Lost in Translation é o novo álbum do contrabaixista e compositor André Carvalho. O músico traduziu, através da sua música, palavras como Karelu, Kilig e Uitwaaien, o nome do single de estreia que já pode ser ouvido nas plataformas habituais.

“Traduzir o intraduzível através de música que escrevi para o meu novo trio.” É desta forma que o contrabaixista e compositor André Carvalho define o seu novo álbum Lost in Translation. Há palavras que não têm tradução, apenas uma breve explicação. Por exemplo, a palavra japonesa, Wabi-Sabi, que também está presente no álbum, significa aceitar a imperfeição, a irregularidade e a modéstia como atributos de beleza, vendo assim o belo nas coisas imperfeitas e incompletas. André Carvalho escolheu a palavra Uitwaaien, que significa “sair para passear num dia ventoso, com o intuito de espairecer e relaxar a cabeça”, para ser o primeiro single do seu quarto álbum.

A partir de um tropeço no ‘maravilhoso mundo’ das palavras intraduzíveis, André escreveu um ciclo de música inspirado em palavras de mais de dez línguas, como o sueco, urdu, wagiman (atualmente falada por apenas 2 pessoas no mundo) – “Não só queria escrever música inspirada neste universo tão peculiar como também usar uma instrumentação diferente da que usei nos meus anteriores álbuns. Paralelamente, idealizava um grupo sem bateria, onde o espaço e o respeito pelo silêncio fosse uma constante.”

Depois de Garden of Earthly Delights, em 2019, inspirado no famoso quadro homónimo de Hieronymus Bosch, desta vez André Carvalho convidou o saxofonista José Soares e o guitarrista André Matos, músicos com quem tem colaborado nos últimos anos e que formam, assim, o core do grupo. Nalguns dos temas, junta-se ao trio o jovem trompetista João Almeida.

O álbum Lost in Translation sairá no dia 15 de outubro, pela editora americana Outside in Music, e já tem data marcada para nos levar a perder num mundo para lá das palavras que conhecemos, com um concerto no dia 14 de outubro nas Galeria Zé dos Bois, no dia 15 de outubro na Casa da Cultura de Setúbal, no dia 16 de outubro, na Casa da Música do Porto e no dia 17 de outubro no Salão Brazil, em Coimbra.

Em entrevista ao Gerador, André falou-nos da sua relação com as palavras, a sua viagem pelo mundo da música e o que podemos esperar de Lost in Translation.

Fotografia de José Sarmento Matos

Gerador (G.) – Este é o teu 4.º disco, acredito que o culminar também de todas as experiências que estes anos de música te têm trazido… Como tem sido esta jornada musical?

André Carvalho (A. C.) – Tem sido um mundo de descoberta, não só de música, pessoas e outros sítios que vou conhecendo – porque já vivi noutros sítios fora de Portugal –, mas também uma descoberta interior sobre o que faz sentido para mim artisticamente. É uma constante descoberta que me surpreende na verdade, estar sempre com a curiosidade em alerta para coisas que eu não conheço e que me despertam uma curiosidade, coisas que não faço ideia. Normalmente, quando há qualquer coisa que não sei e me desperta algum interesse eu quero procurar e saber como se faz, e, na música acontece-me isso – quero saber como a música se constrói, o que a pessoa toca e como toca. Esse lado da curiosidade está sempre em alerta, por isso tem sido uma viagem, sempre a descobrir coisas novas.

G. – Uma das tuas músicas chama-se Wabi-Sabi, uma palavra japonesa, que significa a beleza da imperfeição, a imperfeição na assimetria, na simplicidade. O teu disco é uma mescla de influências. É isso que o torna tão belo?

A. C. – Essa mistura de várias influências acho que é enriquecedora, não só para mim que faço música, mas espero que para as pessoas que ouvem porque acabam por encontrar um conjunto de emoções diferentes, mundos e paisagens diferentes em cada música (ou assim espero), e acho que isso é bom. Na vida temos um pouco disso, não estamos sempre alegres e tristes, há um conjunto de emoções que vivemos todos os dias e esse conjunto de emoções diários é que nos completa, e eu acho que um disco tem de ser um pouco esse género, não pode ter só coisas contemplativas, às vezes precisa de um murro no estômago, coisas diferentes, contrastes. Talvez (este disco) seja fruto das influências que fui tendo ao longo dos tempos, sujeito a vários meios e várias formas de fazer música.

G. – Como tropeçaste neste mundo das palavras intraduzíveis?

A. C. – Primeiro, sempre gostei muito de ler, não estando necessariamente relacionado com palavras intraduzíveis, mas a palavra sempre esteve presente, e depois sempre fui um pouco curioso por línguas. Também por, numa idade mais tardia, ter começado a aprender uma terceira língua – o alemão –, porque vivi na Áustria durante quatro anos e o facto de ter começado a aprender uma língua mais tarde, fez-me olhar para as línguas de outra forma. Nessa altura em que comecei a aprender uma terceira língua despertou-me a atenção para as palavras em si, para as coisas que são características e únicas de cada língua. O facto de ter conhecido e vivido em muitos meios diferentes também influenciou. Esta curiosidade pelas palavras e culturas sempre esteve cá e, um pouco antes da pandemia, acabei por descobrir um conjunto de palavras e livros relacionados com palavras intraduzíveis e achei que seria um tópico giro para desenvolver e para escrever música inspirada num conjunto de palavras.

G. – Wittgenstein diz que, “os limites da minha língua significam os limites do meu mundo”, ajudou-te a ver o mundo de outra forma?

A. C. – Sim, sem dúvida. A singularidade de cada cultura e de cada língua está cada vez mais presente no meu dia a dia ou na minha maneira de ver as coisas. Acho que é uma quote incrível e que me faz todo o sentido. Temos as ideias e a maneira como imaginamos a realidade tem uma espécie de um filtro que é a nossa língua, e, muitas vezes, podemos até pensar determinadas coisas e não as conseguimos dizer ou expressar, porque aquela ideia precisa de um conjunto de palavras – e mesmo assim há uma informação que nunca atravessa. É giro pensar que noutra língua existe uma palavra para aquela ideia que consegue resumir tudo numa única palavra, de numa forma tão concisa.

G. – Como é que a música pode traduzir essas palavras?

A. C. – Estas coisas são sempre um pouco subjetivas. O que tentei fazer foi pegar numa data de palavras e investigá-las, escrevê-las num caderno e os seus significados, e perceber quais é que, de alguma forma, ressoavam dentro de mim e eu gostava de expressar em termos musicais. Depois foi pensar que género de ambiente cada uma das palavras traduz. Que cores musicais imagino, que texturas quais as ferramentas da música – a melodia, a harmonia, o ritmo, as texturas e dinâmicas –, como é que concetualizo a ideia da palavra e do conceito através da minha música. Cada palavra tentei que fosse contrastante, e cada palava é única.

G. – Neste disco juntam-se a ti, o saxofonista José Soares, o guitarrista André Matos e ainda, nalguns dos temas, o trompetista João Almeida. De onde surge esta ligação?

A. C. – Eu conheço-os de ambientes diferentes. Queria que este projeto tivesse uma formação um pouco diferente. Todos os meus outros álbuns são grupos maiores e este é um trio (em que, depois, o João Almeida de junta em alguns temas), e eu queria algo um pouco diferente, já que é um grupo sem bateria, com imenso espaço, queria dar esse espaço aos músicos e senti que o André era a pessoa ideal para isso. Conheço o André Matos há vários anos e quando fui para Nova Iorque, tentei estabelecer algum género de conexão com ele e, para além de gostar muito da forma de ele tocar, quis estabelecer uma ligação musical com ele e desde que fui para lá começámos a tocar muito juntos. Eu convidava-o muitas vezes para projetos meus, gravámos o meu terceiro disco e desde então estamos fartos de tocar juntos. O Zé, conheci-o quando lancei o terceiro álbum porque não consegui trazer todos os músicos de Nova Iorque. Sempre que tive concertos, chamava-o, tivemos umas quantas tours de lançamento do álbum em Portugal e na Europa e estabeleceu-se uma ligação forte. O João Almeida conheci mais ou menos nessa altura do meu terceiro álbum, porque o nosso trompetista, o Gonçalo Marques, não podia fazer algumas datas e recomendou o João, e achei que fazia sentido convidá-lo para tocar alguns temas.

G. – Para além das tuas viagens e sítios que já pisaste, quem são as tuas influências?

A. C. – Eu comecei a entrar na música, a tocar contrabaixo, de uma forma mais séria já muito tarde, portanto até uma certa idade ouvia muitas coisas que era o que os meus pais ouviam em casa, desde música clássica, algum rock, hip-hop, depois em adolescente, como qualquer teenager, há uma coisa de renegar aquilo que se ouve em casa e procurar o que se faz naquela época por isso comecei a ouvir muito Nirvana, aquele conjunto de bandas de rock do final dos anos 90, princípio dos anos 2000, e foi aí que comecei a interessar-me por jazz também. Tinha um conjunto de amigos, um em particular, que estava a descobrir a música e que começámos a partilhar muitos discos de jazz, ainda não havia Internet. O jazz começou a surgir dessa forma, comecei a frequentar o Hot Clube de Portugal, a ir ver concertos, e foi nessa altura que comecei a achar, “eu quero ser músico”, o contrabaixo era o que queria fazer, e decidi que queria aprender música. Inscrevi-me no Hot Clube onde tive uma influência muito grande do jazz e inscrevi-me noutra escola em Lisboa que se chama Academia de Amadores de Música, uma escola de música clássica. O facto de ter vivido noutros países, também aprofundou. Se me perguntares o que ouço hoje, ouço muita coisa, eu estou sempre a procurar coisas novas, mas também revisito coisas antigas porque é importante, de alguma forma, perceber como as coisas evoluíram, desde Miles Davis, Coltrane, Sonny Rollins, música clássica ou dita europeia, recentemente ando também muito entusiasmado com música para filmes e desenvolvido a minha atividade para curtas.

G. – Já tens quatro concertos confirmados, o que podemos esperar deles?

A.C. – Acima de tudo, ouvir as composições que estão presentes no álbum, mas também que sejam tocadas, sejam únicas, porque há sempre, dentro daquilo que eu escrevo, muito espaço para que hajam coisas espontâneas. Até eu estou com expectativa para saber o que vai acontecer. Sei que vou gostar de estar a tocar com os meus amigos, mas quero que cada concerto seja único, que cada apresentação seja diferente e consigamos arranjar soluções e expressar a música de formas diferentes, que seja sempre fresco.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Vera Marmelo

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