Numa fase como esta em que vivemos, existe, porventura, a predileção de se embarcar em complexos exercícios de análise ao presente, assentes em teses que apenas profetizam sobre o possível mundo de amanhã. Não é que a premissa esteja errada, sobretudo para aqueles que, como eu, entendem que muitas das mudanças que agora se vislumbram já estavam, de alguma forma, em curso.

Há precisamente 78 anos, e apenas poucos meses depois do seu suicídio e do da sua mulher, era publicado o derradeiro e longo ensaio autobiográfico de Stefan Zweig, intitulado O Mundo de Ontem. Neste texto, de uma capacidade retrospetiva irrepreensível, o autor nascido ainda em pleno Império Austro-húngaro entregava-nos um dos mais relevantes testemunhos quer do período que antecede a Primeira Guerra Mundial, quer do tempo correspondente ao intervalo entre as duas Grandes Guerras.

Recupero esta referência por nos revelar dois aspetos importantes: por um lado, Zweig foi capaz de olhar para o passado (igualmente seu) de uma Europa que viu desmoronar-se à sua frente; por outro, e face à catástrofe que se abatia com a guerra, o autor sucumbiu à capacidade de lutar pelo ‘mundo de amanhã’. Deve realçar-se ainda um terceiro elemento, essencial para uma melhor compreensão da nossa história mais recente: os grandes momentos de mudança ocorreram, geralmente, em virtude de acontecimentos que derrubaram ou colocaram em causa paradigmas estabelecidos.

Zweig, Stefan (2014), O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, Porto, Assírio & Alvim, 2014

É notório que este tempo seja visto como catastrófico, pelas consequências práticas em que se traduz, levando-nos a um confinamento desfasado da nossa mobilidade quotidiana. Ainda assim provoca diálogo, reflexão e até um silêncio – por vezes constrangedor. A casa tornou-se num espaço de vivência total, a arte e a cultura passaram definitivamente para os ecrãs que nos rodeiam e o corpo tornou-se um mero objeto oculto do espaço que o acolhe.

Numa entrevista recente ao jornal argentino Clarín, o cineasta e escritor alemão AlexanderKluge faz um exercício semelhante ao de Zweig. Ainda muito jovem, o autor sobreviveu, juntamente com a sua família, ao bombardeamento que deixou Halberstadt, a sua cidade natal, em chamas. Questionado sobre a conjuntura desta pandemia, Kluge retrata-a como sendo uma espécie de ‘hora zero’, semelhante àquela que viveu em 1945 com o fim da guerra. A essa mesma hora – ou ano, se quisermos pensar no célebre Germania anno zero, de Roberto Rossellini – Kluge destaca o mesmo antídoto que nos salvou, de alguma forma, depois desse período fustigado pela destruição: nós próprios.

Estou convicto de que a leitura de Zweig e a apreciação de Kluge são tremendamente essenciais para a perceção do tempo atual. É verdade que Zweig se tornou incapaz de pegar no seu próprio passado para encarar o futuro, mas deu-nos algo essencial: a ideia de que é pelos nossos próprios meios que seremos capazes de construir novamente o que foi destruído. Essa força que se encontra nas palavras de Kluge encontra-se também na voz e nas ações de muitos outros artistas, jornalistas e profissionais dos restantes setores – nomeadamente da área da saúde – que por estes dias continuam a demonstrar que somos o antídoto necessário de qualquer pandemia.

As mudanças que se vislumbram para esse mundo de amanhã têm de ser pensadas a partir deste retrato de ontem. Sobretudo porque acredito que este será um dos primeiros momentos do pós-Segunda Guerra Mundial que coloca, de forma global, um pensamento de mudança aos ombros das diferentes gerações, em especial naquela em que me insiro. Para reforçar esta ideia, saliento as convicções do filósofo, sociólogo e antropólogo francês Bruno Latour que, em virtude do contexto climático em que nos encontramos, juntamente com a atual crise pandémica, adverte que a última coisa que devemos fazer no dia seguinte à descoberta de uma solução (transversal a todos os países) é voltarmos a fazer tudo o que já fazíamos antes de igual forma.

Sendo este um espaço de reflexão – que para mim se torna mais especial ainda, uma vez que a minha estreia pública neste registo, ocorre no seio de situação de total anormalidade – creio que este é o momento para imaginarmos o mundo por fora do nosso, isto é, de nos colocarmos no lugar do outro, de forma plena e sustentável. É tempo de reconstruir aquilo que conhecemos hoje como esfera pública, que deixou de ser a rua e o parque onde nos movimentamos, para passar a ser verdadeiramente um espaço global, uma vez que o contacto entre pessoas de diferentes países nunca foi tão fácil e direto. Seja através das artes e da cultura, da política, ou do diálogo e da partilha de conhecimento, este é um dos momentos mais singulares da nossa história para se pensar no amanhã, para onde devemos partir com os melhores ensinamentos do mundo de ontem.

-Sobre Ricardo Ramos Gonçalves-

Ricardo Ramos Gonçalves nasceu em Castelo Branco, em 1995, mas é em Lisboa que reside e trabalha atualmente como jornalista no Gerador, plataforma de comunicação na área da cultura que lhe permite estar envolvido em projetos artísticos que escapam às próprias fronteiras do universo da comunicação. É licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Ao longo deste tempo de itinerância entre áreas de estudo – que lhe permitiu viver e estudar por um breve período em Pádua, em Itália –, tem-se dedicado e envolvido sobretudo em iniciativas de âmbito cultural, em especial nos campos da literatura, do cinema e das artes visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Andreia Mayer
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