Enquanto escrevo estas linhas, ouço pela casa o sapateado fantasmático das patas da minha cadela no soalho de madeira. Escuto e volto a escutar um rumor canino no terraço, o metódico calcorrear do espaço defendido. Na cozinha, deixo lascas e pedaços de comida no chão à espera da boca que os devoraria. Esqueço a minha mão à espera da humidade de um focinho. Outras vezes, é só o silêncio quando a filha e a mulher não estão em casa. A morada parece amputada ou sou eu que me sinto mutilado, quase como se faltasse fisicamente um pedaço de mim.

Tenho-me lembrado muitas vezes de um Professor Catedrático, já falecido, pai de um amigo de adolescência. Era um senhor formal, importante e reconhecido, que vestia sempre fato e gravata. Essa família comprou um cão e, um dia, deparo-me com um quadro insólito: o lente brincava de cócaras com o cão, desarmado, de súbito, de toda a grandeza e pompa.

O cão, tal como a criança, puxa-nos para o chão e desarma-nos.

O cão desacelera-nos, porque com ele nos esquecemos da pressão para fazer cada vez mais coisas em menos tempo. E não é, tampouco, uma desaceleração artificial, como a das práticas (ioga, meditação…) que nos abrandam apenas para nos permitir recuperar e regressar ao mundo com velocidade redobrada. É entrega ao tempo sem utilidade explícita, não instrumentalizado; tempo que se gasta sem medida e sem preço. Tempo, enfim, que não é dinheiro.

A minha cadela transformou-me. Antes de a ter não compreendia certas formas de amor e de relação. Numa das convenções do meu partido cheguei a votar contra uma moção que pugnava pelos direitos dos animais, porque tontamente pensei que se invertiam prioridades, cego que estava pela lente antropocêntrica. Hoje percebo como uns e outros estão ligados, humanos e restantes animais, numa humilde fragilidade que ignora as arbitrárias fronteiras.

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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