Lembro-me de uma vez em que vi Os Aristogatos em casa, na cassete que acabou por ficar presa no meu leitor de VHS e ditar o seu fim. Essa não foi a primeira vez em que vi o filme, certamente, mas foi a que, por algum motivo, me foi surgindo na memória uma e outra vez. Numa televisão preta, quadrada, um grupo de gatos de rua tocava jazz como se não houvesse amanhã e mostrava a uma gata domesticada, e aos seus filhos, que “todo o mundo quer a vida que um gato tem”. A versão dobrada em português do Brasil, a que tive acesso na minha infância, ficou-me até hoje presente pela banda sonora e por me ter dado a conhecer um género musical a que só mais tarde vim a conhecer o nome: o jazz

Há frases e músicas d’Os Aristogatos de que, até hoje, me recordo. O Gato Pilantra, que não largava o seu saxofone, é uma das personagens icónicas do filme que, com o seu humor delicado, ia convidando Duquesa, a gata domesticada que saiu de casa da sua dona, e os seus pequenos filhos, a conhecerem-se através de novas sonoridades. Esse Gato Pilantra, soube há dias através de uma pesquisa, ganhou vida com a voz de Scatman Crothers, na versão americana, e Monsueto Menezes, na versão brasileira — essa que guardo até hoje. Tanto Crothers como Menezes foram atores e músicos negros, com um legado do jazz e do samba intrinsecamente ligado à sua existência. 

Os Aristogatos, que só vi no final dos anos 90 e no início dos anos 2000, estreou nos cinemas norte-americanos em dezembro de 1970. Cinquenta anos depois, a 25 de dezembro, estreou Soul, um filme onde o jazz e a celebração da negritude passou para um plano humano. Deixou de ser apenas um elemento sonoro numa fábula. Soul, Uma Aventura com Alma, em português, foi o primeiro filme de animação da Disney Pixar com protagonistas negros, e conta a história de Joe Gardner, um professor de música do ensino básico, de Queens, a quem surge a oportunidade de tocar num clube de jazz icónico, e cuja voz, na versão original, é de Jamie Fox. 

Num artigo de Georges Solomon para o New York Times, Pete Docter, o realizador, conta que, juntamente com Mike Jones, trabalhou durante cerca de dois anos para construir a personagem de Joe. Não queriam cair em visões estereotipadas e, a certa altura, sentiram que precisavam de alguém que pudesse acrescentar camadas de autenticidade a Joe. Foi aí que Kemp Powers se juntou à equipa de realizadores e que daí em diante trabalharam com uma série de Organizações Negras, para “garantir que estavam a contar a história de forma autêntica e verdadeira” — são palavras de Murray para o New York Times. A banda sonora, em que o pianista Jon Batiste entra com profundidade, mas onde também se ouve Erykah Badu, é mais uma peça fundamental.

Jamie Fox, Questlove, Phylicia Rashad, Daveed Diggs e Angela Bassett integram o elenco do filme e, ao dar voz a Joe, Curley, Libba, Paul e Dorothea, dão-lhes também Alma. 

Ao longo dos últimos tempos, há poucas personagens negras que ocupam lugares centrais nas narrativas de animação da Disney mas, quando surgem, é-lhes atribuída uma voz de um ator ou atriz negrx, nas versões originais. São exemplo disso Anika Noni Rose enquanto Tiana, em A Princesa e o Sapo (2009), Samuel L. Jackson enquanto Gelado, n’Os Incríveis (2004 e 2018), ou Kyla Pratt enquanto Penny Proud, na série Orgulho de Família (2001-2005). Em nenhum destes exemplos, na versão portuguesa, a dobragem é feita por atores ou atrizes negrxs. O mesmo acontece em Soul (2020). 

Há quem diga que a voz humana é “o espelho da nossa alma” [1]. E, de facto, a voz é um dos elementos mais característicos da nossa identidade. É a peça essencial para imaginarmos alguém como um todo, e a que mais queremos guardar para a eternidade, para recordarmos os que amamos e que deixaram de estar entre nós. A voz, com o seu sotaque, a sua rouquidão e entoação, leva-nos a pedaços da identidade da pessoa que nos fala, sem que esta tenha de os contar. Uma voz é mais do que um simples som. 

Dar vida a uma personagem pela voz tem cada vez menos que ver com o quão bem se consegue chegar perto dessa identidade, e cada vez mais com a relação de proximidade com essa mesma identidade. Uma voz bonita e homogénea, sem sotaque, com uma “boa entoação” pode parecer, à primeira vista, o tiro mais certeiro; mas, a longo prazo, é a que gera menos relação. Em filmes de animação, em Portugal, é recorrente ouvirmos as mesmas vozes, que nos são familiares, mas que por vezes não conseguimos apontar, com certeza, a que personagens pertencem. Como se o grande o fator-qualidade dependesse de quantas pronúncias e tons se consegue imitar. Mas quando não é real, há algo que não bate certo e, do lado de cá, de quem ouve, o que chega sabe a pouco. 

Não dar a voz de Joe, protagonista de Soul, a um ator negro, é perpetuar o silenciamento que bebe do legado colonial. É receber um produto e não perceber que a sua potência transformadora só se faz no seu todo. Porque Soul não é apenas um filme com uma narrativa principal negra, mas um filme que pretende marcar um ponto de viragem numa cultura ocidental marcadamente branca. Joe, Curley, Libba, Paul ou Dorothea querem-se vozes dessa mudança — que deve ser pensada por todxs nós.  

Audre Lord disse, noutro contexto, que “encorajar à excelência é ir além da mediocridade impregnada na nossa sociedade”. Exigir mais rigor das dobragens de um filme de animação como este é perceber que a mediocridade é um padrão que precisa de ser conscientemente quebrado, e que a representatividade é a alma de que precisamos num mundo cada vez mais homogeneizado. Exigir “o máximo de nós, das nossas vidas, do nosso trabalho” é também perceber que até o que nos pode parecer simples tem camadas de compreensão na sua existência, e questionar que lugares nos cabe ocupar ou atribuir. 

No caso de Soul, exigir o máximo era apenas cumprir o plano inicial de um filme em que o elenco se queria diverso, como aconteceu na versão original, mas também na dobragem francesa ou brasileira. A oportunidade de cumprir o máximo estava ao alcance das possibilidades, mas foi desperdiçada; e é um sintoma de um problema maior, estrutural, que vai acontecendo sem ser (auto-)questionado. No silêncio. 

[1] Sundberg, J. (1998). Expressivity in singing: A review of some recent investigations. Logopedics Phoniatrics Vocology, 23
[2] Lord, A. (1984) Sister Outsider: Essays and Speeches. Trumansburg, NY :Crossing Press

-Sobre Carolina Franco-

A Carolina Franco é jornalista no Gerador. Nascida no Porto, em 1997, aprofundou o seu interesse e conhecimento na cultura e na arte enquanto estudou na Escola Artística de Soares dos Reis. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto, viveu quatro meses em Ljubljana, na Eslovénia, onde teve a oportunidade de ser envolvida pela cultura pós-jugoslava e estudar Ciências Sociais. Entre 2018 e 2019 frequentou a pós-graduação em Curadoria de Arte da Universidade Nova de Lisboa – FCSH. Graças a estas experiências, tornou-se mais interessada no papel da cultura na sociedade em geral e nas comunidades locais – uma relação que procura aprofundar cívica e profissionalmente.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Carolina Franco
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