Há acontecimentos que nos caem em cima, inesperados e dolorosos, que obrigam a parar a rotina diária, a ausentar-nos da operação. Têm o efeito secundário de, se para tal tivermos cabeça e vontade, o que nem sempre é simples, criar um intervalo para reflectir sobre a razão do que fazemos.

Por vezes, essas cogitações levam-nos a concluir que podemos estar a fazer algo incorrecto, que apenas não o detetámos antes porque não tivemos esse intervalo, esse espaço de tempo para pôr em causa. Estivemos, simplesmente, a aplicar os automatismos habituais que preenchem as nossas vidas.

Se conseguirmos, enquanto sociedade, aproveitar esta obrigação de parar a que fomos sujeitos para pensar num determinado assunto, chegar à conclusão de que os nossos actos passados sobre esse tema estão errados, então a responsabilidade obriga-nos a encontrar novos modelos para o futuro.

Ora, eu estou convencido que esse é o caso da praxe humilhante.

Quero começar por aqui: pela diferença entre praxe e praxe humilhante. São dois conceitos, na verdade, muito distintos, que tendem a ser arrastados em conjunto, prejudicando o primeiro, naturalmente.

A ideia da praxe, enquanto processo de recepção de novos estudantes no ensino superior tem imenso valor. Ao contrário do ensino secundário, segregado em função do local de residência, no ensino superior os alunos escolhem para que instituição e local desejam ir. O que, obviamente, implica, em muitos casos, mudar de cidade, mudar de hábitos, mudar de caras conhecidas.

Existir um processo montado que permite acolher os jovens, proporcionando uma rápida adaptação a uma nova cidade, a novos costumes, a novos companheiros, é estruturalmente inquestionável e tem consequências ao nível da saúde mental extraordinariamente positivas. Quantos são os jovens que encontram nas universidades ou politécnicos o conforto para se expressarem, pela primeira vez, de acordo com o que julgam ser, afastados de contextos anteriores que os oprimiam?

Mas, infelizmente, a praxe humilhante também existe. A linha vermelha é ultrapassada quando há um grupo de pessoas que subjuga outro grupo de pessoas. E para que isso aconteça, basta que alguém obrigue outro a ajoelhar-se ou a usar um penico na cabeça, nem falo em ações mais violentas e absurdas.

Percebo perfeitamente que se desconsidere isto, que se assobie “mas isso é apenas uma brincadeira”. Eu próprio, quando passei por esse momento, não tinha essa consciência. Mas hoje, com esta paragem de quase dois anos nas praxes, temos oportunidade de ponderar se estamos a fazer bem e corrigir o caminho a seguir.

Haver um ritual que sustenta a humilhação de um grupo pelo outro, simplesmente porque estão numa instituição há mais tempo, ajuda a oficializar uma lógica de actuação para o futuro. A lógica em que quem está numa posição “superior” está autorizado a humilhar quem está numa posição “inferior”. Um professor pode humilhar um aluno, um chefe no emprego pode humilhar um trabalhador, uma pessoa com poder pode humilhar uma pessoa sem poder. No fundo, estamos a aprender a discriminar.

Esta é uma dimensão que temos de combater. Um local de excelência da aprendizagem e do conhecimento não pode legitimar a discriminação.

Falo agora sobre este tema porque ainda temos tempo até setembro. As janelas deste intervalo estão, finalmente, a fechar-se e ainda deveríamos ter a sensatez de saber o que vamos fazer a partir de agora.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 para criar o Gerador.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo

gerador-gargantas-soltas-tiago-sigorelho