimensionalidade do capitalismo e à supremacia visual, preferindo a escuta, o corpo, o diálogo - acreditando que ‘ouvir’ amplia o corpo e descobre poros por toda a pele. Sobretudo, é uma pergunta. Sabemos escutar de olhos abertos?” Assim, lançam o repto “para desligar o computador e ouvir o mundo falar-nos de dentro da nossa imaginação - essa grande paisagem que nenhum recolhimento impede.”

Para esta celebração, escolheram dividir a sua programação em quatro momentos de forma a chegar a vários públicos. “Há textos para os ouvidos mais pequenos, ou antes, Para os Putos, e palavras antigas... porque recordar é viver. Há Cartas de Amor e Desejo em horários mais tardios e, à hora de jantar para toda a família, e para todas as famílias, a nossa Homenagem ao Carlos Wallenstein”, avançam ainda em comunicado.

Ouvir falar de teatro radiofónico pode soar estranho para ouvidos mais jovens, que não estão habituados a ligar a rádio e ouvir este género de leituras. Cátia Terrinca, do UM COLETIVO, explica que “o gesto de resgate desta ideia procura criar uma outra corrente de transmissão além-vídeo.” “O nosso trabalho, no UM COLETIVO, tem tido o som, a palavra, o texto e a voz como epicentros de pesquisa, inclusivamente já tínhamos feito algumas experiências à volta da ideia de teatro radiofónico. Acho que as coisas nunca são estanques e os projetos contagiam-se e continuam, de formas mais ou menos óbvias.”

Vicente Wallenstein, d’As Crianças Loucas, afirma que o exercício do teatro radiofónico o atrai particularmente, desde logo, por ser um ciclo que homenageia a obra de Carlos Wallenstein, seu avô. Por outro lado, “o simples exercício de fazer um espetáculo apenas para ser escutado obriga a uma atenção especial à história que está a ser contada, o que muda a abordagem à peça. Para além disto, o ciclo Transmissão pareceu-nos sempre uma resposta diferente ao momento de isolamento que se vive; é impossível não questionar quais são as respostas que os artistas podem dar nesta situação, e esta foi a que mais nos interessou e poderá começar a fazer cada vez mais sentido explorar.”

José Pinto, da Txon-Poesia, aponta que “as leituras de poemas nas emissões radiofónicas aumentaram nos últimos tempos, privilegiando uma escuta atenta e, talvez por promover essa aproximação, num ambiente mais intimista e exigente, de certa forma, para o ouvido, o teatro radiofónico se tenha perdido na voragem das imagens em que vivemos até há bem pouco tempo.” Assim, o ciclo Transmissão revisita a tradição de se “juntar famílias e amigos à volta do rádio a escutar a palavra dita”. Por outro lado, “temos vontade de partilhar os textos e as vozes com os ouvintes, como alternativa ao excesso de imagens no mundo online em que vivemos mergulhados, dado o isolamento.”

Com o privilegiar da escuta, os artistas destacam algumas descobertas que nascem perante tal desafio. Cátia aponta que “imaginação e intimidade são sinónimos”. João Cachola (As Crianças Loucas) realça o foco: “Só podes recorrer a um sentido, a audição, por isso a forma como o som, a palavra e a música são trabalhados, recebe um cuidado e atenção diferentes. Todo o som tem cor, ritmo e imagem, todo o Teatro é imaginação e possibilidades.” José reflete sobre o corpo como sendo “o instrumento musical mais antigo”. “Se os textos que selecionámos já sugerem, à partida, essa experimentação dos elementos sonoros vocais - refiro-me, por exemplo, aos textos de Fernando Pessoa, Filinto Elísio e Vera Duarte -, então a interpretação descobre e redescobre novos territórios possíveis de potenciarem essa escuta atenta e, diria mesmo, participada, por parte do espetador-ouvinte”, acrescenta.

Nesta brincadeira proposta com a solidão, será então possível fazer teatro sem um público à vista? “Haja quem oiça do outro lado e, sim, julgo que é teatro”, diz Cátia. José propõe que se alargue o debate ao conceito de “público”, questionando “se público significa um conjunto de pessoas que veem e batem palmas no final do espetáculo ou se público significa que uma pessoa escutou as vozes dos intérpretes, dialogou com essas vozes dentro da sua própria solidão e - quem sabe - tenha sido uma experiência transformadora para ela, sem palmas.”

João acrescenta que se trata de teatro, mas mudam-se as regras do que se pode, ou não, fazer. “Naturalmente, o teatro vive do presente e do efémero, está constantemente a jogar com a partilha, pois se o espectador dá o seu tempo, o intérprete entrega-se à sua arte, sempre no jogo do conquistar e ser conquistado que, às vezes, até acontece com sucesso. Consoante o espaço, concluída uma determinada adequação, já se faz teatro em qualquer sítio, seja por opção de experimentação ou, infelizmente, por precariedade. A solidão está sempre lá, pois só tu tens a tua visão do que se passa, e essa só se quebra com a reação do público, através de risos, lágrimas, palmas e ou pateadas (já raríssimas, nos tempos que correm). A grande diferença, aqui, é o intérprete e o espectador estarem impossibilitados de partilhar o mesmo espaço físico e temporal, resultado disso, esta relação torna-se menos limitadora, e talvez mais egoísta e até manipulativa. Como intérprete existe a possibilidade de parar, repetir, melhorar o trabalho – pois a emissão é previamente gravada –, como espectador tenho mais hipóteses de escolha, posso decidir onde e como escutar, que partes quero ou não ouvir e em que volume, ou até se o espetáculo deve acabar mais cedo, sem que nunca me sinta julgado.”

Este ciclo surgiu como resposta à necessidade de cancelar a programação prevista para o cineteatro de Elvas e pela vontade de honrar o compromisso para com os artistas e comunidade. Ainda que à distância e por um meio virtual, a voz é o elemento que não se perde num ecrã. “A voz carrega o corpo invisível. A voz é o que do outro podemos desejar tocar-nos. Por isso, vamos homenagear a voz. A vós. Não emulamos estar juntos. Não estamos. Mas a voz traz-nos o desejo do outro. E o desejo, a chama, é o clamor alto pelo futuro aqui perto. A voz toca como as mãos, emudece, dilata os poros. O desejo aproxima-nos do amanhã. Então, vamos encurtar o tempo. Falaremos e cantaremos e contaremos histórias”, lê-se em comunicado.

Descobre os textos que vais poder ouvir, de seguida:

Pop - Para os Putos (transmitido de manhã)

  • Onde vive Blimundo, a partir de uma história tradicional de Cabo Verde
  • O Senhor da Dança, de Véronique Tadjo
  • O cão em busca da luz
  • Upsmara, a partir de “Smara” de Paula Carballeira
  • Sofia, de Mayana Neiva
  • Miau Miau Beu Beu Pum Pum, de Carlos Wallenstein


Teatro Imaginário (transmitido de tarde)

  • Cassilda e o Reino dos Sonhos, de Carlos Wallenstein
  • A Cadella, de Fernando Pessoa
  • Barco Louco, de Carlos Wallenstein
  • Prisão Domiciliária, de Filinto Elísio (inédito)
  • A Um Metro, de Lígia Soares (inédito)

Cartas de Amor e Desejo (transmitido à noite)

  • Requiem, de Carlos Wallenstein
  • Poema de Amor, de Vera Duarte
  • Combate de Amor, de Vanda R Rodrigues
  • Acto do Corpo, de Maria da Graça Varella Cid
  • Cartas, de Mário Cesariny a Cruzeiro Sanches


Especial online – dia 25 de abril:

  • Almada, por Carlos Wallenstein e Lia Gama;
  • Miau Miau Beu Beu Pum Pum, de Carlos Wallenstein
  • Poema de Amor Libertário à Cidadania, de Vera Duarte

“Vamos, então, fazer teatro a partir das nossas casas. Vamos brincar por dentro das nossas solidões até que nos apaixonemos, novamente, pelo mundo lá fora. Vamos ser um, outro, ninguém e cem-mil, brisa, vento, trovão, relâmpago, gritos de náufragos, ondas do mar, passos lá fora.” Pronto? Fica atento porque, a partir de dia 20 de abril, levamos-te nesta viagem conduzida por Transmissão.

Texto de Andreia Monteiro
Imagem promocional de Transmissão – ciclo de teatro do imaginário
O Gerador é parceiro de Transmissão

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