Encontrámo-nos no Rossio, a última paragem da linha de Sintra, a linha “invisível”, como Tristany a descreve. O vaivém, do qual conhece cada estação, tem-se espreguiçado, porque, na verdade, a sua música é “música do mundo”. Tristany tem uma caminhada pausada, contrariamente à minha. No Largo de São Domingos, entrei no seu ritmo. Sentámo-nos num banco verde, na Praça da Figueira. Reparei na sua bonita mala, que era da avó, e nas suas calças pintadas por Onun Trigueiros, que, juntamente com Rui Janga, ilustrou o seu álbum de estreia, MEIA RIBA KALXA, lançado a 4 de Junho de 2020, o qual é uma partilha do seu caminho entre os 19 e os 24 anos de idade, embora, este não tenha um princípio, nem um fim, como nos dirá. Também as respostas não são rápidas e fica um tempo acolhendo as perguntas, numa profundidade e sensibilidade que nos contam que há um longo diálogo com a vida. Escutamo-lo nas suas músicas, como se de mosaicos de vozes, movimentos e imagens se tratassem, recolhidos ao abrir a janela e que, no dia 2 de Outubro, se espalharão no Teatro São Luiz, no ciclo da Galeria Zé dos Bois.

Gerador (G.) – Comecemos pelo sonho. É um elemento importante no teu trabalho. Cresceste na linha de Sintra. Consideras que as comunidades mais afastadas do centro, entendendo-se por “centro” algo mais dilatado do que o contexto geográfico, mas social e político, têm uma relação particular com o sonho?

Tristany (T.) – Sim, porque é o sítio onde as pessoas vão dormir. Então, acredito que há muitos sonhos que são criados e são projectados durante essas horas da noite. Mas depois tudo o que está em volta… O sonho em que sentido?

G. – Por exemplo, no “Rapepaz” falas da opressão dos contextos onde te moves, uma espécie de condenação, de um destino, que reprime a expansão de possibilidades, que o sonho é…

T. – Isso é fixe porque é uma interpretação tua. Não estou a dizer que não é minha. Acaba por ser minha, agora. E é bué fixe ouvir isso.

[Pronunciei como se se tratasse da conjugação “rap” e “paz”]. Só percebi que era assim dito, quando ouvi algumas pessoas que não sabem o que significa… “Rapepaz” é tipo “rapaz”. Mas isso faz com que mergulhes numa autoria tua e que acabas por descodificar coisas que eu nem disse a pensar nisso. Mas, sim, sinto que está relacionado com o sonho, mas não com o sonho físico, I guess. Às vezes, acaba por ser naquilo que é vivido. Sonho… Porque é que aquilo será um sonho? Isso é uma boa questão…. É que eu não queria dizer que aquilo é um pesadelo, mas acho que não há um sonho. Aquilo é uma voz do que, talvez, o nosso inconsciente vê. Porque, mesmo aquilo que está ali depositado, contradiz-se, às vezes, bué com a minha própria pessoa. Às vezes, também me posso sentir assim, vou naquela corrente…

G. – É muito bonita essa imagem do sonho como uma voz do que o inconsciente vê…

T. – É uma beleza que, de todo, não quero que seja romantizada. Realmente, a vida é bonita, as pessoas são bonitas, as montanhas, os prédios… Tudo aquilo que surge no universo. Por isso, os vídeos tinham de ser bonitos ou a música tinha de ser projectada dessa maneira. Mas gostava bué e pedia que não vissem a beleza só em 2D e que conseguissem perceber que, no fundo daquela beleza, que pode ser os meus olhos ou os olhos de quem vive, tem por detrás bué cenas, não vividas apenas na minha pessoa, até mais pelas pessoas que estão à minha volta.

G. – Uma vivência comunitária? No sentido em que transpostas os/as outros/as contigo…

T. – Eles é que me representam. No dia em que conseguir representar alguém através de algo, acho que vai ser só no dia em que deixar de viver. Sinto, então, que quem está a fazer isto são as pessoas que estão a viver comigo…até tu. É uma representação autónoma. Comunidade…. Há muitas pessoas que não se vão rever naquilo e que podem ser os meus vizinhos.

Sou muito confuso a explicar.

G. – Acho que a confusão é sinal de saúde, significa que procuramos, que nada está arrumado, porque uma vida organizada é uma vida domável…

T. – Acho que era fixe dizeres isso.

G. – Recordo “Rapepaz”: “A culpa não é minha, meteram me aqui/ Esta é a minha prisão, nunca vi grades mas senti/ Há tanto ódio nas nossas vidas/ Diz-me leal ser normal tua sina/ Diz-me se gostas da jaula em seguida.” Porém, o volume da tua música está a subir e a entrar em espaços onde deseja chegar, furar, como o Teatro Municipal São Luiz. Sentes este momento como um despiste desse destino, uma abertura?

T. – Para ser sincero, nem conhecia o São Luiz…. Só para veres o quão longe é de mim. Mas é uma coisa que tem de ser normal. Não me importo de lá estar, mas o que me está a intrigar mais é quem está lá a ouvir a minha música, a cultivar-se. Eu também me vou estar a cultivar. Vai ser um dia fixe, um dia bonito.

G. – Apesar de não te encaixares e a tua experiência artística ter um movimento de alargamento, um espreguiçar, há um traço mais carregado do teu percurso como criador, que é o biográfico. Queres dar a ver a invisibilidade da Linha, mas há algo que queiras mostrar também à Linha?

T. – Assim como o comboio vai até ao Rossio, o comboio vai para Sintra. Quem entra no comboio, de manhã, que vai para Sintra, sente que o comboio tem uma energia diferente. Vês pessoas estrangeiras, europeias, asiáticas, que fazem um trajecto para as zonas turísticas. Mas o comboio, que parte à mesma hora, da zona de Sintra, tem uma energia completamente diferente.

Sabes, às vezes, sinto que é uma cena bué curiosa. Como disseste, o espreguiçar. Um alentejano, quando sai de casa, é muito mais provável que fale dos sobreiros, das oliveiras, da natureza e de como a vê …. Estou a ser bué cliché… E esta é a minha natureza. O que, às vezes, sinto bué é um discurso que me prende bué ao lugar. É a minha música ser “a música da periferia”. Faço a minha música, porque olho para a janela, saio de casa, e isso reflecte-se. Mas a minha música é uma música livre, do espaço. Então, às vezes, é bué aprisionador quando me atribuem logo uma responsabilidade política.

Mas também tenho de saber o meu lugar em certas coisas. A minha música é do mundo. Não tenho de ser a representação de vários seres, mas o que é certo é que eu faço música e construo música juntamente com as pessoas, e nós somos as pessoas daquele espaço. Mas quero que, um dia, se viver num Alentejo, fazer música daquele espaço e que não me seja rotulado.  Mas, por exemplo, o Conan Osiris, com todo o mérito, cresceu no Cacém. Há contextos diferentes, mas acredito que, se fosse outro corpo a fazer uma música, ele era já representação. Com todo o respeito ao trabalho dele….

G. – Cada pessoa representa-se a si mesma…

T. – Exacto. Isto foi uma construção na minha atmosfera, na atmosfera das pessoas que construíram isto comigo, porque isto não é uma coisa só minha. É do Onun Trigueiros, do Diogo Carvalho, do Ary, da Nael, da Melissa… sei que me estou a esquecer de muitas pessoas que trabalharam juntamente comigo. Isto é uma representação de nós, que tem só essa particularidade, essa denúncia.

G. – Não és apenas rapper, não segues os cânones deste género, e também, dentro da música, o teu território é híbrido. O teu movimento é de ampliação, com uma densidade poética que abre potenciais caminhos. O que diz este aspecto sobre o teu percurso?

T. – Isso é uma boa pergunta…. Diz que ele, possivelmente, nunca teve um início nem um fim. É só a descodificação de certos códigos e certos enigmas, que as gerações anteriores proporcionaram, inconsciente ou conscientemente. Em termos de percurso, destino, visualizado, é bué difícil de responder. Mas, olhando para trás, vejo bué uma questão de escolhas e de estímulos que foram e são muito importantes para conseguir ter vontade e estar feliz a ver as coisas construídas. Ya, isso é o que dá mais prazer, é ver todo o processo, porque tu visualizas a cena, acabas por sonhar, mas quando a realizas, o que te deu mais gozo…. E depois até te sentes um pouco cansado e não celebras tanto como pensavas que ias celebrar. Não sei se é porque o ser humano é um ser ambicioso ou não…. Valorizo bué o percurso, sendo ele um processo, e que vai continuar a ser.

G. – Esse cansaço final, num percurso criativo, evoca a imagem de nascimento. Esse gesto com uma intensidade muito grande, quando algo vem ao mundo, e depois o cansaço… A obra, na verdade, é um nascimento, porque algo novo chega…

T. – Ya, ya. Era possível meteres essas coisas que tu dizes, na entrevista? Acho que essas observações são nices…. Dava, assim, um podcast escrito. É mesmo… A gestação…

G. – Estavas a falar de um enigma trazido pelas gerações anteriores. O que é?

T. – Eu também não sei. Acho que é a maneira como olhas para as coisas. Não, quando tu vês. O olhar é o momento, é como uma foto. Mas, estar a ver, já está para além de. Já estás a admirar. Mas, em relação a esses enigmas, não sei…. É só a continuação. É só todo o bebé a ser gerado…

G. – A propósito dessa dimensão, lembro-me de uma expressão que utilizaste numa entrevista ao Rimas e Batidas, falando sobre o aparecimento de “Mô Kassula”, sobre o processo de criação: “É uma coisa bué hormonal”. A tua criação é uma espécie de escrita do corpo? É desse lugar que parte?

T. – É, sem dúvida. O nosso cérebro é físico. Somos só físicos.… Depois, há outras questões.

G. Apesar de te apresentares como “Tristany”, o teu trabalho é, podemos dizer, comunitário, não só porque é concretizado com amigos, a partir de uma profunda partilha, mas também porque é das comunidades, que são a “Lisboa adormecida”, como dizes numa entrevista ao Rimas e Batidas, de que parte, o que passa, fortemente, pelos videoclipes, que são retratos destas, das ligações entre as pessoas, cuja forma de vida se encontra nalgo que vai além do espaço de coexistência… Qual a importância de trabalhar “com”?

T. – Assim como trabalhas para o Gerador… Para tu estares aqui, a fazer uma entrevista, tem de haver toda uma gestão de recursos, equipamentos…. Vai lá estar o teu nome, mas, se não fosse o programador do site, a cena não andava para a frente. Foi o processo… Foi bué importante chegar a casa do Diogo, mostrar-lhe “O Menino Ke Brinkava com Bonekas” e ele dizer-me “Tristany, isto está uma merda, não gosto nada disso”. “OK, tens razão”. Fui outra vez ao cota que misturou, o sr. Luciano, o pai de uma pessoa que também participa no álbum, o Nike. Ya, foi fixe. Depois, voltar a mostrar-lhe e ele - “agora sim”. E se me dessem um videoclipe para fazer daquele som, se calhar, não fazia nada assim. Até te dou um exemplo, o “Rapepaz” fui eu que, inicialmente, fiz a direcção e estava a ser uma cena completamente diferente e ele chegou e disse-me, “isto não resulta assim. Acho que era mais assim”. E eu disse, “era isto. Eu não estava a conseguir…” E o Onun com as imagens… a maneira como monta e desmonta. O Ary, no processo do som… O próprio Chullage, em todo o conhecimento e na captação das vozes… São todos bué importantes…. Os meus pais, o meu irmão…

G. – E isso também se vê nas pessoas que trazes para os videoclipes…

T. – Por exemplo, nos canais de televisão, não vejo a generalidade representada no meu corpo. Só isso é bué denunciador. As pessoas vêem-se todos os dias na televisão. Estão a andar na rua e vêem-se nos outdoors. São as nossas vidas… E aquilo é uma cena bué normal. Mas é curioso ver como uma pessoa branca que se vê numa novela nunca vai dizer que aquilo é a comunidade dela, mas sim, inconscientemente, está a sentir-se representada. Aquilo [videoclipes de Tristany] é uma plataforma que está disponível.

G. – O álbum Meia Riba Kalxa foi gerado ao longo de cinco anos. Como é que o tempo é vivido na tua experiência enquanto criador? Que caminho esses cinco anos contam? Reflecte-se na organização do álbum?

T. – É uma estação de comboio. Mas olhando para o deserto, em sou apenas um grão. Fecha aspas. E nesse grão está muita coisa. Levou cinco anos, mas teve de levar. Foi a vida. Foi o tempo em que comecei a conhecer-me, a namorar comigo mesmo, a fazer amor com outras pessoas, para criarmos este ser. É uma viagem, e ainda é. No São Luiz vai ser uma viagem, uma interpretação ou um caminho dessa viagem. Num outro possível concerto, há de ser outra estação. Mas há de também morrer e transformar-se. A morte é uma cena fixe. Imagina lá o mundo sem morte, a morte natural. Já somos bués. Agora, imagina se ninguém morresse.

O seu percurso, enquanto músico, começou nos Monte Real.

G. – Em muitos dos teus vídeos, existe um movimento de colagem de imagens, que activam uma espécie de memória, ou arquivo, de situações e rostos, algo que, paralelamente, surge na música, nas faixas em que captas conversas entre amigos. Procuras que a imagem esteja em consonância com a música, a partir do fragmento?

T. – É propositado, mas não é aquele propositado de “no minuto x, quero isto”. Pode ser bué planeado como pode ser a diversidade do caminho que nos leva. Também tem bué que ver com as pessoas com quem trabalho. Na música faço isso, depois começa a fazer sentido, porque o Onun aplica aquilo, o Ary fez aquilo, as pessoas com quem estava a viver disseram aquilo. Se calhar, elas nem quiseram dizer aquilo. A maneira como aquilo foi colado…. Isso também era fixe de se ver, como o poder da colagem tem bué influência nos nossos dias, como molda a opinião. Pego ali, ali, construo uma cena e aquilo é uma opinião. Se calhar, a pessoa nem quis dizer aquilo, nem se revê na minha música, nem nos meus vídeos. Mas isso é fixe e, ao mesmo tempo, acaba por ser uma provocação.

*Amanhã, dia 18, pelas 21h00, Tristany estará no Festival Todos, no Centro Cultural de Santa Engrácia.

**Texto escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia da cortesia de Tristany