Como todos sabem, a que é considerada a melhor ginasta de todos os tempos, a norte-americana Simone Biles, demonstrou que também é enorme fora dos grandes palcos, como aconteceu nestes jogos olímpicos de Tóquio.

Como resumo simples, Simone marcou presença desde o primeiro dia e dela se esperava tudo e mais alguma coisa, inclusive bater os próprios recordes, algo quase humanamente impossível.

Pois que, com essa pressão acumulada e todos os problemas que desconhecemos do seu dia a dia nos treinos, dos sacrifícios e do esforço a que um atleta de alta competição está obrigado, algo falhou. E, desta vez, não foi o corpo.

Simone demonstrou ser humana, algo para que ninguém estava preparado. E como humana, tem mente para além do corpo. Só que desta vez e pelo que sabemos (o que é sempre pouco), a mente de Simone não estava bem. O que fez a atleta? Assumiu que precisava de tratar a sua saúde mental com urgência. Sim, mesmo na altura em que todos a olhavam e esperavam algo extraordinário.

O que Simone Biles fez pela saúde mental não tem preço. Mostrou que todos, em qualquer altura, podemos sofrer consequências de uma vida de esforço. De uma vida completamente focada em tudo menos no que mais é importante.

A alta competição, seja na ginástica ou num escritório, exige demasiado de quem a vive com consequências dramáticas.

Pensemos um pouco sobre as declarações de Simone, mesmo após ter conseguido duas medalhas nesta competição na única vez que completou um exercício (bronze na trave, prata por equipa): “não sei como me sinto, mas sei que os comandos na minha cabeça não acompanham os movimentos do corpo, ou seja, tudo para mim tem sido uma acrobacia mental (um “twistie”). Estava pronta, foi para isto que treinei toda a vida, mas não estava em sincronia e não consigo controlar isso”.

Simone afirmou que está na hora de tratar dela, de perceber o que se passa, de resolver os problemas mentais, porque fisicamente continua a 100%. Quando lhe perguntaram sobre os próximos J.O. de 2024 em Paris, foi assertiva quando respondeu que nem está a pensar nisso.

A coragem que demonstrou é rara numa super atleta ou num super funcionário que nos habituou a performances fora do normal. Também eles têm os seus limites e a honestidade e frontalidade com que assumiu este problema é um sinal claro para todos nós: será que conhecemos os nossos próprios limites, o impacto do stress diário, da ansiedade, do medo de falhar quando nos comprometemos?

Admitir que não se está bem e que se precisa de ajuda é o primeiro passo para sermos tratados. E quão difícil é, primeiro, termos consciência que estamos mal e, segundo, ter coragem para admiti-lo.

É por isso que este grande passo de Simone é uma eterna medalha de ouro para todos nós, pois fica mais fácil assumirmos que, se ela o admite, quem somos nós para ter receio ou vergonha em fazê-lo.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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