Por vezes tenho a sorte de introduzir um pequeno intervalo mental na absurda loucura deste ano. Um ligeiro escape que me permite olhar de uma forma mais abstracta para uma fase que nunca iremos esquecer e que fará parte dos livros de história dos nossos filhos. Em Portugal e em todas as outras nações, sem excepção.

É extraordinário pensar que todas as pessoas no mundo estão a ter uma experiência semelhante à minha, independentemente dos seus contextos e dos seus locais. Hoje todos partilhamos esta montanha-russa de emoções sem grande disparidade de sentimentos entre nós.

Arrancámos a viagem com uma descida vertiginosa para o desconhecido, sem conseguirmos ver o fundo dos carris, enevoados por uma bruma sem cor, nem forma. Depois fomos sujeitos a curtas e contra-curvas agressivas, a loopings e twists, a altos e baixos, até encontrarmos um caminho em planalto, com uma aparente diminuição da velocidade do carrinho onde circulamos. Chamámos a esse momento o “novo normal”.

O “novo normal” é o assumir que teremos a companhia da pandemia nas nossas vidas durante um período de tempo largo o suficiente para justificar a invenção de conceitos como o “novo normal”. É uma manifestação da racionalidade humana, da capacidade de adaptação e da certeza que temos de afirmar orgulhosamente o nosso rumo.

Este “novo normal” elogia a continuidade, sempre tão vilipendiada pelos imperativos da mudança, como o nosso maior trunfo. Ok, a pandemia está aqui, mas podemos continuar com a nossa vida, desde que tomemos algumas precauções, daquelas que, dizem-nos, não são assim tão complicadas de aplicar.

Na construção desse universo de continuidade, a cultura presta um papel necessário, exigente e responsável. Necessário porque poucas actividades substanciam tão bem uma normalidade como as iniciativas culturais, tendo em conta o seu carácter tantas vezes apontado como dispensável. Exigente porque obriga a comunidade cultural a limitar-se na criatividade, na forma de receber pessoas, na construção da oferta. Responsável porque deve servir como exemplo para outras práticas humanas.

Desde o momento em que se anunciou a chegada do “novo normal” que a cultura tem sido um modelo cívico, não se conhecendo casos exemplares de surtos epidemiológicos resultantes de iniciativas culturais. Tem havido uma efectiva instrumentalização da cultura, bem patente na urgência de tantas figuras políticas em dizer presente, como forma de tranquilizar o povo.

Mas, eis que chega mais um sobressalto na viagem. Desta vez é um loop bem aberto, talvez até maior que outros no início da montanha-russa. Chegamos aos 2000 casos diários e abanamos as fundações do conceito “novo normal” que andámos os últimos meses a construir.

E, claro, a cultura passa a prescindível novamente. Num instante, esquece-se o seu papel tranquilizador e aponta-se-lhe o dedo do risco, da insegurança e, até, da inconsciência. Em poucas horas assistimos ao fecho de espaços culturais e ao adiamento de iniciativas há muito preparadas.

Até uma cidade como Guimarães, que ostenta no peito a medalha de antiga Capital Europeia da Cultura, decide cancelar toda a agenda cultural do concelho de um dia para o outro.

Enganam-se aqueles que julgam que este é um momento para desistir da cultura. Ela é um dos principais contributos para a felicidade da sociedade e é um importante estímulo no combate a uma situação de saúde mental precária. Menos investimento na cultura vão resultar em mais encontros e festas ilegais, esses, sim, causadores de males maiores.

É fundamental que exista uma manifestação política inequívoca afirmando que as iniciativas e espaços culturais não estão incluídos nas medidas recentes tomadas no âmbito da declaração de estado de calamidade.

Temos que continuar a dar passos em frente.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à dimensão de gestão de marcas, tanto na Telecel, onde começou a trabalhar aos 22 anos, mais tarde Vodafone, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 com vontade de fazer cultura para todos.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo no estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como no desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo