a camisa fora das calças, no abandono do arrumo. olhar para a mala quase desfeita. o armário aberto. a roupa por cima da cama. coisas atiradas pela cadeira e nos cabides deitados ao chão. falar do pullover azul claro meio por baixo da coberta, outro ali ao pé dos sapatos, a t-shirt às riscas despida ontem cerca da porta. não. reparar nas várias peças de roupa à volta. umas estão escondidas nas gavetas, talvez bem dobradas, lavadas, passadas a ferro, há cheirinhos nas gavetas? alfazema? lavanda? pouco interessa para o caso. ter roupa pendurada nos puxadores do armário de parede e na cómoda. calças e casacos sobre a colcha e peças a sair da mala, lenços, boxers, t-shirts, meias, gravatas. tirando o cobertor de cima era mais fácil perceber. é claro, a janela aberta não ajuda, com o vento e as cortinas a bater contra a parede, parecem gatos com cio. esperar um pouco, reparar, pelas sete, não havendo crepúsculo nas folhas da árvore que se vê quando deitado, a persiana levantada, a roupa branca, colorida, suja ou lavada. toda a roupa  parece-me, agora, igual. a camisa que hoje habito continua de fora. à hora do jantar, quando a fome é senhora, ninguém há-de reparar. nem vale a pena tocar mais no assunto.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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