Ver e ouvir falar de cinema português pelo mundo é um passaporte dourado para os realizadores nacionais. A abertura para novos públicos, a infinita possibilidade de gerar encontros culturais, a fusão cinematográfica de significados, linguagens e símbolos, são o impulso da viagem para que as obras se tornem acessíveis além-fronteiras.

“Três Realizadoras Portuguesas”, uma sessão de curtas-metragens composta por “Dia de Festa”, de Sofia Bost, “Ruby”, de Mariana Gaivão, “Cães que Ladram aos Pássaros”, de Leonor Teles e “Prazer, Camaradas!”, de José Filipe Costa, são as curtas-metragens portuguesas a estrear em diversos países do mundo já a partir do mês de março. Todas produzidas pela Uma Pedra no Sapato, à exceção de “Ruby”, que é uma produção Primeira Idade.

No início do mês a Cinemateca Uruguaya, em Montevideu, Uruguai, foi o palco de estreia internacional do trio “Três Realizadoras Portuguesas”, como parte das celebrações do Dia da Mulher. O trabalho de José Filipe Costa, “Prazer, Camaradas!”, aguarda por meados de abril para se apresentar na mesma sala.

A partir de 14 de março, Brasil é o destino dos filmes, com a distribuição da Bretz Filmes nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Em junho há previsão de exibição para a capital francesa de Paris, no Cinéma Saint André des Arts, onde contam estrear a sessão numa das mais tradicionais salas do circuito de cinema de autor parisiense. Segue-se Islândia, a Sala Bíó Paradís em Reykjavik, e Berlim, Alemanha, na Sala Wolk Kino, a sala do distribuidor e uma das mais reconhecidas na cidade.

Em entrevista ao Gerador, Sofia Bost, Mariana Gaivão e José Filipe Costa, realizadores portugueses das curtas-metragens “Dia de Festa”, "Ruby" e “Prazer, Camaradas!”, revelam a história e o envolvimento na produção das suas obras.

Gerador (G.) – Falemos sobre o “Dia de Festa”. Como surgiu a ideia desta curta-metragem?
Sofia Bost (S.B.) - O “Dia de Festa” é sobre a maternidade, as relações entre mães e filhas, e trabalha a ideia de uma hereditariedade afetiva, de padrões relacionais que passam de geração em geração. Conta a história de uma mãe solteira com graves dificuldades financeiras que organiza uma festa de aniversário para a filha de sete anos. No decorrer do dia, durante o aniversário da filha, ela recebe um telefonema da mãe e acaba por ser puxada para dentro de um conflito familiar. O argumentista do filme partiu da ideia de uma mãe incapaz de se sentir feliz no dia de anos da filha. O processo de escrita foi uma descoberta: quem é esta mulher? (interpretada pela Rita Martins) O que criou esta situação?

Trailer "Dia de Festa" de Sofia Bost, Uma Pedra no Sapato

(G.) – Quanto à realização do filme, que facilidades e dificuldades encontraste?
(S.B.) - A parte mais fácil foi trabalhar com a Rita Martins, que interpreta a personagem principal. A Rita teve um entendimento intuitivo da personagem e foi ao encontro daquilo que eu imaginava para o filme sem ter de ser dirigida. A maior dificuldade foi filmar em 16mm com um orçamento pequeno: o número de takes bastante limitado e a impossibilidade de vermos o que filmámos durante a rodagem cria alguma ansiedade. Mas o resultado compensou!

"Dia de Festa", Rita Martins interpreta a personagem principal

(G.) – “Ruby” torna-se numa viagem de infância, uma memória. Fala-nos sobre a ideia que inspirou esta curta-metragem.
Mariana Gaivão (M.G.) - Passei os verões da minha infância na Serra da Lousã. Marcou-me muito o lado primal dessa Natureza, os grandes incêndios, as noites de tempestades. Lembro-me de olhar os miúdos estrangeiros que brincavam do outro lado do rio, havia neles uma sensação de liberdade e energia imensas, próximas mas, de alguma forma, inatingíveis, apesar de entre nós apenas correrem uns metros de água. Sempre quis voltar, sentar-me à mesa, fazer parte - o cinema é, para mim, talvez uma forma de reencontrar o mundo, de lhe pertencer de novo. Anos mais tarde, ouvi também os primeiros rumores das festas da comunidade na grande caverna que existe na fronteira entre a montanha e o rio, no Cabril. Essa imagem assombrou-me durante muito tempo, a mistura entre a ancestralidade do espaço e a contemporaneidade dos corpos dançantes, contra a luz do exterior. “Ruby” foi o encontro entre estas várias impressões, centradas na nova geração, já portuguesa, mas ainda estrangeira, que cresceu entre dois mundos, o do interior de Portugal rural e o off-grid dos pais emigrantes, das raves nas montanhas, da comunidade mais livre. O filme acompanha Ruby, de 15 anos, num dia quente de Verão, em que se confronta com o fim da sua infância.

Trailer "Ruby" de Mariana Gaivão, Primeira Idade

(G.) – Durante a conceção e rodagem do filme que facilidades e dificuldades identificaste?
(M.G.) - O filme teve um longo período de pesquisa e imersão local, o único processo com que até hoje consigo filmar. Tenho muitas dúvidas quando defino um filme, que só no concreto do mundo consigo desenvolver. Desconfio sempre que será mais fascinante o que encontrar num caminho de madrugada do que aquilo que possa escrever sobre a madrugada sem a conhecer. E só depois filmar. A dificuldade óbvia deste processo é esse tempo ser caro, tanto mais numa curta-metragem. Portanto, tive de gerir várias impossibilidade e compromissos para ir roubando essa preparação. Mas fi-lo e fizemo-lo. Tive uma equipa muito pequena mas extraordinariamente generosa, que fui gradualmente levando às pessoas que nos tempos anteriores já me haviam recebido à sua mesa. Foi um processo longo e maravilhoso.

A grande caverna na curta-metragem "Ruby"

(G.) – “Prazer, Camaradas!” é simultaneamente um retrato político e humano. Qual o objetivo principal desta curta-metragem?
José Filipe Costa (J.F.C.) - Um casal de alfabetizadores passou-me os seus diários relativos ao período em que trabalharam nas cooperativas da zona da Azambuja, durante o período revolucionário. As passagens que neles mais me fascinaram falavam de intimidade e sexualidade - relações homens-mulheres, a perda da virgindade, o casamento, o aborto. Depois agregaram-se outras histórias que li e ouvi dos portugueses ou estrangeiros que participaram nas cooperativas da região, sendo isto a base do filme “Prazer, Camaradas!”. O filme ambiciona mostrar que a revolução não estava só a acontecer no palco político-constitucional, mas também nas cabeças e nos corpos das pessoas. Além de mudar de regime e de governo era preciso também mudar quem governava em casa e na cama. Os estrangeiros que vieram para a Azambuja queriam mostrar que a revolução liberava os corpos e o modo das pessoas se relacionarem umas com as outras. Tratava-se de libertar o povo não só de um regime que o agrilhoava, mas também de velhos hábitos: quem é a cabeça do casal lá em casa? Quem tem prazer nas relações sexuais?

Trailer "Prazer, Camaradas!" de José Filipe Costa

(G.) – Que facilidades e dificuldades surgiram na conceção e rodagem do filme?
(J.F.C.) - Os atores não profissionais, de algumas aldeias da Azambuja, foram os grandes facilitadores da conceção e da rodagem do projeto. O filme é o que é porque lhes foi dado poder para brincarem com as situações dramáticas que lhes propus.  Fizeram-no com uma generosidade e ironia ímpares. No dia a dia das filmagens, este grupo de atores com 60-70 anos, impressionou a equipa de filmagens com a vivacidade e a pertinência das suas palavras e gestos, nos diálogos e nos seus comportamentos, sempre em plena invenção e encantamento. Trouxeram ao filme um vocabulário pouco ouvido, uma gestualidade pouco vista, quando lhes tínhamos pedido que espicaçassem a memória para fazer-nos ver outros tempos e linhagens. Deles recebemos a ideia de que há ainda um Abril que fica por cumprir nas formas como nos relacionamos e nos entendemos. A maior dificuldade foi gerir um orçamento feito para um documentário, quando o que estávamos a realizar era uma semificção, com adereços e décors, e com um número considerável de atores, o que exigiu uma logística mais complexa e cara.    

"Prazer, Camaradas!" casal de atores da curta-metragem de José Filipe Costa

A internacionalização do cinema português é movida pela ambição do reconhecimento das obras nacionais pelo mundo, atingindo novos públicos, novos contactos para projetos futuros, novas formas de partilhar histórias e realidades culturais. Retomamos a conversa com os três realizadores, Sofia Bost, Mariana Gaivão e José Filipe Costa, agora numa perspetiva de análise desta viagem internacional.

(G.) – Que expectativas se levantam para a estreia nos próximos países?
(S.B.) - É um percurso incrível para uma sessão de curtas-metragens. Em termos de distribuição já ultrapassou todas as minhas expectativas.

(M.G.) - Espero que os filmes sejam bem recebidos, no sentido destes três olhares distintos, três pequenas janelas momentâneas sobre mundos particulares, poderem encontrar abertura em sítios onde, de outra forma, não seriam conhecidos. A ideia daquela montanha em particular, aquele rosto único, aquele mar de corpos dançando sob a luz do fim de dia na caverna antiga, poderem renascer por momentos numa outra sala escura, uma outra caverna, perante olhares desconhecidos em Berlim, ou em São Paulo, ou na Islândia, é muito bonita, quase mágica. Talvez pareça um deslumbramento desligado da aparente facilidade de comunicação atual, na sua constante partilha de ecrãs, mas a dimensão da tela de cinema e o anonimato cúmplice da sala escura alteram a nossa disponibilidade para nos entregarmos aos filmes, de uma forma incomparável. É para essa amplitude que trabalho, mesmo numa curta-metragem, portanto a expansão da distribuição no seu formato original a outros países alegra-me muito.

(J.F.C.) - Gostaria de levar um pedaço de uma história por contar e de um mundo por descobrir a espectadores que pouca oportunidade têm de entrar em contacto com outras cinematografias. Que eles possam ver um grupo de atores em ação com uma idade e uma postura que não são assim tão visíveis no cinema. E que possam entrar num jogo lúdico que o filme lhes propõe jogar.

"Dia de Festa", curta-metragem de Sofia Bost

 (G.) – A internacionalização do cinema português é uma ambição ou uma necessidade?
(S.B.) - Se quisermos filmar com orçamentos maiores é uma necessidade, no caso das longas-metragens. A estreia comercial de uma curta, tanto a nível nacional como internacional, é uma raridade. A exibição de curtas costuma ficar limitada aos festivais de cinema.

(M.G.) – É uma consequência feliz de todo o muito trabalho envolvido, tanto nos filmes como no caminho feito pelos distribuidores, que muito lutam por esse crescente espaço e reconhecimento. A Pedra no Sapato tem feito aqui um trabalho incrível.

(J.F.C.) - Ambas. O cinema português, na sua diversidade e abertura ao mundo, é uma forma de abrir horizontes aos que o possam ver em vários lugares do planeta. Não creio que isto se aplique apenas ao cinema português. A internacionalização de pequenas cinematografias contraria a monocultura fílmica, composta pelos blockbusters de origem anglo-saxónica, que, como eucaliptos, secam tudo à sua volta. É necessário os povos se verem e saberem identificar nas suas diferenças e semelhanças, e o cinema é um potencial gerador de encontros entre culturas. Algo se perde quando a referência principal é um só tipo de cinema, com um só tipo de linguagem e de cultura, um só imaginário.

"Prazer, Camaradas!", curta-metragem de José Filipe Costa

(G.) – Que vantagens se adquirem dessa internacionalização?
(S.B.) - A distribuição internacional, se for bem sucedida, além de divulgar o trabalho gera um maior interesse para co-produções em projetos futuros. É essencial captar fundos fora de Portugal para podermos trabalhar com orçamentos maiores.

(M.G.) - Ao que já referi sobre a primordialidade do formato de sala de cinema, parece-me simples a noção de que quanto mais um filme for partilhado e vivido, mais cresce, e mais espaço se abre a novos olhares no (e sobre o) mundo.

 (J.F.C.) - A vantagem é a de se abrirem portas para outros públicos e para outros mundos. O filme adquire várias vidas em diversos lugares e isto enriquece o seu percurso. Esperamos também abrir a porta para que outros filmes portugueses se internacionalizem.

Texto de Ana Mendes
Fotografias da cortesia de Uma Pedra no Sapato

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