Sediado em Guimarães, o grupo Unsafe Space Garden acabou de lançar o álbum Guilty Measures. Depois de Bubble Burst, este novo álbum começou por “ideias soltas”, que depois de “passados bastantes meses de bater com a cabeça em várias paredes”, rapidamente se tornaram músicas.

A banda é composta por Nuno Duarte, Alexandra Saldanha, João Silvestre e Diogo Costa. Em entrevista, a banda falou do início do projeto, do novo disco, do talento da cidade vimaranense e dos desafios das novas bandas emergentes.

Gerador (G.) – Começando pelo início, quem são os Unsafe Space Garden e como surgiu a ideia de criar uma banda?

Nuno Duarte (N. D.) – Começou a partir de umas músicas minhas que andavam a pairar, não havia um nome, apenas músicas e a ideia de querer fazer alguma coisa. Depois fui mostrando o que tinha a quem estava perto de mim, a Alexandra, o Diogo e o João, e, volta e meia, estávamo-nos a juntar para aprender as músicas, e a coisa começou a ganhar forma. Assim, de uma forma geral: Unsafe Space Garden quer expressar a forma cómica com que nós vemos o mundo. Tem um núcleo duro, eu, a Alexandra e o Diogo; e conta com outros músicos como o João Silvestre, o Pedro Oliveira, a Helena Peixoto e outros que ainda vão aparecer; pela estilista e designer de moda, Catarina Moura e pelo ilustrador João Ferreira, entre muitas outras pessoas fabulosas que contribuem de diversas maneiras para o enriquecimento do projeto de forma passiva.

G. – O grupo acaba de lançar o segundo álbum, Guilty Measures. Como é que foi o processo criativo deste disco?

N. D. – Tal como no EP, as composições são minhas, embora com toques da Alexandra e do Diogo. Foi gravado pelos músicos envolvidos e, quanto à parte técnica, ficou nas mãos do Pedro Ribeiro, que gravou, misturou e masterizou o disco e o EP. Comecei por ideias soltas, desenvolvi-as ao longo do tempo com ajudas aqui e ali da Alexandra, que também mais tarde me ajudou a conceber um fio condutor para o disco. De dezenas de possíveis músicas, restaram as suficientes para compreender melhor a história que queríamos contar e, passados bastantes meses de bater com a cabeça em várias paredes, chegamos a isto. 

G. – Sentem que este disco é diferente do vosso primeiro álbum, Bubble Burst?

N. D. – Sim. O EP era mais um passeio generalizado por umas ideias que andávamos a explorar, como por exemplo tentar traduzir para a música a ideia de que não nos devemos levar tanto a sério, porque isso permite todos os conflitos e injustiças. Mas foi mais ao de leve no EP. O Guilty Measures foi mesmo o existir nesses espaços, em que há um confronto entre o acreditar que não podemos levar as coisas a sério e o estar a levar as coisas a sério porque temos nomes e ambições, o que acaba por se tornar um dos temas mais recorrentes do disco, uma espécie de reflexão acerca do sentimento de culpa que advém de crer em algo, mas nem sempre ser a manifestação dessa coisa porque somos humanos e imperfeitos. Ao nível do instrumental, também me aventurei mais um bocado, depois de meses a converter o EP para ser tocado ao vivo também comecei a compreender melhor que tipo de linguagem faz sentido, e tentei sempre ver quão longe podia ir.

G. – Este novo disco tem o dobro das músicas do que o anterior. Podemos concluir que houve um feedback positivo por parte do público?

N. D. – Não creio que haja uma relação direta entre o volume deste disco em relação ao anterior e o público ter gostado ou não. Nós fazemos isto porque gostamos, independentemente do feedback que estamos a ter, e até agora têm sido feedbacks extremos, ou adoram ou detestam, e por nós tudo bem. Mas como é normal, o início foi bastante silencioso, ainda não tivemos bem a noção do que é que está a acontecer com o que estamos a fazer.

G. – Os Unsafe Space Garden estão baseados em Guimarães, uma das cidades do Norte com maior crescimento cultural nos últimos anos. Como é que olham para esse fenómeno?

Alexandra Saldanha (A. S.) – Achamos ser um claro sinal de que a atenção não deve estar focada nunca num só ponto do país. Guimarães está a rebentar pelas costuras de talento, assim como muitas outras zonas do país, e é necessário descentralizar a cultura e crer que há muito mais pelo resto do país.

G. – Ainda é difícil para uma banda emergente afirmar-se no mercado musical?

A. S. – É bastante difícil, especialmente por surgirem tantas bandas e não haver propriamente uma distribuição homogénea de oportunidades de tocar, que de certo modo é o que depois acaba por distanciar o trigo do joio. Há vários fatores que dificultam a possibilidade de furar. Um dia mais tarde, falaremos sobre isso no “Alta Definição”.

G. – A questão de estarem descentralizados é um desafio ou olham para isso como uma oportunidade?

A. S. – É um desafio sim, como dissemos anteriormente, não deveríamos supor que tudo vai surgir da capital, que infelizmente recebe uma quantidade assustadoramente superior de apoios que não se deve apenas à dimensão territorial. Devíamos visar por criar espaços por todo o país que permitam uma programação frequente e diversificada, para que haja palcos para todos, e público para todos. Caso contrário, perpetua-se o público só de amigos que só vão ver os amigos, o que não beneficia ninguém.

G. – O que diriam a alguém que estivesse a iniciar carreira? 

A. S. – Do fundo do coração, torna as coisas o mais próximas daquilo que és e acredita para que nunca caias no erro de pensar que tens uma carreira ou um trabalho: só é contraproducente, criativamente falando. E, para terminar, boa sorte que não vai ser um passeio no parque, embora pareça que vá lá ter, um dia.

G. – Para o futuro, há algo planeado?

A. S. – Sim, mais concertos e mais música, visto que estamos constantemente a trabalhar em ideias novas! Há muito caminho para devastar.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Bruno Carreira

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