Agosto de 2020 trouxe a notícia — que o Dia da Sobrecarga do Planeta se atrasou, que demorámos mais três semanas do que o previsto até começarmos a consumir os recursos de 2021. Pode ser um marco que passa despercebido àqueles para quem as questões da sustentabilidade não pautam o seu dia a dia, mas se este palavrão ainda parece distante para alguns, esta resistência dever-se-á certamente a uma perceção que não abarca o significado e as implicações do comportamento de cada um, e que a todos impacta.

Se já estamos familiarizados com a noção de que “tudo é economia”, a ideia de que “tudo é política” custa mais a ser assimilada. Se pensarmos que “tudo é cultura”, ainda mais se acentua a dúvida.

De facto, a nossa cultura pauta e é pautada pelas nossas crenças, pelos nossos hábitos, e, por isso, a sustentabilidade das nossas ações dela decorre. Abrangendo as várias formas de expressão, a etnografia conta quem somos e como somos, como interagimos com o Mundo, com os objetos, matérias e entes, explica os nossos critérios de exigência, os nossos ideais. Expressar-se é uma necessidade básica do ser humano que assume as mais diversas formas, numa criatividade sem limites que empurra a tecnologia e a investigação, que acelera uma certa evolução das sociedades.

Subjacente ao adiar da sobrecarga está um urgente convite à reflexão. Fomos forçados a uma situação que virou a realidade de pernas para o ar e que a todos tocou. O PIB caiu, o consumo caiu, os empregos perderam-se… mas a pressão sobre os recursos reduziu e o Planeta aguentou mais uns dias connosco. Vale a pena pensar nisto.

Procuremos ir à raiz do problema. O que causou a pandemia? De onde veio o coronavírus SARS-CoV-2? Este vírus que provoca a doença COVID-19 tem uma origem zoonótica, ou seja, o seu reservatório natural são animais (1). A transmissão ao Homem e a sua posterior disseminação estão relacionadas com a realidade do mundo em que vivemos, em que os habitats naturais são destruídos, a pressão sobre os recursos aumenta e animais em estado selvagem entram na cadeia alimentar humana. A globalização faz o resto.

Citando Damian Carrington, editor da secção de ambiente do jornal The Guardian (2), “falhar ao cuidar do planeta significa não cuidarmos de nós próprios. Uma vez que há vírus bem mais mortíferos na Natureza e que 75% das infeções latentes têm origem na vida selvagem, talvez devamos considerar que este coronavírus é um aviso ligeiro do que acontecerá se não alterarmos comportamentos, pois vemos que a responsabilidade de trazer este tipo de ameaças para os humanos é, exclusivamente, dos próprios”.

Na multiplicidade das expressões culturais, apesar de superlativa, a Natureza é comummente submetida à vontade humana. Nos últimos anos, manifestações climáticas extremas e sucessivos focos de alerta neste nosso Planeta remetem-nos à nossa vulnerabilidade, ditando a urgência da problemática. Esta Pandemia vem relembrar (e esclarecer os mais cépticos) que este nosso lugar no sistema não é tão resiliente e intocável como acreditávamos, que somos apenas seres a quem a Natureza concedeu o privilégio de sermos utilizadores deste Planeta. A Pandemia é mais um alerta que nos impele à ação.

Recordemos as palavras de Wendell Berry, ativista ambiental americano, no seu livro de 1971 “The Unforeseen Wilderness: An Essay on Kentucky’s Red River Gorge”: “não herdámos a Terra dos nossos pais e pedimo-la emprestada aos nossos filhos”.

Neste desafio que atravessamos em conjunto interessa reter que os comportamentos que nos foram impostos em reação à Pandemia mostraram-nos, com muitíssimo estrondo, que existem alternativas, que existem opções e comportamentos que reduzem de forma muito significativa a pressão do Homem sobre o Sistema Terrestre. Cabe agora dar-lhes continuidade, ajustar as nossas rotinas, os nossos hábitos - a nossa cultura! - para que esta oportunidade não se perca, para que não voltemos a comportamentos de antes, porque agora percebemos ser possível fazer diferente.

Devemos elevar o patamar ético das nossas escolhas e consciencializarmo-nos de que o Planeta não é só a Casa do Homem e que o partilhamos com inúmeras outras espécies que também nele prosperaram sem o destruir - e que têm igual direito a existir na Terra.

Se o facto de não vermos resultados com certa rapidez pode ser desmotivante para quem tenta mudar alguma coisa, a velocidade de transmissão desta pandemia e o seu imediato impacto no atraso do Dia da Sobrecarga são evidências de que o NOSSO poder é imenso, determinante e efetivo na mudança. Este marco - que se atrasou porque os nossos comportamentos se alteraram - vem mostrar-nos que é possível caminharmos nesse sentido, no sentido de modos de vida humana sustentáveis que, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades, satisfaça as necessidades presentes. Neste caminho, TODOS somos imprescindíveis.

(1) https://www.ihmt.unl.pt/origem-e-dispersao-pandemica-do-coronavirus-sars-cov-2-causador-da-covid-19/

(2) https://www.theguardian.com/world/2020/mar/25/coronavirus-nature-is-sending-us-a-message-says-un-environment-chief

-Sobre Francisco Ferreira-

Francisco Ferreira é Professor Associado no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-NOVA) e investigador do CENSE (Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade). É licenciado em Engenharia do Ambiente pela FCT-NOVA, mestre por Virginia Tech nos EUA e doutorado pela Universidade Nova de Lisboa. Tem um significativo conjunto de publicações nas áreas da qualidade do ar, alterações climáticas e desenvolvimento sustentável. Foi Presidente da Quercus de 1996 a 2001 e Vice-Presidente entre 2007 e 2011. Foi membro do Conselho Nacional da Água e do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Atualmente é o Presidente da “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável”, uma organização não-governamental de ambiente com atividade nacional.

Texto de Francisco Ferreira e Joana Guerreiro Silva | Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável
Fotografia da cortesia de Francisco Ferreira
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