Este sábado, dia 5 de dezembro, decorre a 3.ª edição da conferência Encontros para o Futuro, promovida pelos Estúdios Victor Córdon e subordinada ao tema Navegar é preciso? Sentidos para a internacionalização da dança. A conferência estava inicialmente prevista para decorrer em março deste ano, tendo sido adiada devido à pandemia e devidamente adaptada a um formato online de acesso gratuito, mediante inscrição.

Vânia Rodrigues, gestora cultural, assume a curadoria do evento que pretende discutir processos e estratégias de internacionalização das artes performativas, num debate necessariamente mais abrangente, onde se cruzam problemáticas que atravessam as sociedades contemporâneas. Neste contexto, temas como a sustentabilidade ambiental, as políticas culturais e de território, a (hiper)mobilidade e a cooperação servirão também como motes de discussão.

Em entrevista ao Gerador, na antecipação da conferência, Vânia Rodrigues sublinha os desafios de se transformar um evento que promove o diálogo interpares num formato online – onde se perde a componente do debate presencial –, realçando, no entanto, que a pandemia apenas reforça a urgência de se debaterem alguns dos temas que já estavam inicialmente previstos. Por outro lado, a curadora espera que esta 3.ª edição funcione também como ponto de partida para um pensamento mais estruturado acerca das estratégias que ajudem a internacionalizar as artes performativas de criação portuguesa, melhorando os níveis de cooperação entre territórios.

Gerador (G.) – Esta 3.ª edição dos Encontros Para o Futuro estava agendada para março, tendo sido adiada. Que impacto é que isso teve e como é que foi pensada esta nova versão?
Vânia Rodrigues (V. R.) – Estranhamente a pandemia praticamente não teve efeito no programa desta conferência porque ela na verdade antecipava muitas questões que, eventualmente, agora estamos a sentir como uma urgência e uma pertinência, mas que já eram pontos de discussão. Portanto, o essencial do programa que estava proposto para março é o programa que vamos poder usufruir agora em dezembro, com duas diferenças substanciais. A primeira é a transformação no online, que transforma pelo menos a possibilidade de diálogo interpares. Falo do diálogo formal, no sentido de colocares uma pergunta e responderes, mas também nos diálogos que acontecem entre profissionais no corredor, onde por vezes se criam alianças, projetos, desconfortos sobre os quais queremos agir, etc. Nós sabemos que disso temos de abdicar. Por outro lado, tínhamos um workshop presencial, a partir de um baralho de cartas, desenvolvido pelo Kunstenpunt / Flanders Arts Institute, e que te permite olhar para o teu projeto de internacionalização ou para as suas intenções de internacionalização. Isto é o que ficou de fora, mas do ponto vista substantivo em termos dos seus conteúdos, pensar esta conferência para março foi idêntico a pensá-la para dezembro, na medida em que já estávamos preocupados com os desequilíbrios ecológicos e políticos que queremos discutir.

G. – Este projeto visa reunir artistas e diversos agentes culturais com o intuito de se conhecerem, debaterem e partilharem ideias e estratégias. Num momento como este este intuito ganha uma outra importância?
V. R. – Como digo a proposta é a mesma no sentido de olhar para a internacionalização da dança e das artes em geral, não apenas numa perspetiva operacional e pragmática de como fazer espetáculos e digressões. Mas o que estes encontros dizem é que esses aspetos não podem ser as únicas conversas que temos acerca de internacionalização. Temos também de perceber, desde logo, o impacto que a emergência climática está a ter ou deve ter nos nossos planos de internacionalização. Isso talvez se tenha tornado, do ponto de vista se calhar da opinião pública, mais evidente com a pandemia, mas não foi seguramente gerado pela mesma. A própria desigualdade de recursos em que os processos de internacionalização se inscrevem e que têm dificuldades em contrariar, é algo que nós, não podendo resolver, temos obrigação de questionar e de perceber se as políticas, os programas e as práticas que temos em Portugal, são ou não as que melhor contrariam essas desigualdades de distribuição de recursos.

G. – Como é que como é que surgiu este convite para assumires a curadoria do evento? Pediram-te algo em concreto relativamente aos seus conteúdos?
V. R. – Os encontros têm, de facto, uma tradição nos estúdios Victor Córdon, e o tema genericamente da internacionalização já estava escolhido. A interpretação que eu fiz, a partir daquilo que são as minhas inquietações e, depois, a minha proposta foi no sentido de aproveitarmos a oportunidade não para fazer mais um encontro acerca de como é que maximizamos as oportunidades para a  internacionalização, para sair também do registo sobrevivencial, mas de tentar encontrar uma outra linguagem para discutir as nossas práticas de internacionalização. Julgo que a forma como interpretei o convite foi menos no sentido profissional, digamos da gestão cultural e da produção, e mais enquanto cidadã.

G. – Tal como escreves no texto curatorial.
V. R. – Penso que é a forma mais honesta que tenho de apresentar a minha interpretação face ao tema, porque estas questões confrontam-nos todos os dias, simplesmente são-nos colocadas no nosso plano profissional e nós por vezes achamos que isso é uma bolha de boas intenções e de bondade que, na verdade, não existe. As nossas práticas fazem parte de um mundo profundamente desigual. Não quer dizer com isto que vamos organizar um fórum para acabar com a pobreza mundial, mas no fundo queremos convocar a nossa responsabilidade, ou seja, que a única coisa que nós tenhamos para fazer em termos da internacionalização não seja só fazer candidaturas e contactos. Tudo isso faz parte da nossa prática. O que aqui se pretende é darmos um passo atrás e perguntar porquê estas candidaturas e porque estes pressupostos.

G. – Entre os oradores estará Joris Janssens, especialista e investigador na área da internacionalização das artes performativas, mas também Américo Rodrigues, António Caldeira Pires, Mário Carneiro, Cristina Farinha, Ben Twist, Cristina Planas Leitão, Elisabete Paiva, João dos Santos Martins, Rui Torrinha, Maria João Garcia e Liliana Coutinho. O que é que este conjunto de pessoas representa no contexto desta conferência?
V. R. – As pessoas foram convidadas para dar contributos distintos. Temos um conjunto de personalidades no programa da conferência a quem foram pedidos contributos teórico filosóficos, que tornassem explícito para nós o nexo entre as nossas práticas de internacionalização e um conjunto de discussões políticas e filosóficas que atravessam a sociedade contemporânea, seja a ecologia, a sustentabilidade ou a geopolítica. Este é um primeiro conjunto de intervenções. Depois há uma tentativa de não deixar estas questões a flutuar no etéreo e trazê-las para a realidade portuguesa. É aí que haverá um painel com as principais instituições que têm financiado a internacionalização, tentando iniciar um diálogo com eles acerca de como é que reagem e de como é que vamos reagir a estas discussões contemporâneas. Vamos olhar para os programas europeus, não apenas na perspetiva de quanto dinheiro é que lá está para cada projeto, mas sobre como é que eles são construídos e para onde é que caminham. E temos ainda um painel de debate alargado em que queremos no fundo convocar todas estas questões e trazê-las para a realidade concreta de quem cria, produz e programa arte em Portugal.

G. – Numa linha temática de fora para dentro.
V. R. – De fora para dentro e do geral para o particular. Mas claro, estes são assuntos que não são específicos de nenhum país, nem de nenhuma geografia. São assuntos que nos confrontam a todos. O que não significa que a geografia particular de Portugal não torne ainda mais complicadas algumas destas discussões. Nós somos um país encostado ao mar, não temos muitos vizinhos por via terrestre e sabemos que temos problemas e défices graves do ponto de vista da ferrovia. Portanto, alternativas no campo da mobilidade, que para alguns países do centro da Europa são relativamente fáceis de incorporar nos próximos anos, são muito mais difíceis de resolver quando vistas a partir de Portugal. Isto para dizer que há muitas razões importantes para que estes assuntos sejam discutidos também tendo em conta a nossa geografia concreta.

G. – São dimensões que extrapolam a discussão sobre as artes performativas.
V. R. – Sem dúvida, aliás o objetivo é o de reconhecermos que as artes neste domínio não estão em nenhuma bolha e que se têm alguma responsabilidade é justamente a de antecipar e de tentarem fazer melhor. A mim parece-me sempre um pouco pobre que as artes reivindiquem para si uma espécie de lugar moralizador do resto da sociedade, por muito que isto confronte os modelos de trabalho das artes performativas. Portugal tem um mercado de arte pequeno, que precisa dessa troca internacional para, por exemplo, prolongar a vida dos espetáculos. Esta conferência não tem respostas para muitas questões, mas tem provocações algumas delas relevantes e profundas para não tratarmos este assunto como uma espécie de selo verde.

G. – No caso português, como é que avalias o trabalho que tem sido feito nos últimos anos em termos da internacionalização das artes performativas?
V. R. – Uma avaliação global é sempre um exercício injusto para algumas políticas e programas que foram importantes para a afirmação das artes performativas em determinados momentos e a própria história de Portugal, com uma abertura ao exterior relativamente recente também implica alguma cautela. Em todo o caso, a maioria das políticas e dos programas de internacionalização parecem-me pelo menos estar ainda demasiado apegados a uma ideia de Estado-nação, muito homogénea e não totalmente condizente com a pluralidade que nós vemos todos os dias. O fado, o azulejo ou a cortiça… tendemos a achar que isto é algo do passado, mas na realidade continuamos a perceber que muitas vezes o posicionamento político ou cultural do país ainda se faz à custa dessas parangonas. Isso parece-me, desde logo, uma desconsideração da pluralidade da arte contemporânea que se produz em Portugal e das comunidades que a compõem. Esse é um primeiro olhar crítico que se impõe, especialmente agora num contexto em que sabemos que politicamente os nacionalismos estão a reemergir. Portanto, uma vez mais não se trata de reunir aqui um fórum especializado de profissionais das artes que trabalham a internacionalização, mas sim de cruzar o nosso quotidiano, os nossos projetos e as nossas práticas com os temas urgentes que vamos atravessar. Depois, devemos considerar que, genericamente, o financiamento à internacionalização em Portugal tem sido muitas vezes, por força do quão suborçamentado está a atividade artística e cultural, complementar aos financiamentos estruturais, o que pode conduzir a uma subversão dos valores e das intenções pelas quais entramos nestas trocas culturais. Ou seja, a ideia de que a cooperação cultural é um bem em si mesmo – e eu também acredito nisso -, mas que nem sempre, quando estamos a concorrer a um financiamento para garantir em parte a sobrevivência da nossa estrutura, as condições para a cooperação estão reunidas. Há aqui uma espécie de sobreposição de urgências que não coloca a cooperação e a necessidade de reciprocidade nos melhores patamares.

G. – Devido também à pandemia, sentes que foi um ano em que esses apoios europeus mereceram ainda mais atenção por parte dos criadores?
V. R. – Sempre tiveram. Em Portugal, os fundos da União Europeia foram sempre absolutamente estruturantes para amparar a despesa pública portuguesa e não me parece que as artes sejam exceção. Agora, o fenómeno que aludes preocupa-me, porque é um fenómeno em que mesmo por parte dos poderes públicos há uma espécie de convite a que se usem os fundos europeus, colmatando as dificuldades e o subfinanciamento nacional, subvertendo com isso a ideia de cooperação cultural, seja no espaço europeu, seja noutro tipo de geografias. Se de repente olharmos para os financiamentos e para a cooperação cultural apenas como forma de financiar as nossas estruturas isso não só subverte, como conduz a parcerias também muito desequilibradas.

G. – Considera que isso livra o Estado das suas responsabilidades?
V. R. – Não sei se livra. Sei que não me parece o melhor caminho, que se confundam as necessidades de financiamento estrutural da atividade artística e cultural com as oportunidades de intercâmbio e cooperação. Isso leva-nos, por exemplo, a questionar: onde é que tu escolhes vender os teus espetáculos? Onde os possam comprar. Portanto, a forma como se desenha uma estratégia de internalização também está direcionada e decalcada nas dinâmicas de mercado. A questão é que nós não estamos aqui no âmbito do Ministério da Economia, estamos no âmbito do Ministério da Cultura e por isso temos de ter uma visão mais plural.

G. – A ministra da cultura vai também marcar presença. Falando desta questão da internacionalização, o que gostavam de transmitir com estes encontros às nossas entidades estatais?
V. R. – Sim, vamos ter a presença da Ministra da Cultura e também do diretor da Direção-Geral das Artes (DGArtes), Américo Rodrigues.  Penso que se houver disponibilidade para a escuta e para o diálogo nestes encontros, isso já será um ganho. Algumas destas discussões estão ainda verdes em Portugal e acho que não seria sensato exibir aqui um conjunto de reivindicações, nem é disso que se trata. Nem todo o diálogo com as tutelas tem de ser um diálogo reivindicativo. Neste caso parece-me que é uma questão de exigência de sermos interlocutores no diálogo que está a atravessar as sociedades contemporâneas e que queremos ver mais traduzido nas políticas e nos programas. Acho que acho que esse seria um patamar razoável, de uma disponibilidade efetiva para a escuta não apenas da tutela, mas também das outras entidades privadas que têm um papel muito importante na internacionalização. Até porque a mudança nalguns desses programas pode ter um efeito substancial na forma como o tecido responde e entende a cooperação.

G. – Basta às vezes que se mudem alíneas de certos programas.
V. R. – Absolutamente. Penso que nesta conferência não queremos colocá-la num lugar de reivindicação do que quer que seja a não ser num diálogo mais exigente. Não será uma conferência para simplificar. Não se trata disso. Trata-se de complexificar a forma como olhamos para a internacionalização recusando reduzi-la a estas práticas de como viabilizar digressões, sem nenhuma relação com o que está a acontecer. E volto a dizer especificamente a partir da geografia portuguesa que tem particularidades. Por exemplo, para nós alimentamos a relação, que politicamente é sempre acarinhada, com os Países de Língua Oficial Portuguesa temos que apanhar um avião. Isso não acontece em todos os países e, portanto, há urgências contraditórias. Como é que nós compatibilizamos o estreitar laços com o espaço da lusofonia com a urgência climática? Ninguém pode dizer que tem resposta a estas perguntas, agora nós temos que começar a articulá-las.

G. – O digital e o online ganham força nestes tempos de pandemia. Passam também a ser uma ferramenta importante das artes performativas, nomeadamente na sua facilidade de internacionalização?
V. R. – Penso que a discussão está em curso e até agora tem apontado tantas potencialidades como perigos, sendo que uma vez mais é importante que o diálogo e o escrutínio comecem mais cedo do que tarde. Com isto eu quero dizer que começamos a discutir mais cedo as potencialidades mas também o empobrecimento que algumas opções digitais implicam no caso concreto das artes performativas, antes que esse desígnio digital esteja plasmado em regulamentos e em programas de financiamento europeus e aí nós venhamos dizer que não era bem isto que queríamos. Uma vez mais, apesar disto não um tema explícito da conferência, parece-me que nalguns momentos vai ser inevitável que ele apareça e acho importante que essa discussão se faça.

G. – Os próximos anos antecipam dificuldades. Nestes encontros que olham para o futuro, o que gostava que surtisses dos mesmos?
V. R. – Gostava que o trabalho não terminasse no sábado porque tenho consciência de que a dimensão dos problemas que vamos abordar não se coaduna com uma discussão de um dia e muito menos com uma discussão online. Era fundamental não adiar, até porque me parece que esta discussão tem uma urgência suficiente para ela se fazer mesmo online, mas aquilo que eu gostava é que nós não regressámos imediatamente, mal as condições operacionais estejam garantidas, a práticas de internacionalização pouco pensadas e que criássemos outros contextos e outras práticas para que no fundo façamos melhores escolhas, enquanto artistas, programadores e políticos. Acho que 2021 é um ano em que vamos ter que voltar a trabalhar sobre estes temas, espero eu presencialmente, criando grupos de trabalho, criando mudanças e projetos-piloto. Está ainda muito por fazer.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Sérgio Lopes

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui.