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Um tumulto, uma ameaça

Nas Gargantas Soltas de hoje, Sara Carinhas fala-nos das desigualdades que encontrou no Brasil e da influência do colonizador português.

Fotografia de João Silveira Ramos

Queridx Brasil,

Tanto que esta carta esperou para ser escrita.

Tanto que demorei a entender nosso enlace necessário, nosso encontro inevitável.

Queridx Brasil, perdão pela nossa soberba, pela nossa ignorância, por a gente ainda achar que você tem de nos compreender, como se a nossa fosse a língua-mãe, descobridores de nada e do tudo o que você já era e a gente tentou deturpar.

Na data em que cheguei a Santos, São Paulo, era Dia da Independência, Sete de Setembro. Portugal tinha sido o homenageado do Festival Mirada - colonizadorxs andando de van do aeroporto para o hotel Borboun, comendo sua tapioca, sua fruta, seu café, levando nosso teatro, nossa língua bruta e fechada, cheia de “lhes” e “vos”, “autoclismos” e “frigoríficos”, nosso fado pesado, nosso queixume inesgotável. Perdão.

Na Praça da Independência, se ouvia uma manifestação caótica pelo monstro cujo nome me recuso a repetir. “Ordem e progresso”, família, Deus e Carnaval. Arame farpado. Palmeira na praia. Menino procurando comida no lixo. A fila na mega-sena crescendo. Centro de beleza e cirurgia. Os fios de electricidade descarnados, estendidos ao longo das ruas, no meio dos prédios, expostos em carne viva. As placas brigando umas com as outras, anúncios, pedidos, marcas. Os shorts, as sacolas de plástico, os carros dos ricos, vidros esfumados à prova de bala, e os apês dos ricos à prova de pobre. “Doe órgãos. Avise a família”. O ar condicionado, encapsulado, fugindo dos 31 graus lá de fora. “Amor preto existe sim” escrito num muro de favela. Existe, sim. 

Dia seguinte, precisei ir até ao mar. No caminho, três quadras acima do hotel, percebo que é outra vez feriado - a Santa de Monserrat sendo celebrada. I. trouxe na mala uma vela, que a gente acendeu debaixo de uma árvore. Passou um menino dizendo: “que a chama nunca se apague”. Tinha, nesse mesmo dia, morrido a Rainha de Inglaterra, notícia ridícula daquele lado do mundo. Que rainha é essa? De que morte a gente está falando? Nenhum sentido.

No caminho, três quadras acima do hotel, em direcção ao mar, três garotas brancas na pré-adolescência, esguias, vestidas de maiô, tutu e sapatilhas, sorriem timidamente umas para as outras, têm frio (ou será pudor?), e aguardam que os carros parem para oferecer alguma coisa que não consegui decifrar. Balas? Panfletos? Na praia passam carrinhos de mão que transportam o mundo todo debaixo do céu - bóias imensas de todas as cores, bolas, doces, pilhas de cartão, cangas, algodão doce, paçoquinha. O corpo aqui é para ser dado ao manifesto mesmo, para ser solto ao sol, sair do concreto ruim e correr para perto da água do mar, do calçadão, do chopinho, das bundinhas, da música que sempre toca algures, e fugir da vida sambando com força e suor.

Como é diferente a vida em frente ao horizonte, né?

De volta, para trás, fujo para dentro da Livraria Realejo e enquanto me encantava com os livros, pessoas entravam perguntando por livros sobre Maria Madalena e a vida de Jesus. “Não vendemos esse género de livros…” Trouxe comigo Zélia Duncan e Djamila Ribeiro. E me senti mais acompanhada. Djamila, dois dias depois, nos ofereceu uma aula brilhante, no SESC, reclamando políticas raciais, descolonidade, empatia como acto de esforço e trabalho diários, pedindo resgate das mulheres na encruzilhada, recusando a nossa mania de tudo naturalizar, sublinhando o problema da linguagem dominante, do saqueamento histórico, do assassinato da cultura de um povo como forma de matar um povo. E ainda assim, você, queridx Brasil, subverte a língua do colonizador, usando o seu português próprio, só usado por você. A gente, com a nossa branquitude quer continuar sendo universal, e é disso que não sabemos abrir mão. A gente não pode “discutir a partir do esvaziamento do debate”, como disse Djamila, com o seu fato laranja, no seu lugar de fala em palco de teatro, ironicamente todo coberto de cenário branco, deixado da peça do dia anterior, com um mapa de Portugal desenhado em grande na parede do fundo de cena.

Conversei muito com R. sobre abuso de poder e democracia no ambiente de trabalho, não só mas sobretudo no nosso. Porque existem pessoas que acreditam verdadeiramente que dirigir um espectáculo é mandar, berrar, mostrar sua superioridade, sua arrogância? Porque acham que a sua equipe não tem limite de cansaço, não tem direito a gestos de atenção, não pode criar verdadeiramente em conjunto? Porque pensam que não podem ter dúvidas, porque não pedem desculpa, porque não falam em “nós” em vez de “eu”? E porque acham que fazer Teatro é imprimir à força, em redor, suas ideias inflexíveis? Porquê a agressividade, a tirania, o chafurdar no sofrimento de todxs ao redor? Porquê tão pouco amor, tão pouca ternura, tão pouca capacidade de observação, de espanto, de paixão pelo mundo? Porquê perpetuar o horror, o pesadelo, a morte de todos os dias? É preciso encontrar outra forma. É necessário começar tudo de novo, diferente.

Queridx Brasil, é necessário um novo começo.

Axé! Te honro de longe já, de uma Paris tão longínqua de tudo o que aqui escrevo de enamoramento por você.

Fui feliz em Santos, e fiz um esforço para fingir pertencer, porque me quero aproximar, não me quero manter onde sempre estive - quero o sotaque, o coração batendo diferente, não quero só a caipirinha, quero conhecer o seu imensurável ser. É do seu lado do mundo que quero aprender a viver. Sua resistência, sua sobrevivência, sua sede, sua energia transformadora, sua música em resposta, sua alegria terna e inteligente, seu abraço, sua multidão, seu “ avesso do avesso do avesso do avesso”[1].

75011, Paris


[1] in “Sampa” de Caetano Veloso

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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