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Uma notícia de rodapé?

“Shireen Abu Akleh, Al-Jazeera, Palestina ocupada”. Antes, esta frase aparentemente sem importância visitava os meus dias sem que alguma vez reparasse nela. Agora, repete-se ininterruptamente na minha cabeça. Segura as minhas pálpebras com força, bloqueando o caminho do sono. A voz, que nunca tremeu perante o fogo, paira sobre a minha memória como se fosse mais viva do que nunca. O cansaço ganha por um instante, mas esta assinatura volta a acordar-me, sacudindo os sonhos longe do meu corpo. É como se estivesse a culpar o descanso por prevalecer no momento em que a palavra em si foi morta e a própria justiça ficou dormente. A minha insónia não se atreve a questionar a tristeza pela perda de uma frase simples proferida por uma pessoa com quem nunca me cruzei na vida. Não ousa interrogar as saudades precoces de um gesto que se repetia à minha frente sempre após a transmissão da notícia de uma atrocidade israelita: Shireen Abu Akleh (pequena pausa), nome de vila ou cidade palestiniana, ocupada (pequena pausa), Al-Jazeera.   

Shireen Abu Akleh, uma das mais notáveis jornalistas do canal Al-Jazeera em árabe, iniciou a sua carreira como repórter de guerra há 25 anos, numa altura em que poucas mulheres escolhiam esse caminho. Sem querer, tornou-se um ícone das jornalistas em zonas de guerra. Meninas árabes que repetiam nas suas brincadeiras e em frente do espelho a frase acima com a qual Shireen assinava as reportagens, conseguiram hoje ter as suas próprias assinaturas. É o caso da jornalista Shatha Hanaysha, que imitava Shireen em criança, acabando por estar ao seu lado quando a última se juntou ao grupo de mais de 45 jornalistas que morreram na Palestina desde 2000.

A voz de Shireen, enfrentando a ocupação e o sexismo, é demasiado sonora e incómoda aos ouvidos coloniais e patriarcais que não toleram uma palestiniana que resiste à sua maneira, longe da imagem que desenharam para as mulheres palestinianas, ora vítimas do sexismo da sua sociedade, ora terroristas. Shireen foi apenas parecida consigo mesma, antes de ser morta por um sniper do exército israelita, no passado dia 11 de maio. Poucos dias antes da comemoração dos 74 anos da catástrofe palestiniana Nakba, a jornalista encontrava-se em Jenin para cobrir mais uma incursão da ocupação israelita quando a bala ardilosa que a pretendia calar ignorou a palavra “PRESS” (imprensa), claramente escrita no seu peito, pausando-se no pequeno espaço entre o colete à prova de balas e o capacete, precisamente no seu pescoço, como se quisesse esmagar as suas cordas vocais antes da sua vida. Queria calar essa voz da verdade que não só transmitia incansavelmente os detalhes sobre apartheid israelita, mas também narrava a própria história de vida de uma jornalista palestiniana que vive sob a ocupação. Uma voz que ficou indiferente à sua própria morte, permanecendo ainda mais barulhenta que qualquer tambor de guerra.

Com a intensificação das brutalidades da ocupação semanas antes da sua morte, a voz de Shireen visitava-me com mais frequência.  Acabava sempre por dar ouvidos à mesma e às suas colegas depois de percorrer todos os canais portugueses à procura, sem sucesso, da notícia palestiniana. Ouvia Shireen sem nunca desistir de procurar a notícia Palestiniana nos canais nacionais. Um dia perante o meu desespero um dedo apontou à tela confirmando o que reflete um raio fino de notícia sobre a Palestina: uma notícia de rodapé!

Não são nenhuma notícia de rodapé os acontecimentos do último mês apenas que não cabem nestas minhas palavras. Só esta semana a força da ocupação israelita utilizou uma menina palestiniana como escudo humano e roubou a vida a dois adolescentes palestinianos em dias e cidades diferentes. Ahed, Ghaith e Amjad não são notícias de rodapé. Uma das poucas notícias em Portugal – talvez a única - que falou da morte de Amjad Al-Fayyed, não colocou o seu nome. Como se ele não fosse pessoa, como se ele fosse em si mesmo apenas um rodapé. É como se as vidas palestinianas não fossem vidas. Como se fossem menos dignas de serem salvas, ou até de uma notícia. Como se o tempo de antena, as palavras e as lágrimas fossem guardados apenas para certas vidas, que ao contrário das palestinianas, merecem o choro. É como se aquela guerra fosse a única guerra, enquanto o que acontece na Palestina são “confrontos”, “violência” ou “uma contenda parte a parte”. Como se os media portugueses fossem capazes de distinguir o invadido do invasor, a ocupada da ocupante, o opressor do oprimido, apenas numa guerra longe da Palestina.

Shireen queria lembrar ao mundo que as vidas palestinianas são vidas humanas. Por um breve instante a sua morte fez com que a Palestina se libertasse das notícias de rodapé para se tornar notícia. Uma notícia sobre uma grande jornalista que não só merece o choro, mas cuja morte espera também uma investigação justa. Do fundo da sua morte ouço Shireen a abrir o noticiário, bem longe do rodapé, ouço sua voz bem clara dizendo: “Shirren Abu Akleh, Palestina ocupada, Al-Jazeera.”

- Sobre Shahd Wadi -

Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010).  Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua. 

Texto de Shahd Wadi
Fotografia de Iman Simon
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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