Chegámos a Novembro.

20 de Novembro. O dia Internacional da Memória Trans.

O dia 20 de Novembro é um dia de luta e lembrança desde que a ativista Gwendolyn Ann Smith criou uma vigília para honrar a memória de Rita Hester, uma mulher trans morta em 1998. Nessa vigília recordaram-se todas as vidas trans perdidas nesse ano devido à violência, iniciando uma importante tradição de luta e lembrança. Nesse dia foram, pela primeira vez, lidos os nomes de todas as pessoas trans assassinadas nesse ano.

Se, em 2020, o TMM (Trans Murder Monitor) reportava uma subida de 6% no assassinato de pessoas trans relativo a 2019, contando 350 vidas trans e de género diverso perdidas, 2021 aparece agora como o ano mais mortífero para pessoas trans e de género diverso desde que a TMM começou a recolher dados, em 2008.

Entre 1 de Outubro de 2020 e 30 de Setembro de 2021, foram registados 375 homicídios de pessoas trans, um aumento de 7% em relação à actualização de 2020.

Brasil, México e Estados Unidos continuam a ser os países onde mais assassinatos de pessoas trans e de género diverso acontecem e mais casos foram comunicados pela primeira vez na Grécia, Cazaquistão e Malawi. Também em Portugal, França, Itália e Turquia.

E se prova falta que as nossas lutas têm que ser interseccionais na sua análise política, pensamento e práticas, as estatísticas interpõem-se com urgência. Pessoas migrantes e não brancas continuam desproporcionalmente mais vitimadas. 43% das pessoas trans assassinadas na Europa eram migrantes e 89% nos EUA eram pessoas racializadas. E pensando já na data que se segue de 25 de Novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, 96% das pessoas trans e de género diverso assassinadas a nível mundial eram mulheres trans ou pessoas transfemininas.

O Brasil continua a ser o país que relatou a maioria dos assassinatos (125), seguido do México (65) e dos Estados Unidos (53). Os dados mostram que um total de 4042 pessoas trans e de sexo diverso foram assassinadas entre 1 de Janeiro de 2008 e 30 de Setembro de 2021.

Lembro-me de, antes do meu próprio coming out, ao falar com uma das primeiras pessoas trans próxima na minha vida, ter sentido o coração apertado com o que me contava. Era adolescente e, quando percebeu a sua identidade de género, leu em pesquisas que a esperança média de vida de uma pessoa trans no mundo em que vivemos era de 35 anos, devido à violência, discriminação, exposição continuada a pobreza, falta de acesso a cuidados de saúde, baixo índice de empregabilidade. Restavam-lhe pouco mais de 20 anos de vida, pensou.

Ao longo dos anos, esperançades, vimos diversas leis passarem no parlamento, muito devido ao trabalho dos colectivos LGBTQIA+ deste país e do seu trabalho incansável. Vi cada vez mais pessoas trans com cada vez mais visibilidade positiva, mais profissionais de saúde cada vez mais empenhados no compromisso da despatologização e inclusão, e outras mudanças significativas.

Pequenas mudanças para outros, implicaram grandes avanços para as pessoas trans. Desde a facilidade de mudança nos papéis de registo que significa algo tão simples como, por exemplo, que uma pessoa trans com trabalho, possa usar o balneário correspondente à sua identidade de género, não tendo que se expor a violências nem a preconceitos desnecessários de colegas de trabalho, ou a ter que fazer um coming out forçado por ter que usar o balneário do sexo atribuído à nascença no meio de um processo longo de transição, onde os documentos ficavam para o fim, antes das leis mais recentes.

Foi o que aconteceu a este meu amigo quando começou a ser assediado por um colega de trabalho que não entendia porque é que alguém que se apresentava como rapaz era obrigado a ir ao balneário das raparigas, por no b.i. ainda ter sexo feminino.

Também aprendi que é comum andar no metro / avião ou comboio e as pessoas pegarem no telemóvel e tirarem fotografias a quem quer que não encaixe na sua expectativa de expressão e apresentação de género. Percebi a invisibilidade da “passabilidade” ou suposta conformidade com o binário masculino/feminino quando a isto não correspondes e como te apaga e o outro lado do perigo constante e gritante de seres visivelmente trans ou, pelo menos, não mapeável no binário de género imposto.

Fui cada vez mais aprendendo como, na história e cultura, apagamos ou diminuímos identidades trans. Desde o processo cultural violento da colonização que apagou, entre muitas coisas, a diversidade de géneros existentes nas várias culturas à maneira como a cultura do cinema, humor e televisão sempre retratou as identidades trans.

O CISTEMA de género é violento e baseado em premissas não reais e principalmente que não incluem toda a gente. E começa na pessoa trans que, na série que tanto gostam, serve de punchline humorística, na obsessão constante pelo sexo assignado à criança antes dela nascer, nas narrativas ciscentradas que constroem fechadas. No esforço que não fazem para se educarem, nas mudanças de pronomes que insistem em não fazer porque dá mais trabalho que magoar quem legitimamente vos pede para ser tratade como quem é. Dá mais trabalho dobrar a língua do que pensar e agir de um lugar de cuidado e empatia onde cabe a diversidade do mundo e se educa para tolerar tudo menos quem não tolera.

Politicamente uma vaga de retrocessos avança no mundo, à qual nos cabe resistir.

O que vemos em 2021, é que estatisticamente isto não está a melhorar. E estas pessoas assassinadas não são estatísticas. Têm nome. Dia 20 de Novembro, pelo menos, vão ao site da TDOR ler os 375 nomes. Em Portugal lembremos a Angelita Seixas Alves Correia.

-Sobre Carmo G. Pereira-

Carmo Gê Pereira é/tem um projeto português ligado à sexualidade com workshops, formações e tertúlias, sessões de cinema, ciclos de eventos e aconselhamento sexual. Atua de forma ativista paralelamente. Assumidamente LGBTQIA+, sex-positive de forma crítica tem-se destacado como: formadora de educação não formal, educadora sexual para adultos, na área do aconselhamento sexual não patologizante, expert em segurança, recomendação e utilização de tecnologias para a sexualidade. Formada em sexologia e doutoranda do Programa Doutoral de Sexualidade Humana da FCEUP, FMUP e ICBAS. Mais informação em www.carmogepereira.pt

Texto de Carmo G. Pereira
Fotografia de Ricardo Faria
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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