Nos idos dos anos 90 ainda era possível encontrar nos transportes públicos muita gente a ler jornais e livros. Hoje em dia, nesses mesmos locais, a maior parte das pessoas está a olhar para o ecrã de um smartphone. Este exemplo mostra a transformação do quotidiano e como se alterou a forma de consumir mídia e ler notícias. A informação deixou de ser procurada apenas no papel, na rádio ou na televisão. As aplicações (apps) dos meios de comunicação e as redes sociais (o Facebook surgiu em 2004) passaram a ser um suporte de informação. Existem hoje jornais e revistas exclusivamente digitais, que nunca tiveram vida em papel impresso. Aplicações como o Twitter assumem o papel de veículo de porta-voz utilizado por governantes, presidentes da república, estrelas do desporto ou do entretenimento. O nosso percurso diário de consumo de informação é bem diferente do que era um dia na vida das notícias no final do século XX: hoje acordamos e olhamos para o ecrã do smartphone, do tablet ou do laptop e sabemos logo o que se passa. Procuramos o que nos interessa e muitos sites oferecem-nos informação baseada nos nossos interesses. Tudo isto é bem diferente do que acontecia nessa altura, em que éramos sujeitos passivos do que as TVs, as rádios e os jornais nos relatavam, notícias maioritariamente requentadas. Hoje já não vamos à banca de jornais, espreitar as capas dos diários, olhar para as manchetes - fazemos isso no ecrã de um dos nossos dispositivos móveis. Nesse tempo, há duas décadas, as notícias instantaneamente disponíveis online em qualquer local ainda não eram a regra, os diários em papel ainda eram dominantes e a existência de ligações de internet razoáveis era maioritariamente disponível apenas nos locais de trabalho. Com o alargamento da oferta dos operadores de telecomunicações começou a expansão das ligações domésticas de internet, acompanhando a instalação dos serviços de cabo. Hoje em dia, segundo a Anacom, 88% das famílias portuguesas dispõe nas suas casas de acesso à internet por banda larga fixa, a maioria com routers wi-fi que possibilitam a utilização simultânea por várias pessoas. Por outro lado, a popularização do acesso por internet móvel veio trazer novas possibilidades. O preço dos tarifários móveis desceu e, ao mesmo tempo, multiplicou-se a utilização de redes de wi-fi em restaurantes, transportes públicos, centros comerciais, etc. São raros os locais onde hoje em dia não há um qualquer acesso disponível. E, segundo um estudo da Marktest, no final do ano passado, existia um smartphone no bolso de 89,9% dos portugueses, o que significa cerca de 7,7 milhões de pessoas a utilizarem quotidianamente dispositivos móveis. Em 2012 essa percentagem era inferior a 30%: em menos de uma década tudo mudou. Ainda segundo a Marktest, perto de seis milhões de portugueses seguem regularmente notícias online. Enquanto o consumo on-line de informação cresce, a venda de jornais e revistas desceu, e muito. Na realidade este mundo novo começou a 29 de Junho de 2007. Nesse dia deu-se uma coisa que rapidamente entrou nos hábitos e mudou o dia-a-dia das pessoas: Steve Jobs apresentou o primeiro modelo de iPhone, lançou o conceito de smartphone e deu o pontapé de saída à utilização massiva da internet móvel. É curioso, no entanto, verificar que a introdução dos smartphones teve consequências bem diferentes em várias indústrias. Por exemplo, a música gravada, que era alvo de pirataria sistemática, obteve uma nova fonte de receitas através de aplicações como o Spotify, que permitiu também a proliferação de editores independentes que passaram a ter um canal de distribuição alternativo. Mas já na informação, sobretudo na imprensa, o resultado foi inverso: proliferou a utilização não paga de conteúdos, comprometendo o modelo de negócio tradicional. Um novo modelo de negócio, sustentável, na área da comunicação, ainda não existe. Mas resta também outra questão por resolver: com as notícias a serem disponibilizadas nos sites e redes sociais logo que acontecem, o que as pessoas procuram nos orgãos de comunicação já não é apenas o relato do facto em si, mas sim o seu enquadramento, a sua explicação, a sua interpretação. Além de um novo modelo de negócio começou a ser desenvolvido um novo modelo editorial. Sabemos imediatamente online o que aconteceu, com quem, quando e onde. Mas cada vez mais precisamos saber o porquê, o como e as consequências. A tecnologia que nos dá a notícia de forma instantânea obriga o novo jornalismo a ir mais além do factual do que aquilo que acontecia anteriormente. Não é apenas saber o que é verdade e o que é falso. É saber até onde se pode ir no enquadramento, na opinião. Encontrar o equilíbrio entre uma narrativa que dê explicações e um exercício de especulação é o maior desafio que hoje em dia existe para os jornalistas.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Manuel Falcão-

Manuel Falcão iniciou-se no jornalismo pela fotografia e, ao longo de duas décadas, desenvolveu a sua carreira como repórter e redactor. Foi fundador do Blitz e de O Independente, trabalhou nas Agências Notícias de Portugal e Lusa, no Expresso, no Se7e e na Visão, entre outros. Realizou vários programas de rádio. Dirigiu as áreas de produção de TV e de novas edições da Valentim de Carvalho e foi diretor do canal 2 da RTP. Foi também Presidente do Instituto Português de Cinema, Diretor do Centro de Espectáculos do CCB e administrador da EGEAC. Durante 15 anos, foi Director-Geral da agência de meios Nova Expressão. Em 2013 fundou a editora Amieira Livros, dedicada à fotografia e, em 2020, criou a SF Media onde desenvolve os seus projetos pessoais.

Texto de Manuel Falcão
Fotografia de Paulo Alexandrino
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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