Neste ano de 2020 a noite das bruxas terá começado em março e ainda não sabemos quando vai acabar. Ao pé do que nos está a acontecer as historiazinhas mais ou menos anglo-saxónicas de Halloween parecem meninos de colo a quem se tira a chupeta.

Mesmo assim não resisto a contar uma história de um susto que presenciei, passada exatamente num jantar que se realizou numa dessas noites ditas “das bruxas”.

Para nos situar no tempo direi que era uma altura em que muito se discutiam os sinais exteriores de riqueza. A crise da especulação imobiliária tinha batido forte na velha europa depois do descalabro nos USA.  

Entrar no Gambrinus pela porta das traseiras ao lado do quartel de bombeiros (onde ainda era possível trazer o carro até à porta), era subterfúgio de quem não queria ser visto na Rua das Portas de Santo Antão, a muita antiga Rua da Corredoura dos séculos passados, bem mais movimentada e dada à calhandrice lisboeta.

Na noite das bruxas desse ano da crise fui com um amigo que não  via há algum tempo jantar ao dito restaurante, mas como o meu amigo tinha vindo de táxi acabou por entrar pela porta das traseiras. Onde viu chegar um Bentley preto com motorista de onde saiu um casal a falar bom português, sem sotaque.

Nessa altura ainda se podia fumar no Gambrinus, no balcão e na sala pequena abençoada pelo retrato a óleo de um grande de Espanha, pendurado por cima da que era a minha mesa favorita.  E como tínhamos trazido charutos foi ali que ficámos.

Por coincidência o “casal do Bentley” ficou igualmente nessa sala. Não me lembro bem do que comeram, mas pela forma pouco familiar com que os empregados de mesa eram tratados deu para entender que o casal não seria visita frequente.

Como a altura era de crise as duas mesas eram as únicas ocupadas naquela sala, pelo que mesmo que não quiséssemos dava para perceber o que se passava com os vizinhos.

Lá para o fim da refeição, enquanto nós puxávamos dos charutos e pedíamos um cognac Gaston de Lagrange (só para conhecedores da casa, pois devia estar na prateleira há mais de 30 anos e era a bom preço) o senhor “do Bentley” pediu um whisky Knockando datado de 1964.

Quando chegou a conta à mesa reparei – pela conversa exaltada entre o casal – que o preço dos whiskys (beberam dois) tinha sido superior ao da refeição completa incluindo os vinhos e as sobremesas.

Palavra puxa palavra, e compreendemos que era aquela uma despesa não planeada e que causaria alguma inquietação às carteiras, pois, por estranho que possa parecer, ou não desejavam pagar com cartão ou não o tinham, o que me parecia esquisito para quem viajava montado em “cavalo” daquela raça.

Não demos pelo fim da ocorrência porque estávamos já de malas aviadas para ir terminar a noite no Blue’s Café, então conhecido pelas festas de Halloween e onde tínhamos já mesa reservada.

Ainda hoje estou para perceber como alguém que viaja em Bentley e com motorista não tem depois meios para pagar uma conta de um jantar.

Bem, seria uma “contonazona”, mas mesmo assim é de estranhar…

A não ser que fosse um casal de empregados do verdadeiro dono do carro, a imitarem o grande António Silva na visita que este fez ao Porto para ver a bola (O Leão da Estrela).

Se assim fosse, imagino o susto ao verem a conta…

De ficar com as calças na mão.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 

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