Neste momento particularmente cibernético, acelerado pela pandemia, decidi, ainda que cepticamente, dar aulas de canto online. A resistência deve-se, em certa medida, a sempre ter sido uma fiel adepta das relações de proximidade como coadjuvantes no processo de formação, já para não falar nas questões mecânicas associadas ao desenvolvimento da prática de um instrumento, que exigem amiúde do educador a supervisão e correcção postural. Em boa verdade, sempre me escudei das tecnologias, mas compreendo que os moldes de ensino e aprendizagem tenham sofrido mudanças. Este novo paradigma online trará certamente as suas vantagens, todo um potencial complementar ainda em fase exploratória que já exibe diferenças significativas. Tenho esperança de que este formato possa substituir, no mínimo, as más práticas do ensino dito convencional e contemplar a diversidade da população escolar bem como a sua consequente riqueza, numa óptica inclusiva que reflita a evolução da composição social actual.

Noutras áreas, resisto a certas actividades tecnológicas, talvez por me achar predominantemente amante de gostos mais naturais, para nomear alguns…o gosto pela espessura das folhas de um livro, a sua rugosidade ao tacto, as suas cores impressas no papel, desde as letras às ilustrações, o cheiro do livro novo, do livro usado com os seus infinitos tons que vão desde o branco que fere a vista, ao casca de ovo, à ameaça amarelada até eventualmente chegar ao castanho pardo, o som que o corte da faca produz quando uma maçã está no ponto certo de madureza, a pele salgada e rija depois de um banho de mar, uma parede areada, a dureza e precisão da mina de um lápis acabado de afiar, o ataque das teclas do piano… Serei provavelmente uma hedonista e ritualista, deleito-me com gestos de verdade táctil que o progresso tecnológico não encontrou ainda forma de substituir: o acto de retirar um disco da sua capa, que ao fazê-lo, juntamente com a audição, desencadeia inúmeras sinapses, estabelece uma espécie de portal multidimensional e permite aceder directamente ao acervo das memórias, nas várias fases da vida em que escutámos esse disco e, ao fazê-lo, resgata lembranças que nos ajudam a reconstruir a imagem do que somos. Quem diz livros e discos, pode dizer fotografias, filmes, quadros, frases soltas, cartas, plantas, lugares, uma infinitude de objectos e, claro, as eternas canções que, não sendo palpáveis, têm forma, não sendo olentes, possuem fragrância, não sendo visíveis, têm um alcance imenso e, não sendo sápidas, podem ser saboreadas através de cada palavra trauteada no palato, na língua, nos dentes…

Foi exactamente pela mão de uma canção, Lush Life, na versão do próprio Billy Strayhorn, que fui transportada para este tal universo paralelo e o meu amor pelo jazz, renovado numa cerimónia solene de extrema cumplicidade no meu íntimo. Esta sinapse deu-se com um tema do cancioneiro norte-americano que está revestido de significados históricos, sociais, culturais e, neste caso, pessoais, que, ainda assim, se ressignifica à medida que a vida acontece, daí a tão absoluta certeza de que uma boa canção jamais envelhece.

Propus a uma aluna cibernauta que aprendesse a cantar este clássico, pedindo-lhe que ouvisse várias versões numa perspectiva de melhor conhecer a variedade interpretativa e não ceder à tentação de se cristalizar na versão de alguém de quem gostasse particularmente. Tenho a dizer-vos que é bastante difícil o labor de encontrar a nossa identidade dentro do espaço de uma canção que não escrevemos e à qual tantos bons intérpretes deram já voz.

Eu, no entanto, nunca tinha ouvido o B. Strayhorn cantá-la, cheguei a esta versão por intermédio da tal aluna e confesso que sempre ouvi as suas composições cantadas por outros. Ao constatá-lo, senti-me ligeiramente culpada. Pus então a canção a tocar…nesse instante senti-me recuar 20 anos até outra memória muito vívida: Viagem de Intercidades Barreiro-Faro, a caminho de casa do meu Mestre José Eduardo  (Contrabaixista, pedagogo e compositor, figura incontornável da história do Jazz Português), enquanto lia Gertrude de Herman Hesse e no walkman ouvia o CD do Keith Jarrett “Melody at Night with You”  deu-se um vislumbre de clarividência que me levou às lágrimas: O momento em que decidi ser cantora de Jazz.

Chorei muito.

Se me perguntassem de que era feito o meu choro, teria de responder que era um misto de felicidade, de uma certeza inabalável que me ultrapassa e me fez sentir que a decisão era maior do que eu, uma tristeza profunda por saber o peso que acarreta o legado do Jazz e também por adivinhar a solidão tão profunda que é ser artista.

Escusado será dizer que, passados 20 anos, ainda recomendo o tal disco do Keith Jarrett,  a solo, maravilhoso e com repertório absolutamente indispensável, o livro de Herman Hesse e, sem dúvida, toda a música do Billy Strayhorn.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Rita Maria-

Rita Maria começou a estudar música aos oito anos e desde os catorze a cantar jazz. Estudou canto lírico no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, Jazz na Escola de Jazz do Barreiro, ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no Porto, e também na Berklee College of Music em Boston como aluna bolseira. Passou parte da sua vida adulta entre Portugal, Estados Unidos e Equador. Deambula entre a improvisação do Jazz e a nostalgia do Fado, o Experimentalismo, a fusão com world music e o rock, já tenho partilhado o palco com diferentes músicos e integrando variadas orquestras. É cantora da Banda Stockholm Lisboa Project, lançou, em novembro de 2016, com o guitarrista e compositor Afonso Pais o disco “Além das Horas” e é cantora da banda Saga Cega. Recebeu o Prémio de Artista do Ano, Prémios RTP/Festa do Jazz 2018. Neste momento, está a desenvolver o seu trabalho artístico com o pianista e compositor Filipe Raposo com quem já lançou o primeiro disco “Live in Oslo”, em 2018, e lançará, em finais de 2020, “The Art of Song vol.1: When Baroque Meets Jazz”. Círculo é o mais recente trio colaborativo do qual faz parte e que se estreou em disco a janeiro de 2020 com os músicos Mário Franco e Luís Figueiredo.

Texto de Rita Maria
Fotografia de Alice Bracchi
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