As regiões do Interior carecem de maior e melhor planeamento, precisam de uma gestão estratégica contínua e têm ainda muito para valorizar, apesar das pequenas melhorias que se têm vindo a verificar.  Há uma necessidade de evidenciar o território mas também de desconstruir as perceções existentes sobre as zonas de baixa densidade, que acabam por sofrer os danos provocados pela ideia coletiva de subdesenvolvimento. Estas foram algumas das conclusões retiradas dos dois primeiros dias de Festival Visit Portugal Descobre o Teu Interior, promovido entre os dias 8 e 10 de abril pelo Gerador.

Entre as temáticas analisadas, destaca-se o foco dado às características socioeconómicas das regiões de baixa densidade, o turismo, as alterações provocadas pela pandemia e as lacunas ao nível da cultura.

As palavras de Rita Marques, Secretária de Estado do Turismo, frisaram desde logo a importância da iniciativa do Gerador para “verificar e avaliar de que forma todos nós podemos ser agentes polinizadores de uma mudança, um mudança importante que, de resto, no turismo já tem sido uma realidade”. No discurso de abertura, a governante referiu precisamente que um dos desígnios da sua pasta “passa por estimular a procura turística a todo o território, contribuindo aqui, naturalmente, para maiores níveis de coesão territorial”.


Tiago Sigorelho, Presidente do Gerador, chamou depois à atenção para a importância de debate contínuo e permanente. “Precisamos de falar regularmente do Interior do país, num esforço que tem de ser de todos os agentes: políticos, jornalísticos, culturais e académicos”, disse o responsável na introdução do primeiro painel do Festival (que se seguiu à intervenção de Rita Marques). “Não podemos pôr este tema na agenda apenas quando nos lembramos das suas vantagens, como foi evidente agora na pandemia, ele tem de estar sempre presente”, declarou.

Autenticidade do Interior com provas dadas no turismo

Foi a partir desta ideia que se desenvolveu o primeiro debate, em torno da Internacionalização do Interior de Portugal. Este painel teve a participação de Luís Araújo, Presidente do Turismo de Portugal e de Tomás Froes, CEO da Partners Dentsu, que tem vindo a desenvolver campanhas para promoção das diferentes regiões do país.

Nesta conversa, que teve a moderação de Tiago Sigorelho, ficou patente a importância de combater a conotação negativa da palavra “interior”, que advém das más notícias que ficaram marcadas na memória coletiva. Tomás Froes, que foi quem primeiro frisou esta problemática, afirmou ser “fundamental moderar esta perceção em termos turísticos e tirar esse peso dessas palavras, que não são valores, são subvalores, a que nenhuma marca quer estar associada”.

Luís Araújo mencionou o esforço que o Turismo Portugal tem colocado no combate à “taxa de sazonalidade” turística e frisou a importância de “promover um país como um todo, mas com as diferenças e diversidades que cada região tem”. Ambos os responsáveis concordaram que muitas áreas de baixa densidade se destacam pela “autenticidade” e que esse é um ativo que está cada vez mais a ser procurado em experiências de turismo interno e externo.

Exemplos dessa mesma autenticidade foram dados durante o rol de entrevistas temáticas realizadas nessa tarde. Tendo como pano de fundo diferentes ativos característicos do turismo no interior, foram mostrados exemplos de sucesso nas áreas de Nature, Culture, Food & Wine, Wellbeing e Living, sob a chancela do Turismo de Portugal.

O interior, as perspetivas distintas e as soluções unânimes  

No segundo dia do Festival Visit Portugal Descobre o Teu Interior foi tempo de colocar o dedo na ferida e avaliar qual O Estado do Interior Atualmente. Neste primeiro painel as visões de Adolfo Mesquita Nunes, Joana Mortágua e Pedro Delgado Alves confrontaram-se, revelando perceções distintas de como deve ser encarado o problema da desertificação e quais as possíveis formas de o combater.

Partindo da sua própria experiência no Interior - pois passou grande parte da juventude na Covilhã – Mesquita Nunes reconheceu que tem havido melhorias na mitigação de algumas das desigualdades, inerentes à vivência em territórios de baixa densidade mas admite que isto só acontece devido ao desenvolvimento tecnológico, que é generalizado. Para o ex-secretário de estado do turismo a “desertificação parece quase irreversível”, motivo pelo qual “temos de olhar para políticas públicas que sejam eficazes”.

Na opinião de Pedro Delgado Alves a dificuldade reside, entre outros fatores, no próprio diagnóstico, já que o despovoamento do interior “é feito assimetricamente”. “Estamos presos a uma narrativa sobre como é que tiramos o interior das suas dificuldades mas estamos a experimentar as mesmas fórmulas sempre umas por cima das outras”, afirmou o o vice-líder da bancada parlamentar do Partido Socialista.

O debate abrangeu temáticas diversas, escrutinadas enquanto problema ou enquanto parte da solução. A regionalização foi um exemplo de tema que trouxe ao de cima visões opostas. Para Joana Mortágua – que admite que essa não será uma solução por si só – a reorganização de competências governamentais que “está prevista na Constituição da República Portuguesa” pode ser “uma forma de aproximar o poder destes territórios e de lhes, provavelmente, aproximar também a gestão de recursos e da decisão” sobre os mesmos.  A deputada do Bloco de Esquerda sublinhou a importância de tornar acessíveis serviços públicos básicos e redes de transporte, destacando que a “racionalidade económica não pode ser o único critério” para a disponibilização de serviços.

Além da economia, também a educação e a cultura estiveram em debate, sendo apontados como as áreas onde existem mais problemas de acesso e de planeamento. “O acesso à cultura não pode estar dependente do mercado”, disse Joana Mortágua, que frisou o sem-número de infraestruturas culturais existentes no Interior atualmente e que não têm qualquer utilidade prática.

Esta reflexão, focada nos problemas estruturais, deu lugar a uma questão mais recente, que inevitavelmente alterou todo o cenário. 

As consequências da pandemia para o Interior foram avaliadas por Isabel Ferreira, André Tomé e João Teixeira Lopes, que concordaram com a ideia que a adversidade pode ser, também, uma oportunidade.

A Secretária de Estado da Valorização do Interior sublinhou que a área que tutela é “socioeconómica” e não uma área geográfica: “Estamos a falar de uma área muito grande que abrange praticamente todo o país”, disse a governante que chamou também à atenção para os efeitos nefastos do fecho de fronteiras para estas regiões.

Isabel Ferreira recorreu à sua experiência enquanto docente do Instituto Politécnico de Bragança para destacar a importância dos politécnicos e do contributo da ciência. “O que importa é termos pessoas, e [falo] de pessoas preparadas e qualificadas, com empregos com salários bons. Isso é sem dúvida o mais importante para conseguirmos atrair" mais população, afirmou.

Todos os intervenientes foram unânimes quanto ao reconhecimento de que a pandemia pôs a nu as fragilidades já existentes no país. Nas palavras de João Teixeira Lopes, “é fundamental combatermos com medidas ousadas o sentimento de isolamento”, de forma a desconstruir “a representação mental, o lado da interiorização do estigma”, disse o sociólogo.

O "pós-covid" deve procurar “abraçar este diálogo com o interior e de uma forma bastante fértil apoiada em projetos que já existem e que merecem ser ainda mais destacados”, disse André Tomé, dando o exemplo do projeto A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. O Técnico de Turismo e Património da Câmara Municipal de Beja deixou sempre muito claro que é importante preservar o património, mas também que não se crie a identidade da cultura local com base numa das suas características, deixando para trás outras dinâmicas e grupos importantes para a mesma.

A cultura e o valor económico que a impede de subsistir

Magda Rodrigues, Rui Horta e Tiago Pereira discutiram depois a Cultura e o interior, começando pelo acesso à cultura e pelas dinâmicas de consumo próprias de cada região.

A responsável pela direção artística do projeto “Comédias do Minho” referiu que não só a digitalização permitiu um maior acesso à cultura, nos territórios de baixa densidade, como permitiu amplificar a mesma. “Os interiores são diversificados e para além disso também existe uma cultura do interior”, explicou.

A disponibilidade de infra-estruturas, que contrasta com a falta de programação, foi analisado por Rui Horta, que afirma que a abundância destes espaços é um “disparate, uma loucura” que se deve à grande popularidade do cinema nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado. “Havia um valor económico” que se degradou com a desertificação, segundo o coreógrafo.

Tiago Pereira sublinhou que “muita cultura despareceu com a pandemia” pois “há toda uma cultura popular e que tem mais a ver com as comunidades dentro dessas regiões, que não têm essa valorização, que estão permanentemente esquecidas”.

A proximidade de eleições autárquicas é, também, para Rui Horta, determinante para mudanças futuras. “Vai determinar em muito aquilo que é a coesão territorial”, afirmou. Já Tiago Pereira, diz que “mesmo as próprias políticas culturais que estão no interior vão ter que se transformar”.


Magda Pereira considera que, apesar de tudo e pelo contacto que tem com as populações, houve já “uma transformação radical” no que respeita à cultura das regiões de baixa densidade, mas admite que os problemas se devem a falta de políticas concretas, a nível municipal e nacional.

As debilidades apontadas à cultura são comuns às preocupações dos mais jovens, que muitas vezes sentem na pele estas dificuldades.

No painel O interior visto pelas novas gerações - que se seguiu - foram destacados problemas intrínsecos dos territórios e também da própria valorização dos projetos, que por ser insuficiente, acaba por ditar o seu término.

Na opinião de Lara Seixo Rodrigues há uma “municipalização da cultura” que invariavelmente dita o destino das iniciativas. A fundadora do Mistaker Maker afirma que isso se deve, em parte a uma “falta de conhecimento e curiosidade acerca do que se passa num determinado território e do que é a cultura, o que é arte e como é que estas ferramentas podem potenciar determinado território”.

Carolina Garfo, ceramista, parte da sua experiência e participação em eventos culturais para assumir a sua indignação com a falta de valorização das poucas iniciativas que se realizam. “É muito horrível quando tu tens todo um documentário, um livro um objeto que consegues mostrar, [que revela] o que aconteceu durante o ano mas como aquilo não trouxe input económico, de capital, então aquilo não tem interesse”, lamenta. Para a artista era possível, por exemplo, criar "dinâmicas de turismo" que acabariam por trazer retorno económico aos municípios.

Miguel Atalaia, por sua vez, diz que a grande maioria dos locais “trabalha a cultura da forma errada”, numa “lógica de serviço”. “A mim interessa-me mais outro nível de envolvimento, acima de tudo”, diz, sublinhando que seria mais importante trabalhar a participação comunitária, ao invés do que chama de "mimetização".

O diretor artístico do Festival Bons Sons sublinha por isso a importância de criar parcerias. “Não me interessa tanto saber quem é que faz a cultura ou quem a promove, interessa-me mais saber quem é que está envolvido depois nos processos de a concretizar”, afirmou. “Se as pessoas se sentirem parte daquele daquele projeto, o trabalho está feito mesmo que depois isso não tenha um retorno [económico] significativo”, disse ainda o responsável, naquele que foi o último painel deste segundo dia de Festival.

Texto por Sofia Craveiro

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