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Um quilombo para o refúgio

PÉROLA negra, mulher, brasileira, imigrante, estudante, 26 anos, vive em Portugal há 2 anos.

Uma jovem cheia de idealizações, imaginava como seria uma vida para além do oceano Atlântico, pois bem sabemos que as “histórias” permeadas de narrativas coloniais sequestram nosso imaginário e estabelecem verdades incontestáveis. “Ohhh Europa perfeita, grande pai detentor da mágica transformadora de nós colonos em sujeitos de um destino outrora interditado pela marca histórica, marca essa em nossos corpos enquanto signo”, elocubrou Pérola.

Oriunda das “periferias” da gentrificação das cidades de São Paulo, modelo este muito bem perpetuado e seguido à risca pela lógica colonialista, tornou-se rapidamente notícia em seu pequeno bairro, “Pérola conseguiu, vai para Europa fazer doutoramento!” Essa nêga sempre foi inteligente, era ela a geração que iria honrar nossas ancentrais e adentrar lugares nunca antes transitados. Pérola veio mesmo, com um sorriso branco e uma pele vivaz de meter inveja a qualquer rapariga das terra lusitanas.

Entretanto, apesar de um corpo marcado pelas violências cotidianas no Brasil, e aliás, até muito bem habituado – sabe como é né?! é aquela constatação de Angela Davis, mulher preta, corpo que todas as violências podem ser direciondas, e tudo bem. Deparou-se com um ambiente bem hostil na tão sonhada Universidade. “Não percebo seu Português”, “os brasileiros não sabem escrever corretamente”, diziam os mestres e colegas. “Universidade”, um termo surpreendentemente não muito bem entendido por eles, afinal, universidade deveria comportar o sentido de pluralidade, certo?! Pois bem, Pérola, viu-se diante de todos os tipos de assédios e práticas de silenciamento. Adoeceu. Deprimiu. Sentiu falta de casa, da admiração, da legitimização de suas conquistas para ela tão importantes. E adoeceu mesmo.

Essa é uma personagem fictícia, porém real no sentido em que dividem experiências muito recorrentes, o adoecimento psíquico na pós graduação. Utilizo aqui a metodologia de Escrevivência da Conceição Evaristo, onde compreende que as histórias contadas pelas mulheres se confundem com as suas próprias e a de muitas outras. Igualmente nos casos que atendo, as histórias atravessam a vida de muitas mulheres negras brasileiras imigrantes e que se cruzam com as nossas próprias em certa medida. A principal escolha por esta forma de relatar os casos foi também para preservar as histórias das mulheres atendidas. 

Meu intuito em estabelecer esse diálogo com o leitor é ressaltar a importância do fazer psicológico que leve em consideração as intersecções às quais se encontram mulheres brasileiras imigrantes. Somado a isto, também está a experiência dos estudos de psicologia e relações étnico-raciais, base fundamental de minha prática, a minha trajetória individual (enquanto negra, mulher, imigrante, nessa ordem porque minha cor chega antes do gênero) e, principalmente, sobre a necessidade de se pensar o fazer psicológico cada vez mais crítico, instrumentalizado teórico-metodologicamente pela interseccionalidade. Mas que diabos significa esse termo interseccionalidade? Ele nasce numa perspectiva feminista negra como um conceito da “teoria crítica da raça” da norte americana Kimberlé Crenshaw, da necessidade de se lançar um olhar para as periferias, para a multiplicidade identitária que esses espaços produzem. Em termos práticos, a interseccionalidade prima pelo lugar social que o sujeito fala, lugar que o sujeito se localiza com todos os seus atravessamentos.

Para tanto, trago aqui um conceito muito particular da experiência do negro no Brasil em termos de herança cultural, o Quilombo. Sem muitas delongas, posso de forma muito superficial dizer que o Quilombo remete a ideia de identidade e territorialidade. Um espaço onde outros parecem comigo, um território para quem desterritorializa-se de seu lugar de origem – desterritorialização, termo abordado na Filosofia por Deleuze & Guatari. Também, um espaço democrático, de acolhimento e proteção. Na fuga, os negros abrigavam-se nos quilombos a fim de protegerem-se das violências da escravização. Atualmente, os imigrantes também buscam em certa medida lugares que forneçam minimamente essa sensação. É assim que Pérola achou meu Quilombo, e comigo identificou-se. São muitas Pérolas que chegam até a mim. Eu as acolho, não pela limitação da tal empatia e, sim, por algo soberano, a experiência. Penso o setting terapêutico como uma espécie de Quilombo. Um profissional de psicologia comprometido com as mudanças sociais vive sua prática clínica para além do discurso médico saúde-doença. “Se o corpo é político, a saúde mental também o é.” Frase minha, e repito com veemência sempre que posso.

- Sobre a Shenia Karlsson -

Preta, brasileira do Rio de Janeiro, imigrante, mãe do Zack, psicóloga clínica especialista em Diversidade, Pós Graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, Mestranda em Estudos Africanos no ISCSP, Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no Instituto da Mulher Negra de Portugal, Co fundadora do Papo Preta: Saúde Mental da Mulher Negra, Terapeuta de casais e famílias, Palestrante, Consultora de projetos em Diversidade e Inclusão para empresas, instituições, mentoria de jovens e projetos acadêmicos, fornece aconselhamento para casais e famílias inter racias e famílias brancas que adotam crianças negras.

Texto de Shenia Karlsson
Fotografia de Maria Vasconcelos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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